Gaza: crianças não conseguem esquecer de ofensiva de Israel
07 de dezembro de 2009 10h03 atualizado às 10h46

Para Nada Yoma, uma adolescente palestina de 14 anos e moradora do bairro Sheik Raduan, em Gaza, é impossível esquecer como um foguete israelense destruiu sua casa, matou sua mãe e causou a amputação de uma de suas pernas.

A menina não consegue se desfazer das duras lembranças todas as vezes que olha para sua perna amputada ou quando vê uma foto de sua mãe, já que ainda estão vivos em sua mente os 22 dias de ofensiva militar israelense entre dezembro de 2008 e janeiro deste ano.

"São as lembranças mais duras que vivi. Não consigo esquecer o momento em que o míssil impactou nossa casa, a potente explosão, o pó, a fumaça e os escombros caindo sobre nós. Não posso tirar da cabeça a imagem da minha mãe morta, minha irmã e irmão feridos, e como perdi a perna", conta Nada.

Onze meses depois do ataque, a adolescente tenta levar uma vida normal. De manhã vai ao colégio e à tarde passa a maior parte do tempo em seu quarto fazendo os deveres.

Mas Nada não fala muito e, quando tenta sorrir, em seu rosto se desenha uma mistura de melancolia e de tristeza.

Seu pai, Jamal Yoma, não esconde que ainda tem pesadelos e lembra os detalhes deste fatídico dia.

"Era o segundo dia do ano e fui comprar algo para comer. Quando voltei, os aviões israelenses tinham disparado um foguete contra minha casa. Só vi pó e fumaça e a minha família banhada em um charco de sangue", conta o pai.

Jamal lembra como encontrou sua mulher morta ainda abraçada a seu filho pequeno ferido, enquanto Nada e sua irmã Dalia de 10 anos também estavam no chão, ao lado de sua mãe.

"Pensei que tinham morrido todos até que Nada gritou, ''papai, estamos aqui''", disse.

Os serviços de socorro levaram todos para o hospital e somente quando chegou ao centro médico o pai pôde perceber o estado da perna de sua filha mais velha.

Com lágrimas nos olhos, explica que "a única opção era amputá-la, para salvar sua vida".

O pai conta, ainda, que a menina não quer ver seus amigos ou brincar com outras crianças do bairro porque é tímida e tem vergonha por não ter uma perna.

"Sempre para em frente ao espelho e ao observar seu corpo começar a chorar", diz.

Nada passa a maior parte do tempo fechada em casa olhando uma fotografia de sua mãe pendurada na parede de seu quarto diante da impotência de seu pai que se lamenta por não saber como ajudá-la.

"O que quero é poder caminhar pela rua sem a ajuda de ninguém", conta a menina, que se recusa a utilizar uma prótese e uma cadeira de rodas que foram oferecidas a ela por organizações beneficentes.

Dos 1.440 palestinos mortos na ofensiva israelense em Gaza, mais de 350 eram menores, assim como 1.872 dos 5.300 feridos, segundo dados oficiais palestinos, que cifram em 500 número de crianças que ficaram fisicamente incapacitadas.

Mustafa Abed, responsável da Associação de Ajuda Médica de Gaza, que atende às vítimas, disse ter registrado 600 casos de incapacidade física em pessoas de todas as idades.

Dalia, irmã de Nada, ficou ferida no abdômen em janeiro e se recuperou após um longo tratamento, embora ainda tenha sequelas psicológicas.

Enquanto rói as unhas sentada em um sofá da casa, reconstruída após a guerra, diz que vê a mãe em seus sonhos.

"Sempre peço a ela que volte para casa, mas ela me diz que não pode porque está no paraíso. Portanto peço que me leve com ela", afirma.

Diferentes estudos alertam que as sequelas psicológicas da guerra nas crianças de Gaza, que representam a metade dos 1,5 milhão de habitantes da faixa, continuarão por vários anos.

Iyad al-Saraj, responsável do Programa de Saúde Mental de Gaza adverte que os menores "são incapazes de desenvolver uma infância normal" e prevê que se a situação for mantida, "uma geração inteira de crianças crescerá para se tornarem militantes mais violentos e fanáticos".

EFE
EFE - Agência EFE - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da Agência EFE S/A.