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Vincular islamismo a terrorismo é como ligar catolicismo a pedofilia

11 ago 2011
18h08
atualizado às 18h16
Daniel Favero
Direto de Porto Alegre

Para estudiosos de teologia, após os atentados de 11 de setembro as autoridades islâmicas se posicionaram fortemente contra o terrorismo, mas motivações políticas nortearam um esforço do Ocidente de vincular injustamente a religião a atos de extrema violência. "Acho que a gente poderia fazer uma má comparação dizendo que o catolicismo é pedófilo, como se a gente passasse a tratar algo que acontece dentro do catolicismo como alguma coisa caracterizadora", sugere a professora de pós-graduação de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Maria José Rosado Nunes.

Menino lê o Corão em Kuala Lampur;  aberto a interpretações, o livro sagrado dos muçulmanos gera controvérsias
Menino lê o Corão em Kuala Lampur; aberto a interpretações, o livro sagrado dos muçulmanos gera controvérsias
Foto: AFP

"No meu ponto de vista, há um problema do Ocidente nessa identificação de terrorismo e islamismo. Isso é uma questão política, que deveria ser trabalhada e discutida. Não é justo para o islamismo esse vínculo de terrorismo. O islã não é terrorista", diz a professora.

Para o professor de Ciência da Religião da (PUC-SP) Frank Usarski, especialista na religião islâmica, as autoridades religiosas se posicionam contra o terrorismo, mas a cultura islâmica, e suas sutilezas, como os motivos para o uso do véu, ainda são interpretadas de forma errada por culturas ocidentais. "A rejeição do terrorismo como algo anti-islâmico abrange geralmente alusões ao caráter pacifico do Islã, um aspecto já implícita na nomenclatura da religião cujas raízes etimológicas (= 's-l-m') apontam para um campo semântico que inclui também a palavra como salam = 'paz'", explica.

Segundo ele, diferente do que se pensa, o Corão não obriga as mulheres a vestirem a burqa - obrigatória em países mais ortodoxos -, mas cita apenas vestimenta que deve cobrir as partes do corpo da mulher. Os versículos que abordam a questão, no entanto, são vagos, e a interpretação é influenciada conforme os costumes regionais anteriores a chegada do islã. Segundo ele, a vestimenta era um sinal de status social e seu uso só foi sancionado pelo livro sagrado do islã, posteriormente.

A disposição de imigrantes em adotar símbolos da cultura islâmica em solo estrangeiro, conforme apontam estudos, pode ser explicada, segundo o professor, como uma tentativa de se integrar a um grupo. "A mesquita da minoria islâmica local atrai, pois lá podem ser encontrados outros indivíduos na mesma situação". Nesse contexto, o uso da burqa, afirma, pode ser interpretado de três formas distintas: como compromisso da retomada com uma vida religiosa mais rigorosa; sinal de pertencer a uma comunidade minoritária e fonte de identidade individual para a mulher geralmente excluída do processo de produção.

Violência no Corão
Usarski diz que existem três passagens no Corão sobre o uso da violência para fins religiosos: favorável, contrária e demarcada. "É importante ressaltar que todos estes versículos apontam para situações concretas na época de Maomé na busca de realização de seu projeto religioso contra a oposição de politeístas, cristãs e judeus da península arábica. Quem abstrai dessa contextualização e lê esses e ouros versículos literalmente encontra diversas justificativas potenciais para a violência contra não-muçulmanos".

A primeira passagem à violência é considerada inferior à virtudes como paciência e firmeza passiva. "Nesse sentido, a surata capítulo 5,2 diz, por exemplo: 'E que o ódio para com um povo, por haver-vos afastado da Mesquita Sagrada, não vos induza a agredir. E ajudai-vos, mutuamente, na bondade e na piedade. E não vos ajudais no pecado e na agressão'", cita.

A segunda passagem prega o contrário, o apelo à violência contra injustiça e descrença, diz Usarski ao citar trecho sobre o "combate aos que são combatidos, porque sofreram injustiça". "Algo semelhante encontra-se na 9ª surata, cujo versículo 25 diz: 'Com efeito, Allah socorreu-vos, em muitos campos de batalha'; e o versículo 29 acrescenta: 'Dentre aqueles, aos quais fora concedido o Livro, combatei os que não crêem em Allah nem o Derradeiro Dia, e não proíbem o que Allah e Seu Mensageiro proibiram, e não professam a verdadeira religião; combatei-os até que paguem al jizah (imposto para não-muçulmanos), com as próprias mãos, enquanto humilhados'".

Já a terceira passagem fala sobre a demarcação da violência para apenas em momentos de combate, explica Usarski. "E combatei, no caminho de Allah, os que vos combatem, e não cometais agressão. Por certo, Allah não ama os agressores. (2:190)", cita o professor.

Fonte: Terra
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