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24 de setembro de 2011 • 17h46 • atualizado às 18h00

Protestantes e católicos divergem sobre reabilitação de Lutero

 

Entre as divergências visíveis entre católicos e protestantes durante a visita desta semana do papa Bento XVI à Alemanha está um desentendimento sobre se Martinho Lutero, o monge reformista do século XVI que deu início à divisão da cristandade no Ocidente, foi reabilitado.

O papa Leão IX expulsou Lutero da Igreja Católica Romana em 1521 com um decreto vociferante tachando-o de "escravo de uma mente depravada" e qualificando seus seguidores de "seita herege e perniciosa". Mas o sucessor de Leão IX nos dias atuais, Bento XVI, falou de maneira tão positiva sobre a profunda fé de Lutero durante uma visita ao antigo mosteiro do monge, em Erfurt, na sexta-feira, que o principal bispo protestante da Alemanha anunciou que Lutero havia sido efetivamente reabilitado.

"Lutero conheceu hoje uma reabilitação de fato por meio da apreciação de seu trabalho", anunciou na sexta-feira a jornalistas o bispo Nikolaus Schneider, líder da Igreja Evangélica na Alemanha, após conversar com o papa. "Ouvimos isso muito claramente da boca do papa", disse ele. "O que virá em seguida agora é uma outra questão."

O porta-voz do Vaticano, reverendo Federico Lombardi, não foi na mesma linha, em declarações neste sábado. "Dizer aquilo seria um exagero", afirmou ele a jornalistas em Freiburg, última parada nos quatro dias de visita do papa à sua terra natal. "Isto é algo sobre ter fé profunda e eu acho que enfatiza os pontos em comum que temos em nosso amor de fé."

O que se passou 490 anos atrás está assumindo novo significado na Alemanha porque os protestantes do país se preparam para celebrar o 500º aniversário das 95 teses de Lutero, o manifesto dissidente de 1517 que terminou por conduzir à Reforma.

Os protestantes gostariam que os católicos dissessem que Lutero não era um herege, mas um grande teólogo cristão. "Seria bom se eles pudessem declará-lo um doutor da Igreja", disse à Reuters a bispa luterana de Erfurt, Ilse Junkermann.

Bento XVI, que antes de assumir o papado era o cardeal Joseph Ratzinger, é o primeiro Papa que leu Lutero, conhece bem os luteranos e aprecia o que vê como os aspectos positivos dele - fé profunda, foco em Jesus, ênfase na Bíblia e domínio da língua alemã.

Quando era cardeal, Bento XVI também teve papel importante no acordo católico-luterano de 1999, no qual se estabelecia que não mais discordavam sobre algumas questões teológicas complexas levantadas por Lutero e removiam anátemas lançados de ambas as partes na época da Reforma.

Schneider afirmou que terão de ser feitas algumas concessões por ambos os lados para se chegar a um acordo até 2017. Como exemplo, ele disse que sua igreja não iria apresentar Lutero como "um herói intocável que nunca fez nada de errado".

Não está claro se o Vaticano, que não gosta de oficialmente desfazer iniciativas de Papas anteriores, pode ou deseja ir tão longe como a reabilitação de fato de Lutero. Alguns luteranos dizem que não precisam de um selo de aprovação do Vaticano.

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