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Primavera Árabe: uma nova mensagem para uma nova década

8 dez 2011 15h50
| atualizado em 6/1/2012 às 14h40
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Felipe Schroeder Franke

Entre os eventos mais esperados de 2011 estava o aniversário dos 10 anos de 11 de setembro. Era a data para lembrar o pior atentado da história contemporânea, responsável por renovar um milenar choque de civilizações e despejar sobre as mentes ocidentais contemporâneas um caldeirão de dúvidas, medos e preconceitos sobre o Islã e os árabes.

Clérigo muçulmano comanda oração durante protesto na Praça Tahrir, no Egito: a Primavera Árabe prossegue
Clérigo muçulmano comanda oração durante protesto na Praça Tahrir, no Egito: a Primavera Árabe prossegue
Foto: AFP

Tal como esperado, 2011 provou-se um ano marcado pelo mundo árabe. O modo como isso ocorreu, no entanto, talvez não tenha sido previsto por ninguém. Muito mais que um ano para relembrar o horror da Al-Qaeda nos Estados Unidos, 2011 foi um ano de revolução no Norte da África e no Oriente Médio, área que concentra a maior parte dos fiéis muçulmanos de todo globo.

Foi perto dali, entre a Arábia Saudita e o Afeganistão, que Osama bin Laden orquestrou o ataque a Nova York. E foi também ali - mas em uma área muito mais ampla e significativa, desde o Marrocos até as fronteiras do Irã - que 2011 acompanhou perplexo, enérgico e curioso a uma cadeia colossal e desafiadora de protestos e confrontos por uma nova ordem política e social em uma região que, ao longo da última década, havia se tornado sinônimo de terrorismo e fundamentalismo.

De Bouazizi a Damasco
A semente improvável da Primavera Árabe foi plantada na virada de 2010 para 2011, no interior da Tunísia, quando Mohammed Bouazizi, um jovem desempregado, imolou-se em protesto contra a situação social do país. Bouazizi morreu no dia 4 de janeiro. Num amálgama entre a emoção da morte e a racionalidade da legitimidade do seu protesto, os tunisianos foram às ruas para manter o espírito inflamado pelo jovem. A pressão montava de cidade em cidade, os protestos se seguiam, a violência crescia, até que, 10 dias depois, em 14 de janeiro, o presidente Zine el-Abdine Ben Ali renunciou, dando fim a um governo que já durava 23 anos.

Os milhares de quilômetros de deserto que separam a Tunísia do Egito não foram suficientes para que a mensagem se perdesse. Cerca de duas semanas depois, o mesmo movimento gestado em Túnis começou a se formar no Cairo e em demais cidades do Egito. O exército saiu às ruas, mas os egípcios não afogaram e começaram, aos poucos, a sitiar a Midan al-Tahrir, a Praça da Liberdade, no coração da capital. Foram 18 dias de protestos, confrontos e persistência, até que, no dia 11 de fevereiro, Muhammad Hosni Said Mubarak renunciou após 29 anos na presidência.

Neste momento, diversos países árabes começavam a registrar levantes similares, como Omã, Bahrein e Argélia. Mas foi na improvável Líbia que começou a escrever o terceiro e, até agora, mais complexo capítulo mais desta primavera. O início foi nos moldes conhecidos: protestos nas ruas. Mas a realidade líbia logo mostrou-se diferente, à medida que as forças leais ao líder Muammar Kadafi, havia 42 anos no poder, ameaçavam os insatisfeitos com bombardeios. A solução, alienígena a tunisianos e egípcios, foi uma intervenção ocidental sob o comando da Otan. Foi esta mão ocidental, que para muitos manchou a Primavera Árabe, que possibilitou que rebeldes, após meses de guerra civil e estimados 30 mil mortos, encerrassem a era Kadafi, este morto após capturado, em 22 de outubro.

Dois outros capítulos da Primavera Árabe também já estão sendo escritos. Aquele cuja redação parece mais adiantada é o do Iêmen, onde, após meses de protestos, repressão e atentados, o presidente Ali Abdullah Saleh aceitou assinar um acordo que negocia sua transição com a oposição. No momento, Saleh, que governa o Iêmen há 32 anos, é meramente o presidente honorário. Um novo governo deve ser convocado no início de 2012.

Muito mais em branco, no entanto, estão as linhas da Síria. Com uma convulsão proporcional à egípcia e uma repressão similar à líbia, o regime de Bashar al-Assad encontra-se em um xeque que resiste em tornar-se mate. Desafiada pela oposição - pouco conhecida mas já organizada em um Conselho Nacional de Transição - e pressionada pelos vizinhos árabes e pelas potências ocidentais, a Síria, este país fundamental para o balanço geopolítico do Oriente Médio, não tem futuro certo.

Outras primaveras
A Primavera Árabe, vale lembrar, não é a primeira onda de revolução que varre o mundo árabe, tal qual o conhecemos hoje. No início do século XX, grandes partes do Norte da África e do Oriente Médio, então sob domínio do Império Otomano (1299-1922), foram substituídos por monarquias e governos instaurados por França e Reino Unido, as potências vencedoras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

É desta época que datam o Reino do Egito sob as mãos do Reino Unido (1922), a colônia italiana na Líbia (1911), a independência do Iêmen sob os auspícios da família Hamidaddin (1918), e a divisão da Síria sobre áreas de influências francesa e britânica (1920). Somente a Tunísia remete sua independência ao final do século XIX, ocupada desde 1883 pelos franceses.

No entanto, foram somente necessárias algumas décadas para que esta ordem do início do século fosse invertida por uma série de revoltas de elites locais contra a intrusão de governos ocidentais. No entorno do caos provocado pela Segunda Guerra Mundial, emergiu no mundo árabe uma nova ordem política.

Em 1956, a Tunísia obteve sua independência da França e elegeu seu primeiro presidente. Em 1953, o Egito libertou-se da longeva presença britânica para tornar-se uma República. Em 1951, a Líbia tornou-se independente da Itália, assumindo a forma de uma monarquia. Na década de 1960, o Iêmen (então dividido entre norte e sul), extinguiu a monarquia e tornou-se uma República. Em 1946, as últimas tropas francesas deixam a Síria.

Os episódios do início do século XX ergueram novos reinos sobre as cinzas otomanas, e as reformas dos anos 40 a 60 deram uma face nova e mais nacional a estes países árabes. Agora, massas de jovens saem às ruas e conseguem a renúncia de presidentes. Líderes ocidentais saúdam os novos governos, embora ainda pouco conhecidos. E partidos islâmicos vencem eleições para redigir novas constituições.

Surgem dúvidas: quem são eles? O que pensam? O que entendem pelo famigerado conceito de democracia? Nascerá uma nova leva de governos de orientação islâmica? Se sim, qual o impacto disso? E qual o papel do Ocidente nesse novo século XXI, que, agora parece claro novamente, oferece muito mais (e melhor) que terrorismo e extremismo?

"Toda esta certeza que eu vivi desaparece / Todas estas tochas de meus desejos se desvanecem / Tudo que havia entre mim e a existência / luminosa na minha Hégira se desvanece / Agora começo desde o princípio...", escreve o poeta sírio contemporâneo Adônis, como que um convite ao futuro em curso e em aberto. "A realidade / em que se converteram os caminhos da derrota / é a única / que conduz aos caminhos da liberdade", convida ele para a Primavera Árabe, que seguirá em 2012.

(Livre tradução de trechos dos poemas "Desertos" e "Celebração da realidade", traduzidos do árabe para o espanhol por Maria Luisa Prieto e disponíveis em http://www.poesiaarabe.com/)

Fonte: Terra
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