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Peres: não há outra opção além da paz e a criação de um Estado palestino

18 jun 2013
10h16
atualizado às 11h09

O presidente de Israel, Shimon Peres, disse nesta terça-feira que "não há nenhum tipo de alternativa" para israelenses e palestinos que não seja alcançar a paz com base na solução de dois Estados, um acordo que não se pode evitar e para o qual é preciso "mudar o estado de ânimo" de ambas as partes.

Em entrevista concedida à Agência Efe em um "momento crucial" para o processo negociador (nas palavras do secretário de Estado americano, John Kerry), o presidente israelense, prestes a completar 90 anos, mostrou-se convencido de que ainda poderá ver um Estado israelense e um palestino convivendo em paz como vizinhos.

Peres, que conhece como poucos os segredos do conflito e da complicada história do Estado Israel desde sua fundação, há 65 anos, quando o atual presidente começava a ocupar postos de relevância, acredita que a realidade impõe a paz como única opção e que essa tendência "cresceu" também no mundo árabe.

Conforme vai respondendo as perguntas, o veterano dirigente faz com que se esqueça que ele se trata do chefe de Estado mais velho do mundo aos mostrar a lucidez do político que manejou durante décadas boa parte das peças do quebra-cabeças do Oriente Médio.

P.- Segundo sua opinião, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, quer realmente alcançar a paz com os palestinos com base na solução de dois Estados?

R.- Temos que julgar uma pessoa pelo que diz e o que faz. Ele declarou sua posição claramente e agora acho que deve traduzi-la em ações.

P.- Mas considera possível conseguir a paz com o atual governo de coalizão israelense, no qual convivem partidos com notáveis diferenças em relação à maneira de abordar o processo?

R.- Acho que sim, mas o problema é como traduzir isso em uma solução acordada, em um caminho acordado para fazer a paz. E essa é a missão agora do secretário Kerry. Temos que apoiar sua missão. E acho que não há nenhum tipo de alternativa à solução de dois Estados, nem para os palestinos nem para nós. É a única alternativa real existente para as duas partes para se viver em paz e poder avançar no futuro.

As diferenças em todas as partes são mais psicológicas que reais. O que temos que fazer, embora pareça estranho, é mudar o estado de ânimo para que possamos ser capazes de mudar o mapa.

O ceticismo está ganhando agora a partida, mas o ceticismo não é uma política. A meu ver é algo preguiçoso. As pessoas preguiçosas podem ser céticas, mas é um erro. Qualquer outra coisa exige ações, decisões, mas as pessoas se cansam, dizem que não sabem e isso é um erro.

P.- O senhor está disposto a debater com os palestinos uma das questões mais espinhosas: o status de Jerusalém?

R.- Será discutido em qualquer caso nas negociações. O problema é se temos que discutir antes das negociações, ao longo delas ou no final. Acho que ambas as partes, incluindo a parte árabe, com a qual estou falando com seus líderes com boas relações, estão de acordo em adiar o tema de Jerusalém, que é um tema muito sensível e muito conturbado, para o final das negociações, para evitar queimá-las em seu início.

É um tema extremamente delicado e complicado. É possível resolver, mas necessitamos um ambiente diferente para isso. E acho que ao final das negociações o ambiente será diferente, mais razoável e isto fará com que sejamos capazes de lidar com as questões difíceis.

P.- Deve-se interromper a construção de assentamentos judaicos em Jerusalém Oriental e Cisjordânia, como pedem os palestinos, para dar uma oportunidade ao reinício das negociações?

R.- Acho que já não é o que costumava ser, não quero falar em nome do governo, mas Netanyahu disse: "precisa ser sábio, não só estar certo", portanto tome isso como uma linha política.

P.- Prestes a completar 90 anos e após mais de 60 na política israelense, como o senhor gostaria de ser recordado?

R.- Não estou preocupado com a pergunta de como deveria ser recordado, mas pela de como devo lembrar. O que significa que para mim a questão é o futuro, não o passado. O que passou, passou, pode-se lembrar se desejar, pode-se esquecer. O passado não se pode modificar, o que podemos realmente mudar é o futuro. Portanto para mim a questão é sempre lembrar o amanhã e ver o que se pode fazer no futuro.

P.- E como vê esse futuro? Estará em perigo a existência do Estado de Israel se não se chegar a um acordo com os palestinos?

R.- Todo país pode realmente decidir sua política, mas todo país tem suas limitações e todo governo tem um parceiro silencioso que se chama realidade.

Pela minha experiência, sei que os líderes, mais que influenciarem a realidade, são influenciados por ela. E não há nenhuma alternativa mais real do que fazer a paz. Pode-se adiá-la, esperar um pouco, mas não se pode escapar dela. O povo não quer viver no perigo e no desespero. E acho que finalmente, a realidade, como uma visão, será a vencedora.

P.- Acredita que o senhor poderá ver ainda um Estado israelense e um palestino convivendo em paz um ao lado do outro?

R.- Sim, acredito. E acredito pois julgo a história não por seus eventos mas por sua evolução, e o mundo árabe não é só rico em eventos trágicos e dramáticos mas também está começando a se movimentar para uma nova era. Existem 350 milhões de árabes, dos quais 99 milhões estão com seus computadores na internet. Este é um movimento mais importante, na minha opinião, do que um choque de soldados.

Eu nunca deixei de ser otimista, não entendo por que as pessoas escolhem ser pessimistas. Os otimistas e os pessimistas morrem da mesma maneira, mas vivem diferente.

P.- Como são as relações atuais entre Israel e América Latina? Se sentiu decepcionado porque todos os países do continente, salvo Colômbia e Panamá, votaram a favor do reconhecimento da Palestina como Estado na ONU?

R.- A América Latina está atravessando uma grande mudança, como o resto do mundo. Estamos diante de uma nova era e existe uma nova América Do sul. Ir ao ontem, à história, talvez seja importante, mas o que será decisivo realmente é o futuro. E na América do Sul, além de um despertar democrático político há também um despertar democrático econômico que está chegando, junto à ciência, e que está mudando todo o continente.

Portanto para mim os votos de ontem não são uma indicação das posições do amanhã. Eu não julgo as situações só pelos votos. Trato de entender os eventos e vejo a América Latina se fazendo moderna, movimentando-se para frente.

P.- Como opina sobre as transformações provocadas pela chamada primavera árabe?

R.- Hoje é muito difícil ver onde existe um país árabe coeso. Todos os países árabes e o mundo árabe estão atravessando tremendas mudanças.

Uma deles para melhor: acho que a tendência para a paz cresceu e a paciência com o extremismo está diminuindo. O terrorismo, que é uma ameaça para Israel, se transformou em um problema para os países que têm terroristas em seu interior.

Os terroristas estão partindo o território de seus países em pedaços. As guerras civis em muitos países se devem a existirem tantas organizações terroristas, sem um denominador comum, sem uma política clara.

Tomemos o exemplo de Gaza. Além do Hamas há outras três ou quatro organizações terroristas e ninguém pode controlar isso, nem sequer o Hamas. Olhe Líbano, com o Hezbollah. Para onde estão indo?

Penso que finalmente o mundo árabe também tomará uma posição contra o terrorismo, porque é seu inimigo e não uma ameaça ao que eles acham que é seu inimigo. E acho que o verdadeiro problema no Oriente Médio hoje é existencial, mais que político. Portanto, em um momento de mudança, temos que mudar as perguntas pois as respostas são diferentes.

P.- Israel atacará as instalações nucleares iranianas este ano caso não tenham êxito as sanções econômicas e a pressão diplomática?

R.- O Irã é um problema para o resto do mundo e Israel não deve monopolizá-lo. E há uma clara política dos Estados Unidos, liderada pelo presidente Obama, que diz que não devemos permitir ao Irã obter armas nucleares. Devemos tentar evitar isso através de vários meios: sanções econômicas, pressões políticas, mas não excluímos nenhuma outra opção.

Eu não acho que Israel deva ter um plano separado, somos parte do mundo e fomos ameaçados pelo Irã, apesar de ninguém ameaçar os iranianos, não sei por que eles fazem isso. O mundo não pode ficar louco e permitir que gente fanática tenha armas de destruição em massa.

P.- Em relação à Síria, Israel tem alguma intenção de se envolver no conflito nesse país?

R.- Israel não quer se envolver no conflito sírio. Qualquer intervenção de nossa parte pioraria a situação e não estamos interessados em aumentar o perigo e as mortes.

EFE   
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