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Oposição faz grande manifestação no Bahrein

25 fev 2011
16h54
atualizado às 17h37

Milhares de opositores, muitos dos quais xiitas, invadiram nesta sexta-feira as ruas de Manama, em uma grande manifestação para exigir uma vez mais reformas políticas no pequeno reino do Bahrein.

Dezenas de milhares de manifestantes antigoverno exibem bandeiras nacionais e marcham até a Praça Pérola em Manama
Dezenas de milhares de manifestantes antigoverno exibem bandeiras nacionais e marcham até a Praça Pérola em Manama
Foto: AP

Esta forte mobilização foi realizada no 12º dia de protestos contra o regime, em um momento em que os Estados Unidos reiteraram seu apoio à monarquia e a um diálogo desta com a oposição.

Nesta sexta-feira, dia de orações semanais nas mesquitas, os religiosos xiitas decretaram um luto em memória dos sete manifestantes mortos nos primeiros dias da revolta conta a dinastia sunita.

A Praça da Pérola, no centro de Manama, epicentro dos protestos que já duram 12 dias e ruas que levam a ela permaneciam bloqueadas por dezenas de milhares de manifestantes, constatou um colaborador da AFP no local.

Os manifestantes, crianças e adultos, agitavam bandeiras bareinitas, vermelhas e brancas, gritando "o povo quer a queda do regime!". Os participantes estavam separados em homens, de um lado, e mulheres com longos véus pretos, do outro.

Muitos manifestantes que ocuparam a praça, transformada em acampamento, conversavam tranquilamente ou descansavam dentro de suas barracas, segundo um correspondente da AFP.

"A maioria pede uma mudança de regime", afirmou Ibrahim Ali, de 42 anos, um engenheiro mecânico que aderiu à manifestação.

Mas a oposição, dominada pelos xiitas, não parece desejar a queda do regime e prefere que se realizem reformas profundas, entre elas a instauração de uma "verdadeira" monarquia constitucional.

No entanto, muitos manifestantes continuam rejeitando o diálogo com o governo.

Assim, uma criança levada pelo pai nos ombros, tinha na mão um cartaz que dizia "o povo disse 'não' ao diálogo".

"Um estado livre, com cidadãos felizes", dizia outro cartaz, enquanto um terceiro reivindicava a "libertação dos prisioneiros políticos".

O religioso Abdel Yalil al Moqdad dirigiu-se ao público na Praça da Pérola.

"Queremos um regime parlamentar, democrático, no qual o povo eleja o Parlamento e este último forme o governo", declarou à AFP.

Al Moqdad negou que os protestos tivessem motivações religiosas.

"O povo só pede democracia e que a riqueza seja distribuída equitativamente", afirmou.

Não foi registrada a presença da polícia, embora um helicóptero sobrevoasse a praça, em cujos arredores o tráfego era praticamente normal.

Membros do serviço de ordem, vestindo jalecos alaranjados, recebiam doações dos motoristas que levavam comida e bebida aos manifestantes.

O chefe de Estado-maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, almirante Mike Mullen, chegou na quinta-feira ao Bahrein, um dos principais aliados de Washington no Golfo.

O Bahrein é a sede da V Frota americana, pilar do poder naval de Washington no Golfo, onde dispõe de navios encarregados de proteger o tráfego de petróleo pelo estreito de Ormuz e vigiar o Irã.

Mundo árabe em convulsão
A onda de protestos que desbancou em poucas semanas os longevos governos da Tunísia e do Egito segue se irradiando por diversos Estados do mundo árabe. Depois da queda do tunisiano Ben Alie do egípcio Hosni Mubarak, os protestos mantêm-se quase que diariamente e começam a delinear um momento histórico para a região. Há elementos comuns em todos os conflitos: em maior ou menor medida, a insatisfação com a situação político-econômica e o clamor por liberdade e democracia; no entanto, a onda contestatória vai, aos poucos, ganhando contornos próprios em cada país e ressaltando suas diferenças políticas, culturais e sociais.

No norte da África, a Argélia vive - desde o começo do ano - protestos contra o presidente Abdelaziz Bouteflika, que ocupa o cargo desde que venceu as eleições, pela primeira vez, em 1999; mais recentemente, a população do Marrocos também aderiu aos protestos, questionando o reinado de Mohammed VI. A onda também chegou à península arábica: na Jordânia, foi rápida a erupção de protestos contra o rei Abdullah, no posto desde 1999; já ao sul da península, massas têm saído às ruas para pedir mudanças no Iêmen, presidido por Ali Abdullah Saleh desde 1978, bem como em Omã, no qual o sultão Al Said reina desde 1970.

Além destes, os protestos vêm sendo particularmente intensos em dois países. Na Líbia, país fortemente controlado pelo revolucionário líder Muammar Kadafi, a população vem entrando em sangrento confronto com as forças de segurança, já deixando um saldo de centenas de mortos. Em meio ao crescimento dos protestos na capital Trípoli e nas cidades de Benghazi e Tobruk, Kadafi foi à TV estatal no dia 22 de feveiro para xingar e ameaçar de morte os opositores que desafiam seu governo. Na península arábica, o pequeno reino do Bahrein - estratégico aliado dos Estados Unidos - vem sendo contestado pela população, que quer mudanças no governo do rei Hamad Bin Isa Al Khalifa, no poder desde 1999.

Além destes países árabes, um foco latente de tensão é a república islâmica do Irã. O país persa (não árabe, embora falante desta língua) é o protagonista contemporâneo da tensão entre Islã/Ocidente e também tem registrado protestos populares que contestam a presidência de Mahmoud Ahmadinejad, no cargo desde 2005. Enquanto isso, a Tunísia e o Egito vivem os lento e trabalhoso processo pós-revolucionário, no qual novos governos vão sendo formados para tentar dar resposta aos anseios da população.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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