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O romance nas monarquias do Golfo na era da comunicação digital

25 jun 2013
13h13
atualizado às 13h43

O jovem árabe Jaber passa várias horas do dia, todos os dias, trocando com sua amada doces palavras de amor e sonhando com o futuro... através de um BlackBerry.

Este é apenas um exemplo de como nas conservadoras sociedades islâmicas do Golfo as novas tecnologias permitem aos jovens superar os empecilhos e limitações sociais de sua cultura tradicionalista.

Sentado no café de um luxuoso centro comercial de Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, o Jaber, 20 anos, está vestido de branco - como manda a tradição - e tecla sem parar em seu celular de última geração enquanto toma um chá.

"Eu a vi no cinema e pedi ao lanterninha que entregasse par ela o número do meu BlackBerry, mas não esperava que ela me adicionasse a sua lista de contatos e muito menos que dali nasceria uma história de amor entre nós", contou.

A jovem, que prefere não revelar seu nome, levou mais de dois meses para aceitar o convite para o primeiro encontro... no Skype.

"O encontro, apesar de breve, foi suficiente para confirmar nosso amor", afirmou Jaber, que logo convenceu a garota a aceitar um encontro real. Agora ele faz planos para o futuro, apesar do medo de ter que enfrentar a hostilidade da sociedade.

"Apesar da modernização, as famílias continuam muito apegadas aos valores tradicionais nos Emirados Árabes Unidos", explica Jamila Janji, conselheira da Fundação de Desenvolvimento Familiar, em Abu Dhabi.

"As famílias continuam arranjando os casamentos dos seus filhos, mas agora se mostram mais flexíveis e autorizam, por exemplo, que os noivos se encontrem ou que o noivado seja mais longo para que os jovens tenham tempo de se conhecer melhor", acrescenta Janji.

Uma adolescente de 16 anos disse à AFP que suas colegas de turma entram em contato com desconhecidos pelo BlackBerry, depois passam a falar com eles pelo Skype e, quando a relação se torna séria, pelo Facebook.

Os Emirados Árabes Unidos são considerados um dos países mais abertos da região. Por outro lado, os encontros entre jovens do sexo oposto são mais difíceis na vizinha Arábia Saudita, onde a separação espacial entre homens e mulheres é rigorosa.

Em uma cafeteria na entrada de um centro comercial da rua Tahlia, uma das mais animadas do centro de Riad (capital da Arábia Saudita), os rapazes olham as silhuetas das moças que, em sua maioria, são completamente vigiadas e desfilam com seus saltos altos e suas grandes bolsas de marca.

Como é impossível no país conservador se dirigir diretamente a uma garota, o Bluetooth resolve o problema.

Graças ao aplicativo WhosHere, muito popular nesta monarquia petrolífera, um jovem sentado na seção reservada aos homens de um café pode conversar, usando um pseudônimo, com moças sentadas na seção "familiar".

"Posso ver que 16 garotas estão no WhosHere e posso falar com uma delas", afirma Ahmed.

Este aplicativo começa a substituir as técnicas antigas, como fazer chegar um papel com um número de telefone a uma jovem sem se aproximar dela, ou deixar o número, bem à vista, no parabrisa do carro.

O smartphone já faz parte da vida sentimental dos jovens da Arábia Saudita, onde impera uma rígida separação de sexos na escola, na universidade, no trabalho e até em casa. Mas os encontros virtuais podem não ter futuro.

"Alguns dos meus amigos acham que, se uma garota aceita um encontro ou um relacionamento, vai fazer o mesmo quando for casada", disse Ahmed. "Acho que eles estão errados, mas nenhum deles se casou com uma moça que conheceu assim", completou.

Segundo o psicólogo Nader Yaghi, "agora a tecnologia permite uma maior liberdade e é possível romper as cadeias impostas à relação entre os sexos".

Al Anud, uma jovem do Qatar entrevistada pelo Twitter, conta que se apaixonou por um amigo do seu irmão, mas não se atreveu a contá-lo.

"Eu me comunico com ele pelo Skype", informa a jovem, que diz estar "convencida de que este é um amor impossível".

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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