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Lealdade de tropas iraquianas preocupa autoridades de Bagdá

15 abr 2010
08h14
atualizado às 10h45

As forças de segurança do Iraque, no passado alvo de zombarias por desertarem sob fogo inimigo e vistas como santuário para membros renegados de esquadrões da morte, deram uma demonstração importante de competência durante as recentes eleições legislativas no país. Com pouca assistência dos americanos, elas mantiveram quase todo o país em segurança para a votação.

Soldados treinam para agir em situações de atentado, mas muitos são suspeitos de colaborar com terroristas
Soldados treinam para agir em situações de atentado, mas muitos são suspeitos de colaborar com terroristas
Foto: The New York Times

Mas no retorno ao empoeirado Camp Habbaniya, uma instalação de treinamento, os recrutas do exército e da polícia iraquianos enfrentam novas questões, não apenas sobre as lacunas que ainda restem em sua capacidade mas também quando à sua lealdade em um período de incertezas. Mais de um mês depois da eleição, ainda não foi formado um novo governo, a liderança do país - e com ela o comando das forças de segurança - não está definida, e existem poucos precedentes para uma transferência pacífica do poder.

"O problema estará na luta por formar um novo governo", disse Anthony Cordesman, detentor da cátedra Arleigh Burke de estratégia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais e autor de um relatório para a comissão independente que o Congresso americano instituiu a fim de estudar as forças de segurança iraquianas, em 2007. "A quem as forças armadas são leais? Serão leais ao primeiro-ministro, à constituição ou ao que mais?"

As questões ganharam urgência depois de um surto de violência - minas nas estradas, carros-bomba, massacres de famílias inteiras - que lembra os piores dias da guerra sectária e da insurgência iraquianas.

Os nervos estavam tensos em Camp Habbaniya depois das eleições de 7 de março, quando o primeiro-ministro Nouri al-Maliki mencionou a possibilidade de violência e invocou seu papel como comandante em chefe das forças de segurança ao determinar uma recontagem manual do resultado da eleição. Muitos oposicionistas estavam preocupados com a possibilidade de que ele viesse a empregar as forças de segurança para tentar perpetuar seu poder, algo que ele nega ter feito.

Mas Ayad Allawi, que foi primeiro-ministro interino do país alguns anos atrás e cuja coalizão Iraqiya conquistou o maior número de assentos no Legislativo, declarou que, caso seja conduzido à chefia do novo governo, reformaria o exército e a polícia, alegando que suas fileiras ainda estavam "eivadas" de terroristas, a despeito dos esforços persistentes do governo para extirpar o sectarismo.

"Passados oito anos da queda de Saddam Hussein, as pessoas dizem que desejam segurança", afirmou Allawi em entrevista. "As agências policiais não estão disponíveis para lhes oferecer essa segurança".

Ao menos dois dos candidatos vitoriosos na coalizão de Allawi escolheram a clandestinidade depois de descobrir que eram alvo de mandados de prisão; um deles tem um longo histórico de relacionamento com o governo iraquiano e as forças de ocupação americana, por seus esforços para tentar reconciliar os xiitas e sunitas.

Entre os integrantes cada vez mais profissionalizados das forças de segurança, existe o mesmo debate sobre a maneira pela qual elas enfrentarão a transição. Alguns argumentam que ainda não estão preparados para cuidar da situação sozinhos.

"Precisamos das forças da coalizão e do exército dos Estados Unidos para nos ajudar, especialmente no futuro próximo, porque tememos problemas de lealdade interna nas forças armadas", disse o tenente Ahmed Abood, 36 anos, oficial do exército iraquiano estacionado em Bagdá.

Ainda que o Ministério do Interior tenha excluído mais de 60 mil integrantes dos quadros da polícia nos últimos anos, em um esforço para construir uma corporação leal ao país e não a uma seita, a polícia continua a ser o primeiro alvo de investigação depois de atentados.

Depois que atentados a bomba anteriores à eleição mataram mais de 30 pessoas em Baquba, uma cidade inquieta ao norte de Badgá, um policial estava entre os detidos como responsáveis pelos ataques.

O coronel Darrell Halse, dos Fuzileiros Navais americanos, assessor do diretor de assuntos internos do Ministério do Interior iraquiano, afirmou que o ministério abriu mais de 125 mil investigações sobre os integrantes das forças de segurança, nos últimos quatro anos. A maioria se refere a pequenos delitos, como embriaguez em serviço, mas outras tratam de atividades terroristas.

Caso o sucesso eleitoral sirva como veredicto sobre eficiência no posto, o Ministro da Defesa, Abdul-Kasser Jaeem al-Obeidi, que comanda o exército, e o ministro do Interior Jawad al-Bolani, que comanda a polícia, parecem ter se saído mal. Com as forças de combate dos Estados Unidos programadas para deixar o país até o final de agosto, o que deixaria 50 mil militares americanos ainda estacionados no país para fins de treinamento e assessoria até o final de 2011, boa parte do legado histórico da guerra americana no país dependerá da capacidade do exército e polícia iraquianos para salvaguardar o país nos anos vindouros.

Embora as forças de segurança tenham realizado firmes progressos desde que foram reconstituídas, depois da controversa decisão das autoridades de ocupação quanto a debandar o antigo exército iraquiano, nas semanas seguintes à invasão, elas continuam despreparadas para enfrentar sua tarefa sozinhas.

Em entrevista recente, o coronel Dhurgam al-Khafaji, encarregado do treinamento do exército iraquiano em Camp Habbaniya, foi franco ao falar das condições da instalação, diante de um general do exército americano que estava em visita.

"Faltam a este centro o equipamento e os recursos necessários, em termos de alojar os soldados, abrigá-los, etc.", disse. "Os alojamentos que temos não são adequados como moradia".

O Ministério da Defesa iraquiano é tão burocrático, disse Khafaji, que ele muitas vezes nem se dá ao trabalho de fazer uma solicitação quanto àquilo de que precisa, porque isso "só complica as coisas".

O tenente-general Michael Barbero, vice-comandante das forças americanas no Iraque e encarregado de treinamento e assessoria aos iraquianos, confirmou o que os serviços de segurança iraquianos já sabem muito bem. "Os dias em que nós fornecíamos tudo estão chegando ao fim", ele disse ao coronel iraquiano. "Vocês precisam trabalhar para melhorar o seu sistema".

O brigadeiro Abdul Jilebawi, supervisor do centro de treinamento da polícia em Camp Habbaniya, que estava quase vazio no dia da visita de Barbero porque os recrutas ainda estavam trabalhando na eleição, falou sobre problemas de recrutamento.

"Não quero esconder coisa alguma", ele declarou em entrevista. "A polícia de Anbar ainda tem elementos do AQI". (Ele estava se referindo à organização Al Qaeda na Mesopotâmia, um grupo insurgente basicamente local a quem o governo iraquiano imputou a responsabilidade pelos recentes ataques.)

As forças militares americanas elogiaram os progressos dos soldados iraquianos de baixa patente em termos de eficiência no combate, mas afirmam que os escalões mais elevados precisam melhorar em áreas como administração, logística e o desenvolvimento do corpo de oficiais não comissionados. Eles em geral confiam na capacidade das forças iraquianas para responder a levantes internos mas afirmam que elas ainda não estão prontas para enfrentar potenciais ameaças estrangeiras, especialmente do Irã, a leste, e da Síria, no noroeste.

Hoje, as forças armadas americanas dependem dos iraquianos para obter informações sobre o nível de violência no país. Mas o avanço profissional dos comandantes iraquianos se baseia em parte no número de incidentes violentos em suas áreas de responsabilidade, e por isso existe incentivo para subestimar o número desses eventos, disse o tenente-coronel Jim Maxwell, da 1ª Brigada, 3ª Divisão de Infantaria.

A declaração de Maliki, muito discutida, não passou despercebida no exército iraquiano. "Eles são cautelosos", disse Maxwell sobre seus colegas do Iraque. "Essa será a primeira transição de poder bem sucedida na história do país. Nunca viram nada parecido".

"Existe a tendência de que acreditem nos sujeitos que estão dizendo que o primeiro-ministro não vai entregar o poder", acrescentou.

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
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