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Jovens iranianos encontram oásis de liberdade na Armênia

1 abr 2011
06h03
atualizado às 06h13

Os jovens iranianos encontraram na vizinha Armênia um oásis de liberdade onde podem beber álcool, soltar o cabelo e tirar o véu sem medo de serem presos pela Guarda Revolucionária.

"A Armênia é um país sem proibições, portanto os iranianos se sentem livres", relatou à Aram Donian, gerente da companhia de viagens Tatev Tour de Yerevan.

O ano novo persa, ou "Nooruz", uma festa de quase três mil anos de tradição na qual se celebra o fim do inverno e o início da primavera, é a desculpa perfeita para os iranianos que desejam viajar ao exterior.

"Os homens podem ir aos bares e consumir bebidas alcoólicas. As mulheres passeiam pelas ruas sem os tradicionais vestidos negros e sem véu em suas cabeças", acrescentou.

Outra das atividades que os habitantes da república islâmica mais sentem saudade é dançar e por isso aproveitam sua estadia no país vizinho para "percorrer todas as discotecas" de Yerevan.

As boates da capital armênia se tornaram tão populares entre os iranianos que seus donos contrataram DJs persas, que fazem todas as noites as delícias dos jovens.

A Armênia, um país cristão que mantém uma profunda inimizade com o muçulmano Azerbaijão, se transformou em um refúgio para muitos músicos banidos pelo regime teocrático iraniano.

"Em Yerevan é possível escutar músicas persas que os jovens nunca haviam escutado antes. Os cantores clandestinos iranianos organizam shows especialmente para os turistas", disse.

O complexo esportivo e casa de espetáculos Hamalir de Yerevan, que tem capacidade para 7 mil pessoas, pendura várias vezes o cartaz de "lotação esgotada" durante estes dias.

"No Irã temos praias no Cáspio e no Golfo Pérsico, mas para os iranianos é caro e não é possível relaxar. Minha esposa sabe nadar, mas só pode fazê-lo com um chador (manto), coberta dos pés à cabeça", afirmou Mahmoud Ali Reza, turista iraniano que já visitou três vezes o país vizinho.

Outro fator que facilita o fluxo de turistas iranianos é o fato de que "podem obter o visto no aeroporto após o pagamento de apenas US$ 8".

"Durante as duas semanas de celebrações do ano novo, entre 10 mil e 20 mil iranianos visitam este país. Em sua maioria, têm por volta de 20 anos, mas também vêm famílias com crianças", explica Donian.

Segundo o chefe da secretaria de Turismo do Ministério da Economia armênio, Mekhak Apresian, o país receberá neste "Nooruz" até 30 mil iranianos, que chegam de avião, ônibus e também carro.

"Em 2010, cerca de 120 mil iranianos cruzaram a fronteira. Em média, os turistas gastam uns mil dólares", comentou Apresian, que destacou que no ano passado aumentou em 40% o número de visitantes procedentes do país vizinho.

A presença dos iranianos é muito bem-vista pelos armênios, em particular pela indústria turística, muito pouco desenvolvida em um país cuja economia depende em grande medida das remessas de suas inúmeras diásporas.

"Os iranianos são gente tranquila e pacífica. Nunca houve nenhum incidente. O problema é que não há hotéis suficientes e os turistas têm que se hospedar em apartamentos privados, o que é muito caro", disse Donian.

Segundo a Tatev Tour, agência especializada em organizar viagens para turistas iranianos, o país poderia receber muito mais visitantes se o governo construísse mais hotéis, já que as quase quatro mil camas de Yerevan são insuficientes.

As autoridades armênias anteciparam que têm planos de começar a construir este ano um hotel iraniano de três estrelas que se chamaria "Teerã". Grande parte dos visitantes vem da capital, que se encontra a menos de 800 quilômetros de Yerevan, mas também de outras cidades do norte e da região banhada pelo mar Cáspio.

"São turistas com dinheiro. A Armênia é um país caro para os iranianos", indica o chefe da Tatev Tour, que acrescenta que os visitantes também têm muito interesse em conhecer os templos cristãos locais.

Donian estima em aproximadamente US$ 12 milhões o dinheiro que entrará no país graças ao turismo iraniano durante estas duas semanas, número bastante notável para os padrões da Armênia, um pequeno Estado que sofre um bloqueio econômico por parte do Azerbaijão e da Turquia devido aos conflitos com os países vizinhos.

Após saírem do avião ou do ônibus, os jovens iranianos relaxam seu semblante e soltam o cabelo e se apressam em tirar a poeira de calças, jaquetas, camisetas e gorros com cores chamativas que em seu país só podem ser vestidos dentro de casa, na companhia de seus melhores amigos.

EFE   
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