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Invasores de embaixada ainda são ameaça ao regime iraniano

5 nov 2009
09h36
atualizado às 09h37

Após 30 anos, invasores da embaixada americana ainda representam uma ameaça ao regime iraniano

MICHAEL SLACKMAN
Do New York Times

Mohsen Mirdamadi foi aplaudido como herói pelo aiatolá Ruhollah Khomeini depois de ter ajudado a liderar a tomada da embaixada dos EUA no Irã, acontecimento que completará 30 anos na quarta-feira. Hoje, ele está na prisão, acusado de ser inimigo do Estado.

O crime de Mirdamadi foi seu trabalho como líder do movimento reformista, especificamente o secretário geral da Frente de Participação Islâmica do Irã, o maior partido reformista.

Mas ele não está sozinho entre os antigos sequestradores da embaixada que hoje se encontram sob suspeita e cerco pelas autoridades. Enquanto o Irã marca o 30º aniversário do acontecimento que ajudou a definir sua identidade política, muitos antigos sequestradores e seus aliados estão comprometidos com a oposição política e, portanto, representam uma ameaça real à legitimidade da liderança, dizem analistas políticos.

"O fato de tantos estudantes de 1979 terem acabado ocupando uma posição reformista na política iraniana não é um mistério quando você considera que a posição reformista na política iraniana não é necessariamente uma pró-Ocidente", disse Michael Axworthy, ex-diplomata e especialista em Irã que leciona na Universidade de Exeter. "Eles estão atrás do que acreditavam que a revolução significava, ou seja, política representativa no contexto islâmico."

A percepção de que a captura de reféns - outrora um acontecimento simbólico na fundação da República Islâmica - se transformou em uma dívida doméstica é especialmente verdadeira este ano, dizem especialistas em Irã. Desde os protestos e a subsequente ação punitiva após a disputada eleição presidencial no verão passado da região, apoiadores da oposição têm se apropriado de comemorações públicas como uma chance de tomar as ruas, como deverão fazer na quarta-feira.

A coisa mais notável, e talvez mais crítica, disse um especialista em Irã, Rasool Nafisi, é o slogan cada vez mais popular dos reformistas, que deverá aparecer na quarta-feira. Ele diz apenas: "República Iraniana."Não "República Islâmica."

"A ameaça de sair do percurso e perder o espírito da revolução nos circunda", escreveu Masumeh Ebtekar em seu blog Persian Paradox, em junho, logo após a eleição presidencial. Ebtekar foi o rosto público do cerco à embaixada americana, servindo como porta-voz dos invasores. Ela fornecia atualizações regulares sobre os 53 reféns, a que se referiu como "convidados do aiatolá."

Hoje, ela representa informalmente as visões de muitos dos personagens da ocupação, ajudando a definir uma posição comum. Centenas de estudantes estiveram envolvidos, mas entre os líderes, tende a haver consenso em certos assuntos, dizem especialistas em Irã.

Embora eles não sejam pró-Ocidente, eles apoiam um envolvimento. Eles muitas vezes falam sobre os ideais originais da revolução, incluindo justiça e liberdade, que segundo eles foram abandonados pelo Estado - especialmente na violenta ação disciplinatória em relação aos protestos da eleição, que lembrou as ações implacáveis do Savak, a odiada polícia secreta iraniana do xá, nos anos que levaram à revolução.

"Eles que eram todos devotos e defensores da Revolução Islâmica, com mais credenciais islâmicas e revolucionárias do que Ahmadinejad, sentiram que a República Islâmica está enfrentando um sério desafio em seus princípios e valores básicos", Ebtekar escreveu em agosto, se referindo ao presidente Mahmoud Ahmadinehjad.

Em 1979, a tomada da embaixada americana foi liderada por um grupo que se denominava Seguidores Muçulmanos da Linha do Imã. Eles eram radicais políticos, que se descreviam principalmente como esquerdistas e anti-imperialistas, assim como islamitas. Os três membros líderes do comitê central no controle da embaixada eram Mirdamadi, que está na prisão; Ebrahim Asgharzadeh, que é líder de um pequeno partido reformista chamado Solidariedade; e Habibollah Bitaraf, que serviu como ministro no governo reformista do presidente Mohammed Khatami.

Nos anos posteriores, o grupo pensante do movimento reformista surgiu das levas daqueles que tomaram a embaixada. Entre eles estavam Abbas Abdi, preso por dois anos após servir como conselheiro chefe do reformista Khatami; Saeed Hajjarian, jornalista e líder da reforma que foi solto em outubro após passar meses atrás das grades; e Mohsen Aminzadeh, sub-ministro do exterior nos anos de Khatami e atualmente preso.

"Temos que nos perguntar por que os estudantes que eram chamados de heróis nacionais pelo Imã estão agora sofrendo essas circunstâncias", Ebtekar disse na terça-feira como membro do Conselho Municipal de Teerã.No mês passado, um serviço de notícias semioficial, o ILNA , relatou que Mirdamadi foi encaminhado à Seção 15 do Tribunal Revolucionário - uma divisão que ganhou a reputação de determinar sentenças duras em relação à agitação pós-eleição.

O tumulto político que sucedeu a eleição no Irã tem realçado como a política do poder evoluiu desde o levante popular que expulsou o xá há três décadas. Nos primeiros anos, o aiatolá Khomeini conseguiu consolidar o poder nas mãos dos islamitas, marginalizando forças mais seculares e nacionalistas. Desde então, o poder saiu do controle dos antigos revolucionários e foi parar na nova geração associada à guerra entre Irã e Iraque e à Guarda Revolucionária Iraniana, uma força militar que tinha a ordem de tomar quaisquer medidas necessárias para proteger a revolução.

Essa nova elite política muitas vezes se confronta com os pais fundadores, que vão do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, ao crítico mais cândido do governo, o ex-candidato presidencial e líder do parlamento há dois mandatos, Mehdi Karroubi.

"Mirdamadi está agora sentado na prisão e, claro, isso novamente, mais do que qualquer coisa, é um testemunho de como o consenso inicial no Irã de 1979 e 1980 se rompeu e dissipou", disse Mehrzad Boroujerdi, professor de cenário político da Universidade Syracuse e especialista em Irã.

Outro líder estudantil importante, Abdi, disse em entrevista em 2006 que quando eram jovens radicais, eles e seus colegas que fizeram reféns na embaixada americana sabiam exatamente o que queriam desmantelar - a regra do xá e do Savak. O que eles não haviam considerado, ele disse, era o que eles queriam construir.

Abdi tem sido discreto ultimamente, não aparecendo muito em público exceto para oferecer algum apoio ao Movimento Verde de outro importante líder da reforma, Mir Hussein Moussavi.

Como outros personagens da ocupação, ele não se desculpa pelo cerco à embaixada americana. Ele disse que acreditava ser necessário - na época.Mas ele sente muito remorso pelo que ocorreu como resultado."Não chamo aquilo de revolução só porque eles o chamam assim", ele disse em 2006. "É despotismo. Nenhum déspota admite ser um. Eles geralmente alegam ser democráticos."

Tradução: Amy Traduções

The New York Times

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