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Intervenção no Irã "não é piada", diz analista israelense

2 set 2012
10h08
Marina Novaes
Direto de São Paulo

As polêmicas declarações do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, sobre Israel esquentaram o clima entre os dois países, que aparentam estar à beira de um conflito armado. Incomodado com as incitações de ódio contra o território judeu, chamado de "tumor cancerígeno", o primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ameaça invadir o país entre setembro e outubro, às vésperas da eleição presidencial dos Estados Unidos, prevista para novembro, para destruir o projeto nuclear iraniano, o que tem causado apreensão entre duas as populações.

O acadêmico traça um panorama do cenário, compara o líder iraniano a Adolf Hitler, e critica os governos latino-americanos esquerdistas por se aproximarem do Irã
O acadêmico traça um panorama do cenário, compara o líder iraniano a Adolf Hitler, e critica os governos latino-americanos esquerdistas por se aproximarem do Irã
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

Em visita ao Brasil, o estudioso israelense Jonathan Fine, consultor sobre diplomacia e religião do Centro Interdisciplinar Herzlyia, de Jerusalém (IDC, na sigla em inglês), e pesquisador do Instituto Internacional para a Luta contra o Terrorismo (ICT, também em inglês), afirmou que a ação israelense independe do apoio do governo norte-americano, e disse acreditar que a intervenção é apenas uma questão de tempo, embora não haja consenso sobre como agir.

"A decisão será tomada a partir da seguinte pergunta: nós, israelenses, estamos prontos para conviver com um Irã armado com uma bomba nuclear? Quanto tempo mais nós poderemos esperar?", afirmou, em entrevista ao Terra, em São Paulo.

Na avaliação de Fine, o clima de tensão é mais sério do que se imagina, e as declarações de Ahmadinejad não têm sido encaradas como "piada" pelo governo israelense, embora, em sua opinião, a comunidade internacional tenha "ignorado as ameaças", "como tem feito em relação às atrocidades ocorridas na Síria", disse.

Na entrevista, o acadêmico traça um panorama do cenário, compara o líder iraniano a Adolf Hitler, e critica os governos latino-americanos esquerdistas por se aproximarem do Irã. "É preciso entender que não é o Che Guevara ou o Simon Bolívar quem estão trabalhando nesses países", opinou.Leia abaixo os principais trechos da conversa.

Terra - O que acirrou o clima de tensão entre Israel e Irã nas últimas semanas?
Jonathan Fine - Em vários aspectos, o governo atual do Irã é, provavelmente, o pior regime desde o nazismo alemão. E não são somente por causa das declarações contra judeus. Há uma profunda ideologia antissemita. A combinação entre a ideologia antissemita e armas nucleares é algo que nós simplesmente não vamos aceitar. Simples assim. (...) Uma semana não passa sem que alguém, seja o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, seja o Ahmadinejad, não façam ameaças de nos destruir. E isso apenas 60 anos após o Holocausto. Israel não vai aceitar passar por isso novamente. Nós não vamos caminhar novamente para câmaras de gás. Isso não é retórica, é como pensamos mesmo.

Terra - Quais as chances de Israel invadir o Irã? Ou é um blefe do Benjamin Netanyahu?
Jonathan Fine - O debate principal que ocorre em Israel é sobre quando e como invadir o Irã. O programa nuclear iraniano tem de se desenvolvido mais e mais a cada dia que passa. (...) E nós temos uma teocracia no Irã. Então o cara que decide o que fazer com essa bomba nuclear é um líder fundamentalista religioso. Nós não podemos deixar a segurança de Israel nas mãos de um líder assim. Então a pergunta que fica é: quanto tempo mais nós poderemos esperar? Algumas pessoas (do governo) acham que Israel deve agir imediatamente, mas alguns acreditam que alguns meses não fará diferença. Mas a decisão terá de ser tomada por Israel. Porque o Irã não está ameaçando os Estados Unidos, está ameaçando a gente.

Terra - Alguns críticos ao governo dizem que se trata se uma estratégia do primeiro-ministro para interferir nas eleições dos Estados Unidos, já que as relações entre ele e o Barack Obama não são as melhores...
Jonathan Fine - Não é nenhum segredo que existe uma tensão na relação entre o Netanyahu e o Obama. Mas eu não acho que uma decisão tão crucial, com todas as implicações que envolvem, tem qualquer relação com as eleições dos Estados Unidos. Eu não estou dizendo que Israel é pró-Romney (Mitt Romney, candidato republicano) ou pró-Obama, mas a decisão de invadir ou não o Irã não depende disso, depende de quão avançado está o programa nuclear do Irã. Mas essa questão é importante demais para presumir que se trata de uma questão política. (...) Eles não estão falando em nos atacar ou bombardear Israel. Eles estão incitando as pessoas a exterminar os judeus. As pessoas nos perguntam por que nos importamos. Bom, ninguém se importava com o que um austríaco dizia nos anos 20 (em referência a Adolf Hitler), todos achavam que era um louco, e olha o que aconteceu. Alguns nos acham paranoicos. Ok, mas nós temos um bom motivo para isso.

Terra - Mas para Israel a vitória se Romney seria mais interessante, ou não?
Jonathan Fine - É obvio que as relações entre o Obama e o Netanyahu estão tensas, mas a verdade é que pouco importa quem vencer as eleições. A política internacional dos Estados Unidos pouco mudou entre um governo e outro. (...) Israel e os Estados Unidos têm muitos interesses em comum, apesar das divergências. E é claro que as relações pessoais influenciam, mas a verdade é que a relação entre os dois países é mais profunda e não irá mudar muito independentemente de quem vencer. (...) Os EUA sempre foram amigos de Israel, e Israel depende dos Estados Unidos. É claro que seria melhor para todo mundo se o Obama e o Netanyahu se dessem bem, mas isso não muda a estratégia internacional dos americanos.

Terra - Mas o senhor acha que o povo americano apoiaria outra guerra com toda a polêmica em torno das ações no Afeganistão e no Iraque?
Jonathan Fine - Em primeiro lugar, Israel não quer ir à guerra contra o Irã. Israel quer apenas parar o programa nuclear do Irã. São os iranianos quem irão decidir se vão declarar uma guerra. O Israel tem uma política bem clara que é de acabar com o programa nuclear iraniano. Se os iranianos vão querer declarar guerra a Israel depois disso isso é outra questão. Os americanos estão cansados após duas guerras no Oriente Médio? Sim. Mas as pesquisas mostram que mais de 50% dos americanos apoia a destruição do arsenal nuclear iraniano.

Terra - E como Israel coordenaria uma ação dessas sem os Estados Unidos?
Jonathan Fine - O Obama não quer que nada seja feito agora porque ele está em campanha eleitoral, e existe uma forte crise econômica. Eu entendo o ponto de vista dele. Mas eu também entendo o nosso. Do ponto de vista estratégico, é óbvio que é melhor aguardar os Estados Unidos. A questão: a gente pode aguardar? (...) E também precisamos dar a devida importância ao Irã: o Irã não é a Rússia, não é a China. É um país de terceiro mundo com um regime louco, mas há um limite para o que eles podem fazer. E isso é importante que fique claro. Eu não estou subestimando eles, mas não vamos superestimá-los. O que eu quero dizer é: quando falamos em destruir o laboratório nuclear deles, nós não estamos falando em 'fim do mundo', não é esse o caso. As pessoas estão exagerando um pouco. Isso não iria gerar uma terceira guerra mundial. Porque os iranianos sabem que, se tentarem alguma loucura, os Estados Unidos vão acabar com eles.

Terra - Qual avaliação que o senhor faz da relação entre o governo brasileiro e o Irã?
Jonathan Fine - E eu acho que os brasileiros e os latino-americanos precisam entender, principalmente os mais inclinados à esquerda, é que não é o Che Guevara e o Simon Bolívar que estão trabalhando nesses países. Essas são teocracias, não democracias. O regime do Irã vai contra tudo o que vocês acreditam. (...) Mas acho que a presidente Dilma Rousseff foi muito sábia ao não se encontrar com Ahmadinejad, e como não sou especialista no Brasil, tenho que ter cuidado para não falar besteira. Mas acho que ela demonstrou que está repensando a posição do governo brasileiro em relação ao Irã, porque o Brasil não ganha nada com essa relação.

Fonte: Terra
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