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Ativista síria diz que regime não permitirá renúncia de Assad

9 fev 2012
14h10
atualizado às 14h28

Usando um computador, a ativista Razan Zeituneh se transformou em uma das vozes mais respeitadas da revolução síria e se mostra segura de que o regime não permitirá a renúncia do presidente sírio, Bashar al-Assad, já que sua família "atua como um só corpo e só cairá de uma vez e para sempre".

Luta por liberdade revoluciona norte africano e península arábica

Zeituneh, que recebeu o último Prêmio Sájarov do Parlamento Europeu, concedeu uma entrevista à agência EFE reclusa na clandestinidade na qual vive desde que seu ativismo a transformou em uma das pessoas mais procuradas pelas forças de segurança.

Como responsável pela rede Comitês de Coordenação Local, Zeituneh informa ao mundo sobre os desmandos do regime, imerso estes dias em uma brutal campanha sobre a cidade de Homs.

Por isso, com relação a uma hipotética negociação para a saída de Al Assad, como propõe a Liga Árabe, a ativista acredita que "qualquer compromisso que não incluir a queda do regime não será aceitável após este banho de sangue".

"O regime é um só corpo, não cairá parte por parte. Só fará de uma vez e para sempre", explica Zeituneh, para quem a continuidade do presidente "não é nem sequer uma decisão dele".

A ativista, de 34 anos e mais de uma década como defensora dos direitos humanos na Síria, considera que atualmente os países ocidentais não estão dispostos a pagar um preço por apoiar a revolução em seu país.

"Por isso, os Governos continuam com seus comunicados, mas não empreendem nenhuma ação séria para colocar uma pressão real sobre o regime", afirmou.

Para ela, o conflito aberto por Moscou ao vetar uma resolução de condenação no Conselho de Segurança das Nações Unidas "não é mais que um jogo de poder entre Ocidente e Rússia, que não tem nada a ver com nossa luta".

Assim, os países aliados de Damasco, como a Rússia, a China e o Irã, são para a ativista ditaduras movimentadas por seus interesses.

E os outros países? "Na realidade não são tão diferentes. Nos últimos 10 meses não acho que não tenham sido capazes de fazer nada, nem sequer de aprovar uma condenação na ONU", argumenta.

Zeituneh defende a necessidade de ser "realista" e assumir que serão os próprios sírios que deverão levar adiante a sua revolução, com medidas que seu grupo promove para debilitar o regime de dentro, como o boicote aos produtos dos empresários fiéis a Al Assad e a desobediência civil.

"Quem não está envolvido ainda na revolução, já não estará diretamente. Ao contrário, se antes estavam assustados, agora terão ainda mais medo", afirma, por isso que aposta em envolver de forma indireta novos grupos, especialmente estudantes e donas de casa, que não se colocariam em perigo mas contribuiriam com a revolução.

Zeituneh também tem medo, não esconde. Mas tantos anos vivendo assustada fizeram com que ela aprendesse a viver deste jeito. As medidas de segurança são grandes: "Tento evitar postos de controle e sair de dia. Passo muito tempo em casa, mas saio para reuniões, ver amigos e participar de protestos".

Apesar das confusas informações que chegam do interior da Síria, muitas vezes com tons de propaganda das duas partes, a jovem reconhece que "nenhuma área no país está sob o controle da revolução".

Ela afirma que há somente lugares onde o chamado Exército Livre Sírio (ELS) tenta proteger os civis e onde sofrem uma menor pressão militar, mas "o povo morre pela repressão em qualquer ponto do país".

"Há algumas armas que estão entrando na Síria de fora, mas isso não é nada, não é suficiente para enfrentar um Exército como o sírio. O ELS está equipado de forma muito pobre, não têm nem munição para suas armas", afirma.

Desde o começo das revoltas contra Al Assad, em março de 2011, Damasco não vivia cenas como as grandes concentrações no Cairo que levaram à queda do presidente egípcio, Hosni Mubarak.

Zeituneh acredita que a mistura de sensibilidades e correntes no centro da capital síria faz com que o medo seja maior, já que em outros lugares as pessoas "se conhecem e se sentem seguras e não há muitos estranhos espionando".

Esta desconfiança inerente, o medo com o próximo, é outro dos motivos pelos quais a oposição a Al Assad está até o momento atomizada e carente de uma só voz.

"Estivemos trabalhando de maneira clandestina por muito tempo. Isso cria muitos problemas e doenças, não há confiança entre as pessoas, há muitas suspeitas", explica.

Apesar dos temores de muitos sírios sobre um possível Estado islamita se o regime atual cair, Zeituneh é muito clara: "Não posso imaginar nada pior do que as últimas quatro décadas, nada mais brutal, mais repressivo. Impossível!".

Damasco de Assad desafia oposição, Primavera e Ocidente
Após derrubar os governos de Tunísia e Egito e de sobreviver a uma guerra na Líbia, a Primavera Árabe vive na Síria um de seus episódios mais complexos. Foi em meados do primeiro semestre de 2011 que sírios começaram a sair às ruas para pedir reformas políticas e mesmo a renúncia do presidente Bashar al-Assad, mas, aos poucos, os protestos começaram a ser desafiados por uma repressão crescente que coloca em xeque tanto o governo de Damasco como a própria situação da oposição da Síria.

A partir junho de 2011, a situação síria, mais sinuosa e fechada que as de Tunísia e Egito, começou a ficar exposta. Crise de refugiados na Turquia e ataques às embaixadas dos EUA e França em Damasco expandiram a repercussão e o tom das críticas do Ocidente. Em agosto a situação mudou de perspectiva e, após a Turquia tomar posição, os vizinhos romperam o silêncio. A Liga Árabe, principal representação das nações árabes, manifestou-se sobre a crise e posteriormente decidiu pela suspensão da Síria do grupo, aumentando ainda mais a pressão ocidental, ancorada pela ONU.

Mas Damasco resiste. Observadores árabes foram enviados ao país para investigar o massacre de opositores - já organizados e dispondo de um exército composto por desertores das forças de Assad -, sem surtir efeito. No início de fevereiro de 2012, quando completavam-se 30 anos do massacre de Hama, o as forças de Assad investiram contra Homs, reduto da oposição. Pouco depois, a ONU preparou um plano que negociava a saída pacífica de Assad, mas Rússia e China vetaram a resolução, frustrando qualquer chance de intervenção, que já era complicada. A ONU estima que pelo menos 5 mil pessoas já tenham morrido na Síria.

EFE   
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