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Análise: adesão de grupo jihadista na Síria à Al-Qaeda é 'presente' para Assad

12 abr 2013 - 15h46
(atualizado às 16h00)
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<p>Destroços de carros após um motorista-suicida explodir um carro-bomba no principal bairro comercial de Damasco na última segunda-feira. O ataque matou pelo menos 15 pessoas, incendiou outros veículos e danificou edifícios, segundo a TV estatal</p>
Destroços de carros após um motorista-suicida explodir um carro-bomba no principal bairro comercial de Damasco na última segunda-feira. O ataque matou pelo menos 15 pessoas, incendiou outros veículos e danificou edifícios, segundo a TV estatal
Foto: Reuters

A adesão pública à Al-Qaeda da Frente Al-Nusra, grupo rebelde que combate ativamente na Síria, é um presente para o regime, que poderá intensificar as suas operações contra os insurgentes aproveitando este anúncio que causou mal-estar entre os países ocidentais. "É um ponto a favor do regime, uma vez que reforça a versão oficial síria que fala de grupos terroristas e de forças estrangeiras que os apoiam", considera Bassam Abu Abdullah, diretor do Centro de Damasco para Estudos Estratégicos.

A Frente Al-Nusra, formada por jihadistas e estrangeiros, anunciou na quarta-feira sua lealdade ao líder da Al-Qaeda, Ayman Al-Zawahiri, que quatro dias antes havia pedido que os rebeldes lutassem pela criação de um "Estado jihadista islâmico". Várias brigadas da rebelião síria rejeitaram essa adesão e consideraram que a prioridade é combater o regime, defendendo um Islã "moderado".

"Aqui na Síria, não lançamos a jihad (guerra santa) contra o regime (...) ou para jurar fidelidade a X ou Y, mas para impedir que sejam impostas sobre os nossos irmãos e nosso povo coisas que não são de seu desejo", declarou a Frente de Libertação Islâmica na Síria em um comunicado.

"Tudo o que contribui para associar a oposição à Al-Qaeda é um presente para o regime. Basta assistir ao frenesi da mídia ocidental para saborear o momento", assegura Thomas Pierret, especialista em Islã na Síria.

"Logicamente, Assad pode concluir que os excessos ideológicos de seus oponentes preocupam mais aos ocidentais do que as toneladas de explosivos diárias que joga em sua população", acrescenta este professor de islã contemporâneo da Universidade de Edimburgo.

Em Aleppo, no norte da Síria, ativistas socorrem criança retirada dos escombros de um ataque aéreo
Em Aleppo, no norte da Síria, ativistas socorrem criança retirada dos escombros de um ataque aéreo
Foto: Reuters

O anúncio da Frente Al-Nusra preocupou a oposição síria e a comunidade internacional. "A posição da oposição ficou enfraquecida diante da opinião síria e internacional", indicou Abu Abdullah, que foi conselheiro cultural na embaixada da Síria em Ancara.

"A oposição síria não pode justificar a presença de jihadistas na Síria aos europeus. O que será depois deste anúncio? É embaraçoso para a comunidade ocidental que pede uma mudança democrática na Síria", acrescentou.

Os insurgentes estão divididos em três correntes: a do Exército Sírio Livre (ESL), principal integrante da rebelião que afirma combater em favor de uma mudança democrática e tem o apoio do ocidente; os salafistas da Frente Islâmica Síria e os jihadistas da Al-Nusra.

Segundo dados apresentados por especialistas e que não podem ser verificadas, o ESL possui 140 mil membros em comparação com os 8 mil combatentes da Al-Nusra. Para Abu Abdullah, o regime utilizará este anúncio para atacar mais forte. "Isso dá sinal verde para as autoridades". "A situação se tornou mais clara. Veremos uma grande mudança no terreno e uma intensificação das operações militares para acabar com este grupo", acrescenta o analista.

A oposição síria pode perder apoio internacional com este anúncio. "Isso coloca o ocidente em um impasse, principalmente porque a cooperação entre os rebeldes e os jihadistas torna quase impossível armar" o ESL, de acordo com Charles Lister, analista do Jane's Terrorism and Insurgency Centre (JTIC), em Londres.

Para ele, os países ocidentais "supunham há muito tempo uma ligação entre a Al-Qaeda e a Frente Al-Nusra, e isto provavelmente foi a principal razão por trás de sua recusa em armar os rebeldes".

Reunidos durante quarta e quinta-feira em Londres, os ministros do G8 iniciaram discussões "informais" para classificar a Frente Al-Nusra como "organização terrorista", que devem continuar naturalmente em seu "ambiente, que é o Conselho de Segurança" da ONU, informou nesta sexta-feira o Ministério francês das Relações Exteriores.

No entanto, para Thomas Pierret, tudo isso é bom para o ocidente. "Um impasse para o ocidente? Não, pelo contrário, um novo pretexto muito conveniente para justificar sua inação, porque, ao contrário do que dizem sem jeito, realmente não querem ajudar a oposição", lamenta.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 
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