Oriente Médio

publicidade
28 de novembro de 2013 • 15h32 • atualizado às 15h39

Acordo nuclear pode ser fatal para Israel, diz embaixador no Brasil

Para o diplomata Rafael Eldad, com o compromisso firmado com as potências ocidentais, o Irã pode ganhar tempo para obter armas nucleares

O chanceler iraniano, Javad Zarif, cumprimenta o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, após a assinatura do acordo
Foto: AFP
  • Diogo Alcântara
    Direto de Brasília
 

No último domingo, um grupo de potências ocidentais formado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido) mais a Alemanha chegou a um acordo histórico com o Irã: o regime dos aiatolás reduzirá suas atividades nucleares em troca da redução das sanções econômicas impostas pelo Ocidente ao país.

Se para parte significativa da comunidade internacional o passo – ainda que inicial e frágil – seja considerado um sucesso diplomático, para Israel é visto com receio. Tel Aviv não demorou a reagir. O premiê Benjamin Netanyahu taxou o acordo como “erro histórico”. 

Em entrevista ao Terra, o embaixador israelense no Brasil, Rafael Eldad, fala sobre o que chama de “preocupação”. Para ele, o acordo ideal seria um no qual Teerã concordasse em extinguir seu programa nuclear. “O que buscamos não está estar menos preocupados, o que queremos é acabar com essa preocupação”, afirma.

Diplomata há 35 anos, Eldad já atuou na missão israelense junto a ONU, passou pela embaixada de Israel na Turquia e em países da América Latina, além de ter ocupado diversos cargos no Ministério das Relações Exteriores. Ele chefia o corpo diplomático israelense em Brasília desde 2011.
 
Veja abaixo os principais trechos da entrevista.
 
Terra – Por que esse acordo das potências ocidentais com o Irã é perigoso?
Embaixador Rafael Eldad – Se tenho que caracterizar a situação na qual Israel está, a palavra chave é preocupação. Israel está preocupado. As razões são conhecidas e óbvias. A nossa pergunta é se esse acordo a que chegaram agora vai levar o Irã a ser um país sem armas nucleares. Se for assim, está bom. Mas temos preocupação de que o Irã esteja buscando enganar. 

O premiê Netanyahu durante reunião do seu gabinete no último domingo: acordo é "erro histórico"
Foto: AFP

Terra - De que maneira?
Eldad - Temos de perguntar por que o Irã tem de enriquecer urânio. Porque para produzir energia não é preciso. Está no mercado de maneira mais acessível, barata e fácil de conseguir. Outra coisa que temos de perguntar: por que um país tão rico em petróleo precisa produzir energia nuclear? Temos todas as razões de suspeitar. Em Israel, estamos preocupados que isso (o acordo) pode levar o Irã a ganhar tempo, a enganar o mundo. Um dia, vamos despertar quando for tarde demais. Isso, para muitos outros países pode ser preocupante. Para Israel é outra coisa: pode ser fatal.
 
Terra - Qual seria a alternativa que Israel acharia plausível? Apenas endurecer as sanções sem diálogo não poderia justamente levar o Irã a produzir armamento nuclear?
Eldad - Esse acordo não assegura que eles renunciaram (de armas nucleares). O Irã deu palavra e recebeu vantagens. O problema com um acordo nuclear é que um país como o Irã pode decidir chegar a uma etapa na qual falta pouco para desenvolver armas nucleares. E quando o mundo estiver dormindo, rapidamente, em poucos meses, podem se tornar uma potência nuclear.
 

O presidente do Irã, Hassan Rouhani, conversa com jornalistas durante conferência de imprensa no último dia 24
Foto: AFP

Terra - Quando o governo iraniano se comprometeu a limitar seu enriquecimento de urânio em 5% ele não se distancia da margem para produção de armamento?
Eldad - Eles acordaram parar o processo durante seis meses, mas eles não acordaram em destruir o que têm. 

Terra - O senhor disse que o Irã deu palavra em troca de vantagens. Há algum indício concreto contra o Irã? Não se trata também apenas de suspeitas israelenses?
Eldad - Quando é para uso pacífico da energia, não há problema. Por isso perguntamos por que o Irã precisa enriquecer urânio dentro do Irã. Por que necessitam dezenas de milhares de centrífugas para enriquecer? Não precisam de tudo isso para produzir energia. Não precisam. Por isso as suspeitas têm razões. É como sempre falamos: se alguém está lhe fazendo ameaças e um dia você vê essa pessoa em uma loja de armas comprando um revólver, é um pouco delicado, não? O mesmo se passa com Israel.

Terra - Com a mudança de presidentes, o senhor não vê mudanças na postura de Teerã
Eldad - Pode ser que seja boa, mas ainda temos de ver. O que vimos até agora são sorrisos e lindas palavras. É muito melhor do que Ahmadinejad, que falava como... Melhor não dizer como o que. Mas aqui temos que julgar com fatos. O assunto é tão delicado, pode ser fatal para Israel, que não podemos confiar somente em sorrisos e boas palavras.

Terra - A negociação foi realizada pelo Grupo 5 + 1 (membros permanente do Conselho de Segurança mais a Alemanha), isto é, potencias ocidentais. Não faltou a participação no foro de países do Oriente Médio, que são vizinhos do Irã?
Eldad – Eu não conheço em profundidade o assunto, mas acho que as potências fizeram consultas a aliados. Não é só apenas Israel que está preocupado. A Arábia Saudita não está menos preocupada, nem outros países do Golfo Pérsico. Acho que consultaram a todos. Foi bom que foi um grupo reduzido, porque quando é um grupo de 80 ou 100 países, nunca terminam de debater. 

O embaixador de Israel no Brasil, Rafael Eldad
Foto: Embaixada de Israel / Divulgação

Terra - Como está o cenário doméstico em Israel? Há posições mais moderadas ou o sentimento geral é de preocupação?
Eldad - Temos uma piada: ‘a cada dois judeus, há três opiniões’. Estamos debatendo tudo em Israel. Sobre esse assunto, tenho de dizer que pelo menos na política israelense quase todos os partidos concordam com essa linha de preocupação. Nessa linha há um cuidado para o Irã não avançar para armas nucleares. A oposição no parlamento, que muitas vezes ataca o governo de uma maneira terrível, está acompanhando o governo. 

Terra - Há tons diferentes, não é? O presidente Shimon Peres, por exemplo, fez declarações muito mais ponderadas do que a do premiê Benjamin Netanyahu.
Eldad - São maneiras de expressar. Cada pessoa tem sua maneira de expressar. Mas no fundo, no essencial, todos concordam com a mesma preocupação. Todos estão muito preocupados com o Irã.
 
Terra - Teerã concordou com inspeções frequentes e a presença de agentes da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Essas condições não reduzem a preocupação israelense sobre o eventual desenvolvimento de armamento nuclear? 
Eldad - O assunto é tão importante para nosso futuro, para nossa existência, que é difícil dizer se é um pouco mais ou menos. O que buscamos não está estar menos preocupados, o que queremos é acabar com essa preocupação. Não é natural que um povo tenha de viver com um medo constante porque outro país quer lhe apagar do mapa.

Terra - Acabar com a preocupação seria o abandono definitivo do programa nuclear?
Eldad - É muito simples. Acho que é o mesmo que está buscando o Grupo 5 + 1. Esse grupo está buscando exatamente isso. Mas pensamos que tem de conseguir isso mostrando ao Irã um pouco mais de firmeza. E não deixar que o Irã pense que pode enganar.
 
Terra - E quanto ao argumento da autodeterminação e o direito soberano de produzir energia a partir da matriz que se queira?
Eldad - Cada direito tem limites que dependem do outro. Eles podem ter todos os direitos do mundo, mas não têm direito de ameaçar ou de preparar para exterminar a outro povo. Esse não é um dos direitos humanos. Se eles estão falando de direitos, primeiro têm de dar direito de expressão dentro do Irã, direitos às mulheres... Se falamos de direitos, o caminho é longo. É um pouco cínico da parte do Irã falar desses direitos.

 

Terra Terra