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O Novo Papa
Segunda, 25 de abril de 2005, 16h35 
Pobreza e posição do papa preocupam padres da América Latina
 
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Entre as humildes casas de barro e tijolos dos bairros de subúrbio do Peru, a religião está sempre presente: o rosto de Cristo pintado nos ônibus que percorrem suas ruas com nomes de santos e cartazes enormes sobre as paredes com slogans de fé. Mas para o sacerdote católico Eugenio Kirke, que passou sua vida ajudando aos mais necessitados do Peru, é pouco provável que o papa Bento 16 encontre um lugar de honra entre a população do lugar.

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Kirke diz que o papa, conhecido por sua linha conservadora, e os cardeais que o elegeram estão cegos frente à realidade da pobreza na América Latina, que concentra a metade dos católicos de todo o mundo.

Como muitos padres liberais, o sacerdote Kirke, de 71 anos, diz que os ensinamentos da Igreja sobre o controle de natalidade, o aborto e a justiça social não podem resolver as necessidades dos camponeses mexicanos, dos pescadores panamenhos ou dos que vivem nas favelas do Brasil.

"Pergunto-me se os homens de solidéus vermelhos sabem como trabalhar com os doentes, com os viciados, com os que estão morrendo", disse Kirke, em referência aos altos funcionários do Vaticano, em sua modesta casa na Vila El Salvador, bairro popular a sudeste de Lima.

"Não vou dizer a uma mulher que usou um preservativo que ela cometeu pecado. Não corresponde aos sacerdotes ou ao papa julgá-la", disse Kirke, cuja igreja ajudou a curar centenas de vítimas de acidentes de trânsito diante da falta de hospitais devidamente equipados na região.

Existem sacerdotes conservadores trabalhando com pobres na América Latina, respeitados pelos moradores dos bairros pobres por dar sacramentos católicos como o batizado. Mas muitos padres - que asseguram que a luta pela pobreza é importante nos sacramentos católicos - estão abertamente em desacordo com o Vaticano.

O Peru, com metade de sua população vivendo com menos de 1,25 dólar ao dia e onde os padrões de vida somente melhoraram para os pobres nos últimos 30 anos, tem sido o centro dos esforços da América Latina para colocar a pobreza no coração da Igreja Católica. Na década de 1970, durante uma ditadura militar, o padre peruano Gustavo Gutiérrez propôs a Teologia da Libertação para que a Igreja ajudasse as pessoas a deixar a pobreza.

O papa João Paulo II e seu sucessor, Joseph Ratzinger, se opuseram a essa ideologia, considerada de esquerda, por temor de que pudesse provocar uma luta de classes. João Paulo II afastou muitos sacerdotes liberais e os trocou por outros mais conservadores e fechou seminários reformistas forçando seus críticos a sair da Igreja.

Os padres continuam trabalhando em áreas rurais e regiões marginais da América Latina. Muitos sentem que é irrelevante a linha teológica que determina o Vaticano porque acham que o trabalho verdadeiro da Igreja é fora dali, no mundo real, com os pobres.

Frank Chamberlain, de 68 anos, um padre jesuíta que trabalhou com os pobres do Peru por 43 anos, é um dos considerados liberais e sustenta que a autoridade de Roma deve ser seguida somente se for crível. "A Igreja tem que ser mais que uma fornecedora de sacramentos. Estamos ajudando as pessoas a viver com um pouco de dignidade", disse Chamberlain em sua igreja no distrito pobre de El Agustino, em Lima, onde ajuda jovens a abandonar gangues violentas.

Os sacerdotes que trabalham nas ruas dizem que nem sempre é fácil seguir a doutrina longe da segurança do Vaticano. "Uma mulher vem e me pede ajuda para uma laqueadura. Tem cinco filhos e um marido sexualmente ativo. Não tem renda para ter mais filhos e também não seria bom para sua saúde. Deve-se escolher o menor dos males", disse Chamberlain.

Em um bairro de subúrbio que não conta com os serviços básicos de água potável e de esgoto, Chamberlain impulsiona a economia da região com microcréditos para financiar pequenas empresas, como padarias. "Sem o nosso trabalho, a vida seria muito mais desumana para essa gente. Os papas vão e vêm, mas eu estarei aqui até morrer", disse Chamberlain.

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Reuters

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