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Ainu, uma etnia japonesa condenada ao esquecimento

23 de março de 2006 09h28

O Japão é visto com freqüência como uma nação composta por uma única raça, inclusive pelos próprios japoneses.

Porém, a realidade é bem diferente.

No norte do arquipélago vive a comunidade indígena ainu, com traços físicos parecidos com os dos esquimós e uma cultura e um idioma próprios.

No entanto, as autoridades nipônicas parecem ter esquecido a existência deste povo.

Em outubro passado, na inauguração do Museu Nacional de Kyushu, o então ministro do Interior (atualmente das Relações Exteriores) Taro Aso despertou críticas ao dizer que o Japão representava "uma nação, uma civilização, uma língua, uma cultura e uma raça", acrescentando que não existia "outro país no mundo" com estas características.

Suas palavras incomodaram não só os representantes ainus, mas também países vizinhos como China e Coréia do Sul, que consideraram as declarações extremamente nacionalistas.

Anos atrás, em 1986, o então primeiro-ministro do Japão, Yasuhiro Nakasone, chegou a dizer que o país podia manter um alto nível de educação por ser um país de uma única raça.

Em 1997, o Governo declarou os ainus como uma minoria indígena japonesa e criou uma lei para a promoção de sua cultura e tradições.

Contudo, declarações como as citadas continuam sendo feitas por altos representantes do Executivo nipônico.

O Grupo Internacional pelos Direitos das Minorias (Minority Rights Group International) denunciou em janeiro que, nos últimos anos, houveram poucas melhoras nas condições desta comunidade, cujos membros continuam sofrendo discriminações.

Mutsuko Nakamoto, representante da Associação de Folclore e Preservação da Cultura Ainu, lembra os ataques que seu povo sofreu por parte das autoridades japonesas no final do século XIX e no início do século XX.

"Quando era jovem, ninguém me mostrava como era a cultura ainu porque as pessoas temiam serem discriminadas", afirmou à EFE Nakamoto, de 77 anos.

Devido à política de assimilação promovida em 1899 pelo Governo de Tóquio, após a revolução Meiji, os ainus foram forçados a se integrarem aos japoneses em certas regiões da ilha de Hokkaido, no norte do país, e obrigados a abandonarem seus costumes.

Também acabaram ficando numa situação financeiramente insustentável devido às fortes restrições aos cultivos, à caça e à pesca.

A homogeneização cultural decretada pelas autoridades japonesas causou um dano irreversível à cultura dessa etnia.

"A cultura ainu não é inferior. Carecemos de escritura, mas gozamos de uma muito boa memória para transmitir oralmente os costumes. Além disso, nosso pensamento é humilde", afirmou.

Os ainus ("ser humano" em seu idioma) têm crenças animistas, segundo as quais tudo na natureza tem um "kamuy" (espírito divino) em seu interior.

"Achamos que os deuses estão em todas as coisas, por isso avaliamos muito a vida", explicou Nakamoto.

Katsunobu Nakamura, membro da mesma associação e estudante da língua ainu, fala de uma autêntica repressão do idioma indígena por parte dos japoneses.

"Apesar de minha mãe ser ainu, não me ensinou nada dos costumes.

Ninguém falava o idioma ainu no povoado porque todos tinham medo que a Polícia os detivesse por isso", confessou Nakamura.

Infelizmente, seu caso não é excepcional. Poucos descendentes dos ainu sabem se comunicar na língua de seus ancestrais.

Segundo uma estatística da prefeitura de Hokkaido de 1999, 0,8% dos ainus, todos maiores de 50 anos, sabem conversar fluentemente em sua própria língua, ao passo que 4,5% disseram que podem manter uma pequena conversa.

Atualmente, segundo a última estatística realizada em 1999, 24 mil ainus vivem na ilha de Hokkaido. Mas, embora, segundo um representante da comunidade, esse número deve ser dois ou três vezes maior, já que em todo Japão há muitos que não se atrevem a revelar suas origens.

A maioria sobrevive em condições de pobreza e praticamente no esquecimento, apesar de viver na segunda maior potência econômica do mundo.

EFE
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