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 Discurso de Powell mantém divisão na ONU
06 de fevereiro de 2003 03h49 atualizado às 06h51

Colin Powell apresentou à ONU supostas provas contra Saddan Hussein. Foto: AP

Colin Powell apresentou à ONU supostas provas contra Saddan Hussein
Foto: AP

O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, concluiu ontem sua apresentação das supostas provas de que o Iraque possui armas de destruição em massa dizendo que o Conselho de Segurança da ONU "não deve recuar diante do que vier pela frente". "Escrevemos a resolução 1441 para dar ao Iraque uma última chance. O Iraque até agora não está aproveitando essa última chance. Não devemos recuar diante do que vier pela frente. Não devemos falhar em nossa obrigação, em nossa responsabilidade", disse Powell ao Conselho de Segurança.

Em sua apresentação ao Conselho de Segurança da ONU, Powell incluiu fotos de satélites-espiões americanos, inteceptações telefônicas e declarações de desertores iraquianos. Ele acusou o Iraque de ter ocultado equipamentos de um suposto programa de armas para despistar os inspetores da ONU que vasculhavam o país em busca de provas de armas químicas, biológicas e nucleares. O secretário norte-americano ressaltou que o Iraque estava em condição de "violação material" das resoluções da ONU, que exigem o desarmamento do país, e disse que agora a nação árabe corre perigo de sofrer "sérias consequências" -- em linguagem diplomática, a indicação de uma possível invasão militar liderada pelos Estados Unidos.

Durante o discurso, outro país que Washington acusa de desenvolver um programa de armas de destruição em massa, a Coréia do Norte, divulgou uma nota desafiadora sobre seus planos nucleares. Um parlamentar do Iraque classificou o discurso como "mentira e invenção". França, China e Rússia, que têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, defenderam uma ampliação do trabalho dos inspetores de armas. Para a França, uma ação militar deve ser apenas o último recurso. "Dada a escolha entre uma intervenção militar e um regime de inspeções que é inadequado por causa de uma falha da parte do Iraque em cooperar, nós devemos escolher o reforço decisivo dos termos de inspeção", disse o chanceler francês, Dominique de Villepin, ao Conselho. A Rússia defendeu que as informações apresentadas por Powell devem ser verificadas pelos inspetores e a China pediu mais tempo às inspeções.

Powell disse que a ONU pode se tornar irrelevante se não agir em resposta às supostas violações das resoluções aprovadas pelo Conselho de Segurança contra o Iraque. "Esse órgão se coloca em perigo de irrelevância se deixar o Iraque continuar a desafiar sem responder efetivamente e imediatamente", ameaçou. O secretário de Estado mostrou fotos que, segundo os EUA, comprovam que o Iraque mantém armas de destruição em massa e acusou Bagdá de "limpar" os armazéns que as abrigavam. Fotos feitas dois dias antes da retomada das inspeções de armas, em novembro passado, mostrariam que o governo iraquiano teria enviado caminhões a uma instalação que abrigaria mísseis antibalís ticos.

"Temos esse veículo modificado (...) O que faremos se um deles encontrá-lo?", diz uma autoridade iraquiana. "Você não tem um veículo modificado", responde o general. "Vou vê-lo nesta manhã. Estou preocupado. Vocês todos deixaram algo." "Retiramos tudo. Não deixamos nada", afirma a autoridade iraquiana. Acrescentou que possuem "descrições de primeira mão" de fábricas móveis de armas biológicas que podem ser facilmente transferidas por estradas e ferrovias, para evitar uma detecção. Segundo Powell, um técnico teria observado pessoalmente a morte de 12 pessoas depois de um vazamento numa instalação desse tipo em 1998. Listou que haveriam pesquisas relacionadas a armas com vírus de cólera, tifo, varíola e antraz, as quais teriam sido testadas em cerca de 1.500 prisioneiros condenados à morte.

Mantendo a posição do governo francês sobre a necessidade de dar mais tempo aos inspetores da ONU, o chanceler francês, Dominique de Villepin, propôs o fortalecimento do trabalho da equipe em Bagdá, aumentando em três vezes o número de peritos em armas e enviando para lá um supervisor em tempo integral, para acompanhar o processo. "O uso da força só pode ser um último recurso. Nós temos de seguir em direção a uma nova fase e fortalecer mais as inspeções", disse. De Villepin disse que a França iria analisar cuidadosamente as evidências apresentadas pelo secretário Colin Powell, mas insistiu em que as inspeções estão funcionando e resultaram em grandes avanços.

O governo francês lidera a oposição ao uso da força contra o Iraque e tem indicado que poderá usar seu poder de veto para barrar uma eventual resolução do Consulho de Segurança. Rússia quer verificação de provas O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Igor Ivanov, disse ontem que as supostas provas apresentadas por Colin Powell terão de ser examinado pelos inspetores da ONU, cujo trabalho deve continuar, enfatizou.

Autoridades iraquianas rechaçaram ontem as supostas provas apresentadas pelo secretário Colin Powell, acusando-as de serem um apanhado de "truques", "efeitos especiais" e "fontes desconhecidas" visando sabotar o trabalho dos inspetores da ONU. O general Amir al-Saadi, assessor do presidente Saddam Hussein, disse que a conversação monitorada apresentada por Powell foi fabricada, o desertor informante não é confiável e as fotografias de satélite mostradas "não provam nada". A Liga Árabe decidiu antecipar para meados de março a cúpula anual dos líderes dos países membros da organização devido à proximidade de uma guerra contra o Iraque, que "trará conseqüências econômicas desastrosas para a região" do Oriente Médio, África do Norte e Golfo Pérsico. Foi o que informou no Cairo o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, que reiterou estar "muito pessimista a respeito das conseqüências econômicas desatrosas" que uma guerra poderá causar.

Em 16 de fevereiro se reunirão na capital egípcia os chanceleres dos 22 países membros da Liga Árabe para preparar as bases da cúpula, cuja antecipação é rejeitada por parte da Arábia Saudita e de outras monarquias do Golfo Pérsico.

Reuters
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