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Começam as audições para beatificar João Paulo II

12 de outubro de 2005 11h23

Uma delegação do Vaticano deve começar hoje em Varsóvia a ouvir testemunhos para o processo de beatificação do Papa João Paulo II, afirmaram fontes do episcopado polonês.

"Nosso objetivo é solicitar ao arcebispo de Cracóvia (monsenhor Stanislaw Dziwisz) a formação de um tribunal de beatificação que, em cooperação com o de Roma, deverá coletar testemunhos para esse processo", declarou à imprensa o padre Slawomir Oder. Esse sacerdote é o "postulador" da causa de beatificação do pontífice morto no dia 2 de abril passado. As audições em Cracóvia e em Roma começarão "nos próximos dias", estimou o padre Oder.

"Não está descartada a possibilidade de o papa Bento XVI anunciar a beatificação de seu predecessor em junho de 2006, data prevista para a primeira visita do novo pontífice à Polônia", afirmou o padre Jozef Kloch, porta-voz do episcopado polonês. "Temos que esperar a decisão do Vaticano", acrescentou.

O padre Oder viajou para Cracóvia acompanhado por um emissário do Vaticano, o sacerdote Gianfranco Bella, que assistirá às audições na cidade onde Karol Wojtyla passou a maior parte de sua vida e onde exerceu o arcebispado até ser eleito Papa no dia 16 de outubro de 1978. Tanto a lista de testemunhas quanto o procedimento das audições é mantido em segredo.

"São pessoas que têm coisas a dizer sobre a vida e a atividade de Karol Wojtyla na época em que ele foi bispo e cardeal", explicou o padre Oder. "Há sacerdotes e leigos", afirmou. João Paulo II morreu no dia 2 de abril aos 85 anos e durante seu velório uma parte da multidão gritou na Praça São Pedro: "Santo súbito" (Santo já).

Sem esperar o prazo regulamentar de cinco anos depois da morte de um possível santo, o novo pontífice, Bento XVI, concordou com a abertura do processo de beatificação, primeiro passo para uma eventual canonização. Desde que se facilitou o caminho para a canonização dos futuros santos, graças à reforma do Código de Direito Canônico de 1983, diminuíram os obstáculos e exigências para se chegar a santo, o que permitiu ao Papa João Paulo II proclamar 476 santos e 1.314 beatos em 25 anos de pontificado.

São três as etapas pelas quais deve passar o candidato a santo - confirmação das "virtudes heróicas", beatificação e canonização -, para as quais se necessita de um milagre comprovado. O primeiro passo para o processo de beatificação geralmente é dado pelo bispo da diocese à qual pertence o candidato e dificilmente antes dos cinco anos posteriores à sua morte.

Durante a investigação, primeiro se demonstra que o candidato tinha "fama de santidade" e que merece ser proposto à canonização. O bispo e/ou leigos, ou inclusive um chamado "postulador" (espécie de advogado de defesa), levam posteriormente a proposta à Congregação para as Causas dos Santos - mais conhecida em Roma como "fábrica de santos" -, que é encarregada de dar o "nihil obstat" (permissão) para iniciar o verdadeiro processo das "virtudes heróicas".

O postulador deve reunir toda a informação, de depoimentos até cartas e escritos, para demonstrar que o candidato praticava de forma "heróica" e continuada as virtudes da fé. O informe passa, então, pelas mãos do antigamente chamado "advogado do diabo" (assim denominado porque criava mil travas e obstáculos no caminho do candidato), atualmente conhecido como "promotor da fé", que passou a ser quase um colaborador do futuro santo, tratando de ajudá-lo indiretamente a demonstrar suas qualidades.

Os teólogos consultores, os cardeais e até o Papa têm o direito de opinar nesta etapa do processo, depois da qual se pode prever a beatificação, sempre que se demonstre pelo menos a existência de um milagre que possa ser atribuído ao candidato. A reforma do Código de Direito Canônico exige a demonstração de um milagre para proclamar um santo. Mas demonstrar a validade do milagre não é tarefa fácil. A Congregação para as Causas dos Santos se vale da assessoria de uma equipe de 70 médicos e vários especialistas, assim como dos estudos clínicos aos quais é submetido o indivíduo supostamente curado por um milagre.

Uma primeira aproximação do fenômeno denominado "milagre" é a cura de forma instantânea, perfeita e duradoura. Além disso, ela deve ser inexplicável cientificamente, geralmente uma doença incurável ou muito difícil de se tratar.

AFP
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