Nove meses depois de a tsunami de 26 de dezembro ter invadido a costa de uma dúzia de países do oceano Índico, deixando mais de 232 mil pessoas mortas ou desaparecidas, milhares de vítimas ainda não foram identificadas, e suas famílias buscam alguma maneira de pôr fim a seu sofrimento.
Um número decrescente de voluntários de todas as idades continua a fazer trabalhos de limpeza e reparos em Phi Phi, uma ilha tailandesa que já foi vista como paradisíaca e onde foi filmado o longa "A Praia", onde mais de 2,1 mil pessoas teriam morrido na manhã do domingo após o Natal.
Em um jardim bem cuidado em Phi Phi, velas são acesas em memória de mais uma vítima recém-identificada da tsunami do oceano Índico. A lápide em memória de Connor Keishily, de Cookstown, Irlanda do Norte, cuja morte foi confirmada no final de agosto pelo Centro de Identificação de Vítimas do Desastre, na vizinha Phuket, diz: "Pensamentos silenciosos e memórias preciosas. Amor. Mãe, Pai, família e amigos".
Judy Ackroyd, avó de cinco crianças de Leeds, na Inglaterra, empurra um carrinho de mão com sacos de escombros de um reservatório no qual a tsunami jogou dezenas de casas e até 300 pessoas, que morreram. É um trabalho sujo e dificultado pelo calor.
Ackroyd se pergunta por que as organizações humanitárias não vieram à ilha, tanto que todo o trabalho está sendo feito por voluntários que pagam suas próprias passagens aéreas, além de comida e alojamento. "Quando vimos as notícias na televisão, viemos para cá para começar a ajudar", disse ela. "Sei que pessoas de todo o mundo doaram dinheiro. Mas não sei se esse dinheiro foi bem distribuído."
Embora Phi Phi tenha uma das maiores concentrações de vítimas da tsunami, nenhuma organização humanitária formal está presente na ilha. Em um paralelo estranho com o filme "A Praia", ambientado em Phi Phi e estrelado por Leonardo DiCaprio, sobre mochileiros que buscam criar uma utopia numa praia isolada da civilização, o governo tailandês tem pouca ou nenhuma presença na ilha, dizem os voluntários.
Surachet Chetachart, gerente de projeto do trabalho de recuperação de Phi Phi e de Khao Lok, no continente, disse que isso acontece porque os planos de construção e infra-estrutura foram adiados até o governo concluir seu plano de reconstrução pós-tsunami.
O governo e as agências multilaterais prometeram 7 bilhões de dólares em ajuda e reconstrução pós-tsunami, mas boa parte desse dinheiro ainda não foi distribuído enquanto as plantas de reconstrução não forem aprovadas. As doações privadas mundiais chegam a outros 5 bilhões de dólares.
Desenhos feitos pelas crianças de Phi Phi, vendidos em um livro sobre a ilha feito para levantar fundos para a reconstrução de sua escola, mostram duas ondas ameaçadoras, como garras gigantes erguidas para esmagar a ilha. As crianças estão entre os 750 moradores de Phi Phi que, desde a tsunami, estão vivendo em acampamentos provisórios no continente.
OSSOS ENCONTRADOS
O Centro de Identificação de Vítimas do Desastre pretende retomar a busca por vítimas na ilha, depois da informação de que mais corpos podem estar sob paredões marítimos que desabaram.
De acordo com a voluntária Marge Davis, que tirou licença de seu trabalho de professora de deficientes auditivos em Cheltenham, Inglaterra, para trabalhar como voluntária para a Hiphiphi.com, o maior grupo voluntário atuante na ilha, "de vez em quando encontramos ossadas. Muitas vezes são ossadas de cachorros, mas de vez em quando são humanas".
Com seus penhascos íngremes e suas belas praias escondidas ao lado de lagoas maravilhosas, Phi Phi é há anos um paraíso que atrai mergulhadores e mochileiros. A ilha se tornou conhecida após o lançamento de "A Praia", cinco anos atrás.
Os mochileiros voluntários que estão em Phi Phi parecem ser idealistas, mas a vida na ilha não está imitando a arte, por sorte. O filme termina com os moradores da praia perdendo o contato com a realidade, o que os conduz a um frenesi assassino.
Mas o governo tailandês diz que a ilha chama a atenção pela ausência de criminalidade. Os voluntários já reergueram mais de 160 lojas e casas, e muitos dos grandes hotéis e pousadas prevêem reabrir para a temporada turística do fim do ano.

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