Notícias » Mundo » Mundo

 Multidão marcha no aniversário de golpe no Chile
11 de setembro de 2005 16h49 atualizado às 17h55

Uma multidão de manifestantes marchou neste domingo em Santiago para evocar a memória do presidente socialista Salvador Allende e os milhares de vítimas que a ditadura do general Pinochet deixou, aos 32 anos do sangrento golpe que o instalou no poder.

A coluna de cinco mil manifestantes, segundo a polícia, avançou da Praça Los Héroes até o Cemitério Geral, para prestar homenagem em frente à tumba de Allende. O ex-presidente se suicidou no palácio de La Moneda em meio ao ataque terrestre e ao bombardeio aéreo dos militares golpistas.

Convocada pela Assembléia Nacional dos Direitos Humanos, a manifestação terminou aos pés do memorial em que estão escritos, em uma parede de mármore, os nomes dos mais de mil desaparecidos durante o regime militar.

Violentos distúrbios que deixaram pelo menos uma dezena de detidos começaram nos arredores do cemitério, quando jovens com os rostos cobertos ergueram barricadas às quais atearam fogo e lançaram bombas incendiárias contra homens da polícia militarizada de Carabineiros, que responderam com jatos d'água e bombas de gás lacrimogêneo.

O presidente socialista Ricardo Lagos, que presidiu um ato junto aos familiares de Allende no palácio de governo, se declarou favorável a superar as feridas que ainda dividem a sociedade chilena. Lagos chegou ao La Moneda, no centro de Santiago, depois que a marcha de organizações humanitárias e partidos de esquerda passou pelo local.

"Lagos, aprende (com) a dignidade de Allende!" foi uma das consignas da coluna, refletindo o descontentamento dos grupos defensores dos direitos humanos pelo apoio do presidente a uma proposta para libertar os militares que tiverem cumprido 10 anos de prisão no julgamento por violações aos direitos humanos.

"Não se trata de esquecer o passado, trata-se de tirar experiências para que aqueles fatos não voltem a ocorrer", disse o presidente à imprensa. "Em sua mensagem final, o presidente Allende disse: 'Virão outros homens para superar este momento cinza e escuro'. Acho que está chegando o momento de superar este momento cinza e escuro", acrescentou Lagos.

O general Pinochet, distanciado da vida pública e com a saúde quebrantada, recebeu nesta data a saudação de "um grupo pequeno" de ex-colaboradores, diferente de sua época de ditador, quando era o centro de homenagens públicas. "Fomos saudá-lo, um grupo pequeno, mas que representava muita gente que ele não pode receber", disse o general da reserva Guillermo Garín, um dos mais estreitos colaboradores de Pinochet, depois de saudar o ex-ditador em sua residência em La Dehesa, leste de Santiago.

"Eu era capitão nessa época, mas tinha uma tremenda sensação de perda da liberdade pelo modelo que estava sendo instaurado pelo governo do presidente Allende", disse Garín, ao sustentar que o golpe foi "inevitável".

Após assistir à cerimônia no palácio de La Moneda, a viúva do presidente Allende, Hortensia Bussi, disse que o ex-ditador deveria estar na prisão. "Claro que sim", disse Bussi, 90 anos, ao ser consultada pela imprensa sobre a possibilidade de Pinochet ser preso.

Aos 89 anos, o ex-ditador enfrenta hoje uma investigação sobre as contas secretas que manteve em bancos dos Estados Unidos e de outros países, enquanto a Suprema Corte examinará na segunda-feira sua possível perda de imunidade para submetê-lo a julgamento pelos 119 desaparecidos durante a "Operação Colombo".

O Exército, que Pinochet chefiou como comandante-em-chefe durante 25 anos, lembrou a data com uma missa na capela da Escola Militar, junto a delegações da Marinha, da Força Aérea e da polícia dos Carabineiros, que participaram do golpe de 1973 e lembraram os militares que caíram durante o levante.

AFP
AFP - Todos os direitos de reprodução e representação reservados. Clique aqui para limitações e restrições ao uso.