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 Após 60 anos, bombardeio de Hiroshima ainda é tabu nos EUA
06 de agosto de 2005 19h41 atualizado às 21h10

A decisão de lançar uma bomba atômica sobre Hiroshima (Japão) ainda é um tema difícil de ser tratado nos Estados Unidos, uma questão da qual apenas se fala, um escuro segredo de família que se justifica mas que não se quer remover.

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  • Fotos da cerimônia no Japão
  • Especial: 60 anos de Hiroshima

    Neste sábado, o mundo inteiro relembrou o 60º aniversário do primeiro bombardeio atômico e chorou pelas mais de 140 mil vítimas do horror causado pelo desenvolvimento nuclear.

    Mas nos Estados Unidos, que enviou o B-29 - apelidado de "Enola Gay" - para destruir a cidade japonesa com uma arma de potência inimaginável, a data passou praticamente despercebida.

    E não foi por distração dos meios de comunicação ou dos políticos locais. Nos EUA, a dor que sentida não é a das vítimas, mas sim a de quem apertou o gatilho e tenta se convencer de que tomou a decisão correta.

    "Para os americanos é difícil aceitar o que se fez em nosso nome; o que as bombas atômicas realmente fizeram à humanidade", explicou à EFE Robert Jay Lifton, psiquiatra e historiador, que vem escrevendo dezenas de livros sobre o assunto.

    A doutrina oficial nos EUA é de que a bomba atômica salvou vidas ao encurtar a guerra. Ocupar o Japão teria causado milhares de baixas, segundo declarou, na época, o secretário de Guerra Henry Stimson.

    No entanto, McGeorge Bundy, responsável por escrever os discursos de Stimson, reconheceu posteriormente que ele próprio havia inventado a cifra e a incluído em artigo assinado pelo secretário de Guerra.

    Em agosto de 1945, o Japão estava seriamente prejudicado e desde antes da queda da Alemanha, em maio, já dava sinais de que ia se render. "Há consenso entre os historiadores de que não era necessário usar a bomba para encerrar a guerra", disse Lifton.

    Essa idéia não é aceita por John Correll, ex-diretor da "Air Force Magazine", publicação da Associação da Força Aérea, que conta com mais de 142 mil membros.

    "A guerra não havia terminado, nem estava perto de terminar", disse à EFE Correll, ao afirmar que ainda havia mais de três milhões de soldados japoneses na ilha. "Teria havido mais baixas, tanto americanas quanto civis", afirmou.

    Essa interpretação da história se incorporou na consciência coletiva americana. Até mesmo nos livros. Segundo uma pesquisa realizada esta semana pela empresa Gallup, 57% dos entrevistados disseram aprovar o uso das bombas atômicas contra Hiroshima e Nagasaki. Além disso, 80% acham que elas salvaram vidas americanas.

    Do outro lado está a Igreja Católica dos EUA. "Não se pode defender inocentes atacando inocentes", disse à EFE Steven Colecchi, diretor de justiça internacional e paz da Conferência de Bispos Católicos.

    Colecchi auxiliou o bispo William Skyslad, presidente da Conferência, na redação de uma carta sobre o tema, enviada esta semana à Igreja do Japão. "Não importa o quão nobres forem os objetivos de uma guerra, eles não justificam o uso de meios ou armas que não distingam combatentes e não combatentes", disse Skyslad na carta. Mais de 95% das vítimas em Hiroshima eram civis.

    De fato, a justificativa de acabar com a guerra é uma explicação simplista que oculta outros interesses. Segundo Lifton, os Estados Unidos estavam interessados em testar a nova bomba e seu processo de fabricação atrasou as negociações de paz com Japão.

    Além disso, diz ele, seu uso "foi um sinal a (Joseph) Stalin", uma prova da força, o primeiro movimento no jogo de xadrez que seria a Guerra Fria. Mas estes não são detalhes conhecidos pela maioria da população ou abordados pela imprensa, que preferiu não tocar em um assunto que causa nervosismo em seus interlocutores.

    A dificuldade de encarar o passado já havia sido exposta na comemoração do 50º aniversário da bomba, quando a instituição Smithsonian tentou mostrar uma visão mais abrangente sobre o bombardeio, incluindo até mesmo fotos das vítimas.

    Correll foi um dos líderes da ofensiva conservadora contra a exposição, que eliminou qualquer tipo de informação que contradissesse a mensagem de que a destruição de Hiroshima foi um ato de guerra justificado. No 60º aniversário não há exposições.

  • EFE
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