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Pesadelos ainda perseguem vítimas de Hiroshima

05 de agosto de 2005 14h30 atualizado às 22h57

Keiko Ogara ainda teme os efeitos nocivos da radiação. Foto: BBC Brasil

Keiko Ogara ainda teme os efeitos nocivos da radiação
Foto: BBC Brasil

As crianças que foram vítimas do bombardeio de Hiroshima em 6 de agosto de 1945 tiveram detritos radioativos espalhados em suas roupas e pele, na água que bebiam, nos restos de comida que encontravam e nos escombros dos edifícios nos quais se escondiam. Passados 60 anos, os sobreviventes do ataque ainda carregam não apenas as lembranças do incidente, mas um medo constante.

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    Keiko Ogura é uma das milhares de "hibakusha", como são conhecidos no Japão os sobreviventes do bombardeio. "Não tenho cicatrizes, mas tenho pesadelos. Pensava constantemente se eu poderia ter filhos", afirma.

    Após a guerra, as forças americanas de ocupação providenciaram assistência médica aos que foram afetadas pela radiação das bombas. Keiko, assim como os demais sobrevientes, foram submetidos a exames médicos regulares pela Comissão de Vítimas da Bomba Atômica, formada nos meses seguintes ao bombardeio.

    "Medo do invisível"
    "Fui levada para fazer exames diversas vezes. Sempre tive esses temores. Há algo em meu corpo? Era um medo do invisível. Eu tinha um pouco de anemia, o que fazia sempre com que eu me perguntasse: 'Será que isso tem algo a ver com a bomba? Será que eu poderei ter filhos normalmente?"

    Graças ao auxílio prestado às vítimas do bombardeio, os cientistas do Japão também desenvolveram conhecimentos avançados a respeito de radiação. "Nós estudamos a relação entre o nível de exposição e o grau da radiação. O nosso centro de estudos é o único grande centro de pesquisas epidemológicas capaz de fazer isso. Por isso, somos únicos", afirma Saeko Fujiwara, um dos médicos da Fundação de Pesquisas dos Efeitos da Radiação.

    Os estudos realizados na instituição japonesa permitiram que cientistas em todo o mundo traçassem diretrizes para prevenir a exposição à radiação. Ainda hoje, são essas as metas que norteiam a prevenção a acidentes na indústria nuclear, por exemplo.

    Charles Waldren, o americano que é o cientista-chefe do instituto japonês, acredita que quase 500 mil funcionários da indústria nuclear nos Estados Unidos e em países europeus se beneficiaram dos conhecimentos desenvolvidos na fundação. "Nossas pesquisas permitem que pessoas continuem a trabalhar em instalações nucleares estando sujeitas a um grau de exposição à radioatividade considerado seguro", afirma o cientista. "Creio que as estimativas de risco de radiação usadas em todos os países provêm de nossas pesquisas", acrescenta. Mas o monitoramento feito com os cidadãos de Hiroshima, com os que foram expostos à radioatividade das bombas e com seus filhos e netos, não é apenas um tópico de curiosidade científica.

    A idade média dos "hibakusas" é 72 anos. Quando foram expostos à radiação, eles sofreram danos em seus genes. Os mais afetados foram os que estavam no centro da explosão.

    Em muitos casos, o gene se auto-regenerou, mas é possível que estes processos de regeneração tenham sido imperfeitos, fazendo com que essas pessoas estivessem mais propensas a desenvolver câncer em uma idade avançada.

    Danos
    "A radiação induz a danos no genoma", afirma Kenji Kamiya, diretor do Instituto de Pesquisa para Radiação, Biologia e Medicina da Universidade de Hiroshima. "Em algumas pessoas, esse reparo não é feito de forma adequada. Assim, 60 anos depois, eles enfrentam problemas. O maior risco que as vítimas da bomba atômica enfrentam de desenvolver câncer, por exemplo, se dá entre os que estiveram expostos em uma idade mais nova", comenta o cientista.

    "Estamos tentando desenvolver novas tecnologias envolvendo genomas e novos métodos de diagnóstico e de tratamento. A medicina regenerativa oferece a possibilidade de reparar danos celulares", afirma Kamiya. O número de casos de câncer entre os sobreviventes de Hiroshima deve seguir aumentando nos próximos anos e talvez atinja seu auge em 2020. "É por isso que nós temos que nos apressar para desenvolver novos tratamentos para esses pacientes", comenta o cientista.

  • BBC Brasil
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