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 Debate sobre a necessidade da bomba continua
04 de agosto de 2005 22h34 atualizado em 05 de agosto de 2005 às 22h55

Hiroshima foi um momento decisivo e terrível na história. Quando o mortífero artefato explodiu, desencadeou-se uma força que desde então ameaçou a extinção da humanidade. Neste dia, o povo de Hiroshima experimentou o apocalipse: lançada de um avião B-29 com o nome de Enola Gay, a bomba estourou sobre a cidade e depois a consumiu com uma potência equivalente a 12,5 mil toneladas de TNT.

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    O centro da explosão produziu temperaturas de quase 3.000 graus centígrados, o dobro do necessário para fundir o ferro. A explosão arrasou o centro da cidade e desencadeou o inferno. Os sobreviventes agonizaram com terríveis queimaduras e radiação. Muitos dos que pareceram ilesos sucumbiram mais adiante de câncer e outras doenças. Em Hiroshima morreram 140 mil pessoas; em Nagasaki, 80 mil.

    Enquanto as bombas se transformaram em um símbolo de horror para o mundo, a experiência foi ainda mais complexa para os países em guerra: os Estados Unidos passaram a ser o único país que usou um arma atômica, e o Japão, o único a ser atingido por uma. Japão e Estados Unidos estão nos extremos do debate. Essas profundas divergências ainda existem hoje, quando o mundo lembra o 60° aniversário do ataque.

    Para os americanos, as bombas atômicas foram um último recurso contra um inimigo disposto a lutar até a morte, mas que se rendeu incondicionalmente em 15 de agosto de 1945, seis dias depois da devastação de Nagasaki. Os críticos - muitos deles japoneses, e alguns americanos - crêem que o governo do presidente Harry Truman teve outros motivos: o desejo de provar um arma terrível, o desejo de derrotar a Japão antes da chegada dos soviéticos, e a necessidade de marcar posição frente a Moscou no que seria mais adiante a Guerra Fria.

    Uma pesquisa recente realizada pelas agências de notícias The Associated Press e Kyodo encontrou opiniões muito divergentes: 68% dos americanos, mas só 20% dos japoneses interrogados consideraram que as armas nucleares foram necessárias para pôr fim à guerra rapidamente. A enquete conjunta, conduzida pelo instituto Ipsos nos Estados Unidos e pelo Centro de Investigação da Opinião Pública no Japão, entrevistou mil pessoas nos Estados Unidos e 1.045 no Japão e teve uma margem de erro de 3%. Em ambos lados do Pacífico, os interrogados mais velhos tenderam a dizer que a bomba era inevitável.

    Debate histórico
    O debate histórico se centrou em várias perguntas: quantos teriam morrido em uma invasão dos EUA por terra? Se tivessem rendido os japoneses de oferecido a eles melhores condições? O exército japonês já estava cansado para brigar mais? A bomba deveria ter sido lançada em um lugar inabitado antes de atingir uma cidade?

    Quem justifica a decisão de lançar as bombas tende a acreditar que a invasão do Japão teria causado meio milhão de mortos americanos, como também possivelmente milhões de mortos japoneses. O secretário de guerra Henry Stimson escreveu em 1946 que as baixas americanas teriam sido maiores de um milhão. O almirante William Leahy, alto assistente do comandante em chefe do exército e a armada, opôs-se ao lançamento das bombas, e em suas memórias equiparou seu uso ao "nível ético comum aos bárbaros da Idade Média".

    Em 1999, o historiador americano Richard Frank publicou um argumento a favor das bombas em "Perdição: o final do império japonês". O livro de Frank chegou à conclusão de que não havia nenhuma evidência de que o Japão estivesse disposto a aceitar nada próximo a uma rendição incondicional, mas sim, que estava preparando para lutar até a morte. Ainda sem as bombas nem uma invasão americana, o Japão teria enfrentado uma fome em massa provocada por um bloqueio, a perspectiva de um ataque em massa das tropas soviéticas que se aproximavam e possivelmente uma destruição muito maior que o a de Hiroshima e Nagasaki, sustentou.

    "Se os líderes americanos em 1945 tivessem tido garantias de que Japão e Estados Unidos iam passar duas gerações em tranqüilidade, teriam suposto que suas difíceis decisões se justificariam, e o mesmo devemos supor nós", concluiu. Mas o passar do tempo tem seu peso. Depois de Hiroshima, o mundo suportou 40 anos de Guerra Fria sob a ameaça nuclear, e depois o fantasma de um arma nuclear em mãos de terroristas.

    Nesta era em que atacar civis é considerado obra de terroristas, a aniquilação de uma cidade junto com sua população civil para muitos é moralmente indefensável. Ainda que Hiroshima costuma representar-se como um alvo puramente civil, tinha longos antecedentes de cidade de concentração militar e abrigava dezenas de milhares de soldados, como também os quartéis de dois contingentes militares. Mas não tinha fábricas de munições, e o fato de que nunca havia sido bombardeada com armas convencionais sugere que não ocupava um lugar proeminente na lista de alvos militares dos aliados.

    Para os japoneses, o sofrimento humano é o legado principal. É o pensamento central de um movimento pacifista e internacionalista segundo o qual o Japão nunca deveria voltar a apelar à guerra. Para muitos no Japão, toda tentativa de justificar a bomba atômica é cruel. Como nos Estados Unidos, as opiniões no Japão também são variadas. Sadae Kasaoka, 72 anos, perdeu o pai e a mãe em Hiroshima. Apesar de considerar o ataque um fato selvagem, crê que o regime japonês dessa época tem sua porção de culpa.

    "O governo japonês deveria ter feito algo para pôr fim à guerra antes que fosse muito tarde", afirmou. Por isso, disse, é importante que se divulgue "aos quatro ventos" o que ocorreu lá: para que nunca volte a acontecer.

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