Notícias » Mundo » Mundo

 Esperança e aflição marcam os 6 meses do tsunami
26 de junho de 2005 14h38 atualizado às 16h10

Estudantes carregam velas em Nagapattinam, na Índia. Foto: AP

Estudantes carregam velas em Nagapattinam, na Índia
Foto: AP

Frustrados, morando em barracas e sem emprego, sobreviventes do tsunami que matou cerca de 232 mil pessoas em regiões banhadas pelo Oceano Índico lutam para reconstruir suas vidas e casas, seis meses depois de uma das maiores tragédias naturais da história.

  • Ásia lembra os 6 meses do tsunami. Veja fotos
  • Terremoto abala Indonésia 6 meses depois do tsunami

    Nos países mais afetados, Indonésia, Sri Lanka, Índia e Tailândia, sobreviventes reclamam que a reconstrução de escolas e a criação de empregos mal começou. Ajuda emergencial ainda é distribuída, com o Programa Mundial de Alimentos sustentando quase 2 milhões de pessoas na região.

    "Eu tenho mudado de um acampamento para outro. Eu quero voltar para casa", disse Zam Zami Amin, 48 anos, que perdeu a mulher e dois dos seus quatro filhos quando a onda gigante, provocada por um terremoto, destruiu a sua vila, Deyah Raya, na província de Aceh, na Indonésia. "Eu ainda estou confuso. Talvez seja por isso que eu não sinta nenhuma mudança", acrescentou.

    Para as vítimas, as lembranças da manhã do domingo, 26 de dezembro, ainda estão vivas. Muitos têm pesadelos. Em Aceh, onde 168 mil pessoas morreram ou estão desaparecidas, corpos ainda são encontrados. Parte do litoral parece ter passado por um holocausto nuclear. No sul da Tailândia, onde muitos estrangeiros estão entre as 5.395 pessoas mortas, houve pequenas cerimônias neste domingo no memorial da ilha turística de Phuket.

    Gabor Szigeti, um sobrevivente sueco de 32 anos, voltou a Khao Lak, um conjunto de praias ao norte de Phuket, onde ele estava naquele dia. Ele e a mulher sobreviverem quando as ondas monstruosas invadiram os bangalôs de turistas. O casal retornou para agradecer os moradores locais que os ajudaram a sobreviver, disse Szigeti.

    Trabalho complexo
    O terremoto de magnitude 9,15 registrado próximo à costa da ilha de Sumatra, na Indonésia, foi o mais fote em 40 anos e enviou paredes de água de até dez metros a 13 países do Oceano Índico.

    Nenhum lugar sofreu mais do que Aceh. Cerca de mil vilas ou cidades foram afetadas ou varridas do mapa. Pouco do trabalho de reconstrução começou e a limpeza dos entulhos ainda continua. Segundo as Nações Unidas, vai levar pelo menos dez anos para que tudo seja recuperado.

    Em Aceh, os doadores de ajuda financeira dizem que a reconstrução está dois meses atrasada por causa dos adiamentos na escolha da agência de monitoramento dos trabalhos. Os projetos foram aprovados em maio, e, no sábado, foi anunciada liberação de US$ 2,8 bilhões.

    Os doadores insistem que uma das maiores reconstruções em tempos de paz da história deve equilibrar velocidade e qualidade, ao mesmo tempo que os títulos de propriedade são reorganizados e as comunidades decidem o que querem.

    "O trabalho é muito complexo, mas em outubro ou novembro você vai se admirar. Esse lugar está se movimentando", afirmou Andrew Steer, chefe do Banco Mundial em Jacarta, referindo-se a Aceh.

    Quase 120 mil lares precisam ser reconstruídos em Aceh para os mais de 500 mil que perderam as suas casas. A grande maioria dessas pessoas estará morando em casas temporárias ou permanentes em dois anos, disse as Nações Unidas no sábado.

    Os pedidos de ajuda de governos e organismos multilaterais somam cerca de US$ 6,9 bilhões, enquanto as doações privadas somaram US$ 5 bilhões, de acordo com levantamento da Reuters. No entanto, a maior parte desses recursos ainda não foi desembolsada.

    Proteção aos mais pobres
    A agência internacional Oxfam disse em relatório divulgado no sábado que as comunidades pobres estão vulneráveis pois o tsunami atingiu algumas das zonas mais desfavorecidas economicamente em cada um dos três países mais afetados.

    Segundo o relatório, "embora o trabalho de reconstrução em muitos casos esteja ajudando efetivamente os mais pobres, em alguns casos há uma tendência de se enfocar os proprietários de terra, negociantes, em vez de priorizar a ajuda para as comunidades desfavorecidas".

    Uma das piores coisas para os sobreviventes é se dar conta da dimensão do que ocorreu e se conformar com as perdas. A depressão passou a atacar as comunidades afetadas.

    Nizarli, morador de Aceh, perdeu a mulher e os dois filhos. Em muitos momentos, ele recorre ao Islã para se consolar. "Somos muçulmanos, esse era o nosso destino. Nós pensamos que era o fim do mundo", afirmou Nizarli.

    O desastre pode, contudo, deixar um legado de paz. A Indonésia e os rebeldes separatistas de Aceh retomaram o diálogo para pôr fim a três décadas de conflito.

    No Sri Lanka, um novo pacto para dividir US$ 3 bilhões em ajuda com os Tigres de Libertação do Tâmil Eelam pode ajudar os esforços para tornar um cessar-fogo de três anos em paz efetiva, após duas décadas de guerra civil.

  • AP - Copyright 2007 Associated Press. Todos os direitos reservados. Este material não pode ser publicado, transmitido, reescrito ou redistribuído.