Notícias » Notícias

 Sobreviventes relatam drama de incêndio em prisão em Honduras
15 de fevereiro de 2012 18h31 atualizado às 19h10

Parentes choram enquanto esperam por notícias em frente à penitenciária, em Comayagua. Foto: AP

Parentes choram enquanto esperam por notícias em frente à penitenciária, em Comayagua
Foto: AP

Deitado em uma maca, Victor Sevilla contou horrorizado como salvou a própria vida na madrugada de quarta-feira, ao fugir pelo teto do gigantesco incêndio na penitenciária de Comayagua, onde mais de 300 prisioneiros morreram, muitos agarrados às barras de suas celas. Apavorados com as chamas, os detentos - segundo depoimentos - tiveram ainda que escapar dos tiros para o alto que os guardas efetuaram aparentemente acreditando, em um primeiro momento, que se tratava de uma tentativa de fuga desta prisão do centro de Honduras.

"Foi muito triste, acordei com a gritaria dos colegas que já estavam quebrando o teto de madeira e zinco. Saímos e pulamos. Tivemos que nos atirar de um muro, os outros estavam morrendo, em meio às chamas", contou Sevilla à AFP no hospital de Comayagua, 90 km ao norte de Tegucigalpa. "Um preso que trabalha na enfermaria quebrou três cadeados e conseguiu salvar um montão de gente", relatou Sevilla, 23 anos, condenado a 12 anos de prisão por homicídio, que escapou de sua cela e da morte com uma fratura no tornozelo.

Foram levados para o hospital Santa Teresa cerca de 30 sobreviventes do terrível incêndio que consumiu quase metade da fazenda penal, onde os detentos se dedicavam ao cultivo de hortaliças e à criação de animais. A tragédia, que segundo as autoridades pode ter deixado pelo menos 300 mortos, começou às 22h50 locais de terça-feira (2h50 de quarta, horário de Brasília) com um incêndio, cujas causas ainda são investigadas pelas autoridades, controlado pelos bombeiros três horas depois.

Os presos que se salvaram relataram cenas dantescas de colegas que morreram carbonizados, agarrados às barras de suas celas, sem conseguir quebrar os cadeados que os mantinham presos. "Morreram pegando fogo, foi um inferno", contou um dos sobreviventes, não identificado.

Fabricio Contreras, 34 anos, foi um dos primeiros presos a conseguir sair e contou que os guardas da penitenciária "atiraram para o alto porque pensavam que se tratava de uma fuga". "Estava dormindo quando acordei com os gritos dos colegas. De repente, vi as chamas subindo, as pessoas queriam sair pelo portão, mas ninguém abria. Saímos pelo teto e pulamos um muro", relatou. "Foi horrível como pediam socorro das outras celas porque estavam queimando", continuou Contreras, que recebeu atendimento com uma lesão na perna direita e queimaduras leves.

Eberth López, 29 anos, preso por homicídio, contou que foi acordado pelos colegas. "Olhamos as línguas de fogo. Todos gritavam pedindo socorro, não abriam os portões para nós, as chaves não apareciam", contou à AFP, ainda comovido. Nos arredores do hospital, em cuja entrada foi colocada uma lista com os presos internos no local, dezenas de pessoas procuravam por seus parentes desesperadas. "Meu filho ficou asfixiado ali. Os guardas não abriram a porta para que morressem queimados. Se tivessem aberto a porta, teriam se salvado. Disparos foram feitos quando os réus, desesperados, queriam sair", relatou Leônidas Medina, 69 anos.

Trezentos familiares, entre homens, mulheres e crianças, que pediam informações sobre os presos nos arredores da penitenciária, enfrentaram a polícia a pedradas, furaram o cerco e se concentraram no pátio frontal, mas os agentes, com tiros para o alto, conseguiram controlar a situação. "Não abriram os portões para os bombeiros. Quando quiseram sair, ninguém tinha as chaves da cela e morreram queimados nas portas da cela", afirmou Omar Tróchez, 27 anos.

O presidente de Honduras, Porfirio Lobo, anunciou nesta quarta-feira o afastamento temporário das autoridades penitenciárias para garantir uma investigação eficaz das causas do incêndio, que qualificou de "lamentável e inaceitável tragédia".

AFP
AFP - Todos os direitos de reprodução e representação reservados. Clique aqui para limitações e restrições ao uso.
  1. Familiares de detentos da penitenciária de Comayagua tentam derrubar o portão e entram em conflito com policiais

    AFP
    Foto: AFP

  2. Militares e parentes de presos entram em conflito em frente ao presídio

    AFP
    Foto: AFP

  3. Soldados armados formam barreira para enfrentar familiares de detentos

    AFP
    Foto: AFP

  4. Soldados correm de pedras lançadas por parentes de vítimas

    Foto: AP

  5. Soldados, policiais e jornalistas se protegem durante um conflito entre familiares de detentos e forças de segurança

    Foto: AP

  6. Parentes choram enquanto esperam em frente à penitenciária

    Foto: AP

  7. Peritos retiram corpo de vítima em maca

    Foto: AP

  8. Familiares de detentos choram enquanto aguardam por notícias em frente ao presídio, em Comayagua

    Reuters
    Foto: Reuters

  9. Os corpos de detentos que morreram no incêndio são colocados lado a lado no pátio da prisão

    Reuters
    Foto: Reuters

  10. Dentro da prisão, restos mortais de vários detentos que foram carbonizados pelo incêndio, em Comayagua

    Reuters
    Foto: Reuters

  11. Policiais carregam um preso ferido após um grande incêndio atingir uma prisão na cidade hondurenha de Comayagua, localizada a 80 km da capital, Tegucigalpa. Ainda não estão claras as causas, mas suspeita-se de um curto-circuito

    EFE
    Foto: EFE

  12. Em declaração citada pela agência AFP, o diretor dos Centros Penais, Danilo Orellana, deu seu relato da tragédia. "Estamos fazendo a contagem de corpos. A situação é grave, a maioria morreu por asfixia. O fogo tomou conta de vários módulos. Não se trata de uma rebelião, as causas estão sendo investigadas", afirmou

    EFE
    Foto: EFE

  13. A hipótese do curto-circuito foi levantada por, Héctor Iván Mejía, porta-voz da Secretaria de Segurança. Ele destacou que a equipe do Ministério Público e outras autoridades estão fazendo a contagem dos mortos, feridos e foragidos

    AFP
    Foto: AFP

  14. Parentes de detentos choram e se confortam enquanto aguardam por notícias em frente à prisão

    AFP
    Foto: AFP

  15. De acordo com o Corpo de Bombeiros, o incêndio atingiu um dos dois módulos da penitenciária, espaço onde havia 500 presos. No total, a prisão abrigava 850 homens

    AFP
    Foto: AFP

  16. Ferido é retirado do presídio após o incêndio

    EFE
    Foto: EFE

  17. A chefe de Medicina Forense do Ministério Público de Honduras afirmou que a identificação das vítimas levará vários dias

    AFP
    Foto: AFP

  18. As causas do incêndio ainda não estão claras, mas suspeita-se de um curto circuito

    AFP
    Foto: AFP

  19. Bombeiros trabalham no rescaldo do incêndio que matou dezenas de detentos em Comayagua

    AFP
    Foto: AFP

  20. Imagem capturada por uma rede de TV mostra o fogo consumindo a colônia penal localizada na região de Comayagua

    Foto: Reprodução

/mundo/foto/0,,00.html