A busca de pedras preciosas nas remotas e inóspitas regiões do Afeganistão onde estão as minas de rubis, esmeraldas e safiras, nunca parou apesar das guerras e da insegurança vividas pelo país.
"Os afegãos nunca deixaram a mineração das pedras preciosas, nem durante a invasão soviética nem durante a guerra de 2001 contra os talibãs", disse à agência EFE Vincent Pardieu, gemólogo e explorador oficial do Instituto Norte-Americano de Gemologia (GIA) em Bangcoc.
Desde 2006, Pardieu passou em cinco ocasiões temporadas nas principais minas do nordeste do Afeganistão com o objetivo de estudar a extração das pedras preciosas em áreas isoladas de difícil acesso e não isentas de riscos.
"Meu trabalho não é perigoso porque sempre planejo a viagem com amigos locais, embora às vezes temos que dirigir por caminhos muito estreitos de montanha e é preciso evitar as regiões com minas ou controladas pelos talibãs", explicou o gemólogo francês.
No Afeganistão a venda de explosivos empregados com regularidade em outros países para chegar até as pedras está proibida, por isso que os aldeões utilizam para este fim restos das bombas da época da invasão soviética e fertilizantes.
"Alguns dizem que as esmeraldas de Panshir são pequenas, não é isso, mas metade é destruída e a outra metade salta em pedaços pelos fortes explosivos", disse Pardieu, quem há 10 anos leva uma vida que evoca ao personagem fictício dos filmes da série Indiana Jones .
A maioria das minas de pedras preciosas, exploradas por famílias que muitas vezes também se dedicam à agricultura para poder sobreviver, estão encravadas em rochosas montanhas às quais só é possível chegar caminhando ou montado em um burro, animal muito apreciado no Afeganistão.
"As pedras não são um recurso estratégico, por isso que ninguém construiria uma estrada para chegar até elas como estão fazendo os chineses com a finalidade de chegar às minas de cobre que há no Afeganistão", afirmou Pardieu.
Vestido com o gorro e as roupas folgadas afegãs e com grande barba, o francês chegou até as minas de esmeraldas no vale do Panshir, de rubis em Jegdalek e nas recentemente descobertas minas de safiras azuis nas milenárias explorações do vale de Kokcha.
Esta profissão de procurador e especialista em pedras lhe levou até as mais variadas situações de minas em países como Tailândia, Camboja, Vietnã, Paquistão, Tadjiquistão, Sri Lanka, África do Sul, Quênia, Tanzânia, Moçambique e Madagascar.
Seu trabalho consiste em explorar e catalogar as minas para que os especialistas dos laboratórios do GIA possam certificar a origem das pedras e certificar sua procedência.
Não há números oficiais, mas o gemólogo calcula que há cerca de 3 mil pessoas dedicadas à exploração artesanal das minas de pedras preciosas afegãs, uma atividade que lhes permite melhorar a renda obtida com a agricultura e o pastoreio.
"Com o maior rubi, talvez de 200 quilates, podem ganhar cerca de US$ 100 mil, com os quais podem comprar um trator, embora isto só aconteça com um ou dois mineradores", diz o especialista.
Os mais fiéis clientes dos mineradores afegãos são os soldados das bases americanas, onde são organizados bazares com assiduidade, embora a maior parte das pedras seja polida e vendida no Paquistão, nos países da Europa e nos Estados Unidos.
Os primeiros dados sobre a presença nesta região remontam há 6 mil anos, mas a mineração local de pedras preciosas se consolidou quando se transformou em passagem da rota da seda, por volta do ano 1300 d.C.
Esta agreste região ficou isolada pelo fato de que a rota comercial terrestre foi trocada pela marítima, - mais rápida e segura - e voltou a ressurgir no século XIX quando russos e britânicos redescobriram muitas das minas de pedras e se enfrentaram para poder explorá-las.
Durante o século passado e o atual a produção e exportação de pedras preciosas afegãs continuaram apesar dos contínuos conflitos bélicos.
A guerrilha do senhor da guerra Ahmed Shah Massoud, assassinado dias antes dos atentados de 2001 contra os Estados Unidos, conseguiu financiamento com a exploração de uma das minas de esmeraldas localizadas no vale de Panshir.
"Os mineradores de pedras são comerciantes há milhares de anos, não são muçulmanos radicais e dão as boas-vindas aos estrangeiros, embora também saibam ser guerreiros quando sofrem invasões e não acho que ficam muito contentes com bombardeios da Otan", disse Pardieu.

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