Notícias » Mundo » Ásia » Ásia

 Kim Jong-il deixa fome, repressão e temor nuclear como legados
28 de dezembro de 2011 14h41 atualizado às 15h00

Norte-coreanos choram a perda de Kim Jong-il durante o funeral do líder nesta quarta-feira. Foto: AP

Norte-coreanos choram a perda de Kim Jong-il durante o funeral do líder nesta quarta-feira
Foto: AP

O adjetivo "nuclear" ocupa um lugar fundamental no legado que o ditador Kim Jong-il - que morreu no último dia 17 e cujo funeral foi realizado nesta quarta-feira - deixou para seu empobrecido país.

O programa atômico norte-coreano foi iniciado nos anos 60 com apoio de Rússia e China durante o governo do pai de Kim Jong-il e fundador da Coreia do Norte, Kim Il-sung (1912-1994).

Os Estados Unidos criticaram progressivamente o projeto até o ponto de a tensão alcançar níveis muito altos na península nos anos 90, depois que Pyongyang rejeitou, em 1993, a presença de inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e abandonou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP).

Kim Jong-il assumiu o poder em um momento crítico, em 1994, pouco depois de seu recém falecido pai ter aceitado se reunir com o então chefe de Estado sul-coreano, Kim Young-sam, para diminuir a crescente tensão entre os dois países.

Logo após o falecimento de seu pai, o novo líder deu a impressão de que tomaria medidas para atenuar a crise, já que em outubro de 1994 Coreia do Norte e EUA assinaram um acordo em Genebra que estipulava que Washington e seus aliados forneceriam a Pyongyang reatores nucleares civis em troca da suspensão de seu programa atômico.

No entanto, o passar dos anos revelou que o país, sob comando do novo Kim, sempre conservou a intenção de usar a "carta nuclear" a seu favor como elemento dissuasório. Tal postura ficou clara com uma nova expulsão, em 2002, dos inspetores da AIEA, no teste nuclear realizado em outubro de 2006 e em inúmeros lançamentos de mísseis que fizeram com que a ONU impusesse severas sanções à nação comunista.

Por isso o regime decidiu abandonar, em 2007, a mesa de negociação de seis lados - da qual participam as duas Coreias, além de Rússia, China, EUA e Japão - para a desnuclearização de Pyongyang. As conversas não foram retomadas desde então.

No plano alimentício, Kim Jong-il herdou também as crises de fome crônicas que começaram a golpear o país no fim da era de seu pai no poder. No entanto, Kim Il-sung tinha conseguido pôr em prática um plano de coletivização no campo e uma industrialização em grande escala que, nos primeiros anos de seu mandato, transformaram a Coreia do Norte em um Estado mais próspero que seu vizinho capitalista do sul.

Kim Jong-il, por outro lado, será recordado apenas por consolidar a péssima política agrária que seu pai implementou, a qual desflorestou a Coreia do Norte e destroçou o solo pelo mal uso de adubos. Isto, somado às periódicas chuvas torrenciais que ocorrem no no verão local, contribuiu para afundar o sustento agrícola do país.

A política de "o exército primeiro" impulsionada por Kim Jong-il, que dá prioridade política e orçamentária às Forças Armadas dentro do Estado, tirou ainda mais recursos dos trabalhadores rurais na grande crise de fome dos anos 90, na qual se estima que até 2 milhões de norte-coreanos teriam morrido.

O desmesurado apoio ao exército, no entanto, demorou para render frutos ao líder, já que ao contrário de seu pai, guerrilheiro que combateu os japoneses quando estes dominavam a península, Kim não tinha formação militar.

Por aparentemente ter tido menos prestígio que seu pai perante as Forças Armadas e inclusive, segundo alguns analistas, em relação aos civis, acredita-se que quis exercer um controle ainda mais severo sobre a população.

É difícil estimar o alcance da repressão de Kim Jong-il devido ao isolamento do regime, embora organizações humanitárias tenham informado que fuzilamentos, penas sem julgamento ou a entrada de milhares de dissidentes em campos de prisioneiros tenham continuado sob seu mandato.

Kim Jong-il também será lembrado por fazer com que a Coreia do Norte continue a ser o país mais isolado do mundo em plena era da comunicação.

O país teoricamente inaugurou serviços de internet em 2004 e de telefonia celular no final da década passada, embora seu uso tenha ficado restrito às elites e o controle governamental não permita privacidade alguma.

"O povo não tem acesso aos computadores. No hotel, quando alguém quer enviar uma mensagem pela internet, é preciso escrevê-la em um papel e entregá-la aos responsáveis, que o enviam de uma conta. Se houver resposta, eles a anotam e a levam ao destinatário novamente no papel", afirmou à agência EFE um cidadão espanhol que visitou a Coreia do Norte em 2009.

Enquanto o ditador fez com que 24 milhões de norte-coreanos continuassem fora da realidade do mundo exterior, durante seu mandato Pyongyang obteve aproximações históricas que acabaram com décadas de isolamento diplomático do país, que perdeu boa parte de seus aliados comunistas nos anos 90.

Isto conduziu à histórica cúpula intercoreana protagonizada em junho de 2000 por Kim Jong-il e o então presidente sul-coreano, Kim Dae-jung, na capital sul-coreana.

Em 2001, a chegada ao poder de George W. Bush, que incluiu a Coreia do Norte em seu "eixo do mal", representou um passo atrás e serviu para o regime justificar uma política externa imprevisível e caprichosa, tal como a personalidade que muitos analistas atribuem a Kim.

Biógrafos do líder norte-coreano utilizavam adjetivos como "inseguro", "tímido" e "irascível" e citavam seu medo de voar (ele se acostumou a viajar a Rússia e China em seu trem particular) como fatores que não contribuíram para melhorar a diplomacia do país asiático.

EFE
EFE - Agência EFE - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da Agência EFE S/A.
  1. Norte-coreanos respeitam três minutos de silêncio em homenagem ao antigo líder do país Kim Jong-il, em Pyongyang, nesta quinta-feira. A Coreia do Norte declarou Kim Jong-un, o filho mais novo de Kim Jong-il, o sucessor e supremo líder do partido, das forças armadas e do povo durante a cerimônia em homenagem ao seu pai

    Foto: AP

  2. Civis norte-coreanos fazem reverência ao observarem os três minutos de silêncio que encerraram o período de luto pela morte de Kim Jong-il

    Foto: AP

  3. Milhares de pessoas se reúnem na Praça Kim Il-sung para a homenagem a Kim Jong-il. O corpo do "querido líder" ficará exposto no palácio de Kumsusan, onde também está seu pai, Kim Il-sung, que governou o país desde sua fundação, em 1948, até sua morte, em 1994.

    Foto: AP

  4. Multidão acompanha o cerimonial que encerrou o luto pela morte de Kim Jong-il. Ele morreu no dia 17 de dezembro, mas sua morte só foi divulgada no dia 19

    Foto: AP

  5. A morte de Kim Jong-il provocou uma grande comoção na Coreia do Norte e levou milhares de pessoas às ruas da cidade em diversas homenagens realizadas desde o dia 19, quando o óbito foi anunciado pela mídia estatal

    Foto: AP

  6. Pessoas observam o minuto de silêncio em rua de Pyongyang

    Foto: AP



  7. Foto: Terra

  8. Imagem de televisão exibe norte-coreanos emocionados durante despedida de Kim Jong-il

    Foto: AP

  9. Imagem da televisão estatal exibe Kim Jong-un, o filho mais novo de Kim Jong-il e o seu sucessor, durante o funeral

    Foto: AP

  10. Militares disparam salva de tiros durante o funeral

    Foto: AP

  11. Imagem de televisão exibe militares norte-coreanos durante o funeral

    AFP
    Foto: AFP

  12. Caixão levando o corpo de Kim Jong-il durante cortejo fúnebre em Pyongyang é exibido pela televisão estatal

    AFP
    Foto: AFP

  13. Comboio de carros conduz o veículo que leva o caixão do líder norte-coreano

    Reuters
    Foto: Reuters

  14. Militares de uniforme mantêm formação em frente ao Palácio Memorial de Kumsusan durante o funeral de Kim Jong-il

    Reuters
    Foto: Reuters

  15. Kim Jong-un (terceiro à esquerda) saúda o caixão de seu pai ao lado de militares

    Foto: AP

  16. Militares reagem durante o funeral de Kim Jong-il

    AFP
    Foto: AFP

  17. Imagem de televisão exibe multidão acompanhando o funeral de Kim Jong-il do lado de fora do Palácio Memorial de Kumsusan

    Reuters
    Foto: Reuters

  18. Homens e mulheres vão ao desespero com a passagem do carro fúnebre

    Reuters
    Foto: Reuters

  19. Cenas de histeria de militares e civis marcaram o funeral de Kim Jong-il

    Foto: AP

  20. Milhares de militares enfrentaram o frio para acompanhar o funeral

    Reuters
    Foto: Reuters

  21. Centenas de militares e cidadãos norte-coreanos compareceram nesta quarta-feira ao funeral do ex-líder do país, Kim Jong-il, realizado no Palácio de Kumsusan

    Foto: AP

  22. Frame da TV estatal mostra o filho ao lado do carro levando o corpo do pai

    Foto: AP

  23. Carro carrega grande retrato do grande líder

    Foto: AP

  24. Centenas de militares compareceram ao funeral de Kim Jong-il

    Foto: AP

  25. Kim Jong-un toma a frente do cortejo do pai

    Foto: AP

/mundo/foto/0,,00.html