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 Dejetos e rotina de estupros são parte do cotidiano de haitianos
19 de janeiro de 2011 10h16 atualizado em 20 de janeiro de 2011 às 14h01

Para se locomover pelas ruas de Porto Príncipe, haitianos utilizam veículos coloridos apelidados de tap-tap. Foto: Laryssa Borges/Terra

Para se locomover pelas ruas de Porto Príncipe, haitianos utilizam veículos coloridos apelidados de "tap-tap"
Foto: Laryssa Borges/Terra

Laryssa Borges
Direto de Porto Príncipe

Ao desembarcar no pequeno país de pouco mais de 9 milhões de pessoas, o sinal das companhias de telefônicas com os dizeres "bem-vindo ao Caribe" não retrata em nada o cenário de devastação que tomou conta da pequena ilha do Haiti um ano depois do terremoto que a assolou em 12 de janeiro de 2010.

No aeroporto internacional Toussaint L'Ouverture, os escombros ainda mancham a paisagem empoeirada. Mais de 20 milhões de metros cúbicos de restos de construção - volume suficiente para encher 8 mil piscinas olímpicas - disputam espaços com dejetos, porcos e uma população maltrapilha de 1,5 milhão de desabrigados e desalojados.

Um ano depois da pior tragédia natural registrada pelas Nações Unidas desde sua fundação, em 1945 - e que matou cerca de 230 mil haitianos e estrangeiros - o Haiti permanece sob instabilidade política, sem nenhum tipo de instituição sólida e refém de ações humanitárias de organizações não-governamentais, doações sem regularidade e de soldados de uma entidade - a Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah) - criada em 2004 para lhe tentar colocar rédeas.

A segurança local depende primordialmente dos militares estrangeiros da Minustah - 8,5 mil deles trabalham para manter a "paz, estabilidade e segurança" da população e treinam a pequena e instável Polícia Nacional do Haiti (PNH). Foi este contingente de policiais haitianos que, se não dizimados pelo terremoto de 2010, ajudaram a incitar a população de Cité Soleil, maior favela da região, a fazer justiça com as próprias mãos e garantir que os donativos recebidos da comunidade internacional não fossem roubados uns dos outros.

Os estupros são recorrentes nos acampamentos de desabrigados. Mais de uma família divide o mesmo barraco de lona de acampamento, homens e mulheres de todas as idades se banham juntos nas ruelas de pedregulho. Vítimas dos abusos, as mulheres são inibidas de procurar socorro da polícia local, que pode ser a próxima algoz de sua intimidade.

Subnutridos e com o menor Índice de Desenvolvimento Humano das Américas, os haitianos ora recebem doações nos campos de sem-teto ora recorrem à cozinha do inferno - apelido dado ao mercado municipal Les Salines - como sua principal fonte de alimentação. No mesmo ambiente disputam espaço porcos, cabras, crianças carentes e um sem-número de vísceras frescas que formarão, assim que abatidos os animais para a refeição, fogueiras mal-cheirosas por todo o ambiente.

Para chegar ao Les Salines ou conseguir uma doação das centenas de ONGs que atuam em Porto Príncipe, os haitianos recorrem aos "tap-tap", veículos com carrocerias coloridas improvisadas que transportam dezenas de passageiros em baixas condições de segurança e lotação acima de qualquer limite imaginável. As raríssimas placas de trânsito são ignoradas solenemente por toda a população, que recorre, via de regra, ao buzinaço como linguagem universal para consolidar o princípio básico do ir e vir.

Desde o início da missão dos militares da Minustah, o Haiti já passou por ameaças de revolução, embates entre soldados e gangues resultantes de milícias e, nos últimos tempos, não tem deputados com mandatos ou um quadro de senadores completo. Ainda que com avanços modestos, registro civil, registro de terra, direito à propriedade ou marco regulatório para negócios são metas em um horizonte um tanto obscuro para a população que foi a primeira a declarar o fim da escravidão de negros, em 1804, mas que até hoje parece imersa em um filme de terror.

Redação Terra
  1. Para se locomover, haitianos utilizam os "tap-tap", veículos que transportam dezenas de passageiros em baixas condições de segurança e lotação acima de qualquer limite imaginável

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  2. Moradores improvisam bancas e vendem produtos ilegalmente nas ruas de Porto Príncipe, onde se formou uma rede de comércio informal

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  3. Lixo se acumula nas ruas da capital haitiana, onde os sinais dos escombros deixados pelo terremoto ainda são visíveis

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  4. Em Cité Soleil, a maior favela da região, moradores vivem em meio ao lixo e à destruição provocada pelo terremoto de janeiro de 2010

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  5. Em acampamento de desabrigados em Porto Príncipe, mais de uma família moram na mesma barraca e mulheres sofrem estupros constantemente

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  6. No acampamento de Jean Marie Vincent, homens, mulheres e crianças tomam banho juntos e de forma improvisada, ao ar livre

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  7. Os escombros de construções destruídas ou danificadas pelo terremoto continuam acumulados pelas ruas de Porto Príncipe um ano depois

    Foto: Laryssa Borges/Terra

  8. Um ano depois da pior tragédia natural registrada pela ONU desde 1945, o Haiti segue sob instabilidade política, refém de ações humanitárias

    Foto: Laryssa Borges/Terra

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