O sequestrador podia ter sido "detido se a questão tivesse sido levada a sério, é algo que fiquei sabendo só depois do fim do meu sequestro", relata a jovem, hoje com 22 anos, em seu livro "3096 Tage" (3.096 dias), tempo que durou seu sequestro.
Natascha Kampusch conta no livro os primeiros dias no esconderijo de 5 metros quadrados embaixo da casa de Strasshof, próximo a Viena, onde seu secuestrador, Wolfgang Priklopil, a manteve presa depois de tê-la sequestrado quando ia para a escola.
Naquela época, quando tinha 10 anos e era uma grande fã das séries policiais, Natascha imaginava a polícia tentando salvá-la, buscando rastros de DNA em seus vestidos.
"Mas na superfície a realidade era bem diferente: a polícia não fez nada disso", acusa ela na obra publicada na quarta-feira na Áustria.
Havia agentes da polícia que, alguns dias depois de seu desaparecimento, foram à casa de Priklopil, revistaram sua residência e seu veículo, o mesmo utilizado em seu sequestro.
Priklopil não tinha álibi para esse dia, mas a polícia não investigou esta pista.
Quando conseguiu fugir, Natascha não teve um tratamento melhor: se refugiou no jardim de uma vizinha, a quem pediu que chamasse a polícia. Lá viu chegar duas viaturas e um dos policiais ordenou que não se mexesse e que colocasse as mãos para cima.
"Mãos para cima, como uma criminosa, expliquei a ele quem era eu", relatou, antes de acrescentar: "não era assim que imaginava meus primeiros momentos de liberdade".
Enquanto contava para os policiais como tinha sido seus oito anos de calvário e sua fuga, ela sentiu alguma desconfiança pelo fato de ter fugido sozinha. Os policiais "não eram nesse caso os salvadores, e sim aqueles que haviam fracassado durante anos" em libertá-la.
Natascha Kampusch disse que chorou quando soube que Priklopil tinha se suicidado se jogando na frente de um trem, no mesmo dia de sua fuga.
"Com minha fuga, não só me libertei de meu sequestrador, como também perdi uma pessoa de quem, à força, tinha ficado muito próxima", escreveu em sua autobiografia.
Esta postura alimentou as especulações, levando a crer que teria desenvolvido uma simpatia por seu sequestrador e que protegeria seus cúmplices.
A jovem denunciou essa teoria: "Parecia que para as autoridades era mais fácil acreditar que houve uma conspiração em torno deste crime do que admitir que fracassaram em localizar o criminoso que durante esse tempo todo agiu sozinho e manteve sua aparência inofensiva".
Kampusch em momento algum se mostra complacente com o sequestrador, a quem classifica de "paranóico", relatando detalhadamente a violência física que sofreu.
"Com data de 23 de agosto de 2005: pelo menos 60 socos na cara, com o punho na cabeça até provocar náuseas. Setenta joelhadas no cóccix..." e as privações: "Era apenas pele e osso... e manchas em meu corpo, como as dos cadáveres".
Ela também fala de suas tentativas de suicídio, mas em nenhum momento os abusos sexuais dos quais foi vítima, explicando simplesmente: "Quero manter para mim um último recanto de minha vida privada."
A jovem estudante de idiomas, que concluiu o ensino médio no ano passado, leu o seu livro nesta quinta-feira à noite em uma livraria de Viena, como parte da campanha de promoção de sua editora.
sgl/dm

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