Foto de família mostra Jean Arsene e Rose Constant antes dele morrer no terremoto que atingiu o Haiti
Foto: The New York Times
- Anne Barnard
- Do New York Times
O casal tentou evitar que a tensão se infiltrasse em seus dias finais de convívio. No dia 4 de janeiro, ele deixaria a casa da família, em Queens, e partiria para o Haiti, onde estava trabalhando para reduzir as mortes causadas por desastres naturais - não apenas os furacões que os haitianos esperam a cada ano mas também uma ameaça que via como muito mais grave, se bem que menos conhecida: os terremotos. Ela implorou ao marido que não fosse.
Rose Carline e Jean Arsene Constant eram parceiros no mais completo sentido. Estudaram agronomia juntos nos anos 90. Escolheram uma missão comum: salvar o Haiti da pobreza e da degradação ambiental. Jovens e enérgicos, eles atravessaram seu país natal de uma ponta à outra, criando elos entre o trabalho dos agricultores e o dos geofísicos e políticos; mais tarde, tiveram um filho a quem amavam. Seus planos pareciam fluir naturalmente, como a água escorrendo por uma encosta.
Mas quando seu segundo filho nasceu, o menino tinha uma deficiência cardíaca e precisava de tratamento médico sofisticado, subitamente, Rose Constant se viu em Nova York, vivendo como imigrante. Deixou de lado sua profissão, sofreu para aprender inglês e encontrou emprego em tempo parcial como enfermeira assistente. Encontrou um refúgio no Queens, na igreja católica de São Joaquim e Santana, um dos núcleos da comunidade haitiana na região.
Jean Constant continuou seu trabalho no Haiti - o pagamento era bom e ao menos um deles podia continuar servindo o país. Ele visitava a família no Queens diversas vezes por ano, mas a separação era sempre dolorosa.
Na sua visita mais recente, Jean Constant havia enfim concordado em se mudar para Nova York - mas apenas depois de concluir seu projeto final. As ideias dele enfim seriam implementadas: o ex-presidente americano Bill Clinton, enviado especial das Nações Unidas ao Haiti, visitaria o país e planejava alertar as autoridades de que o próximo desastre talvez viesse a ser mais grave que um furacão. Era a melhor chance para que Jean Constant convencesse o país quanto ao risco de terremotos.
"O Haiti precisa de mim", disse.
O cabo de guerra entre país e família era como que uma falha geológica no casamento de Jean e Rose. E em 12 de janeiro, a falha resultou em catástrofe.
O terremoto matou Jean Constant e destruiu sua família, bem como muita coisa mais no Haiti. Em certo sentido, a perda que eles sofreram é apenas um pontinho isolado em meio aos mais de 200 mil mortos, mas se repete em variações caleidoscópicas entre as muitas famílias cujas vidas se dividem entre o Haiti e os Estados Unidos.
"Em casa", o preço pode ser avaliado com base nos especialistas perdidos. O terremoto levou muitos dos escassos profissionais técnicos do Haiti, e eles são as pessoas de que o país mais precisaria para se recuperar. Em uma casa em Hollis, Queens, na qual as venezianas passam o dia todo fechadas, o cálculo é muito mais simples: uma esposa destruída emocionalmente, e dois menininhos em choque.
Uma conexão
Porque seu filho Chris não conseguiria sobreviver no Haiti, Rose Constant, 37 anos, seguiu a prima do marido, Ginnette Bonhomme, no Queens. Elas assistiam a missas em creole. Revezavam-se para buscar Michael, 7 anos, o outro filho de Rose, na escola da igreja, que tem 80% de estudantes haitianos. E a falange de especialistas que tratam Chris, 5 anos, já estava se tornando parte da família. Mas Rose Constant nunca se sentiu confortável longe do marido e do Haiti.
Jean Arsene Constant e Rose Carline Jean cresceram no sul do Haiti. A mãe dela era costureira e seu pai professor. A família de Jean era dona de um moinho de mandioca.
Os dois se conheceram na Universidade Estatal do Haiti. Philippe Mathieu, seu orientador, lembra de ter acompanhado "o amor que crescia" entre os dois estudantes dedicados e competentes. Foi o padrinho de seu casamento, em 1998, e posteriormente, como ministro da Agricultura, apontou Jean Constant como seu chefe de gabinete.
Às vezes, o casal trabalhava em aldeias rurais, conectadas por estradas tortuosas e precárias. Jean costumava viajar por horas para surpreender a mulher com uma visita.
Ainda que ambos tivessem de conviver com o lado feio da vida no Haiti - erosão e desflorestamento -, eram capazes de mostrar a outros as belezas do país, diz Edith Bourget, canadense cujo marido trabalhava com Jean Constant na restauração de uma coleção de plantas haitianas raras.
A conexão entre Jean e Rose era palpável, diz. Pareciam "grudados". Mas enquanto Rose aprendia a se acomodar em Nova York, seu marido foi convidado para o emprego de seus sonhos no Haiti.
O Fundo de Desenvolvimento Europeu o contratou para dirigir um projeto que tornaria o Haiti menos vulnerável a desastres. Ele disse à mulher que estava "no lugar certo".
Constant e colegas treinavam agricultores para responder a emergências. Alertavam sobre terremotos, apesar da escassez de verbas.
Pressionavam o governo haitiano e os doadores internacionais a tratar os desastres como mais que emergências de curto prazo. Queriam que cada projeto de assistência levasse em conta um melhor planejamento do uso da terra e das construções, a fim de fazer com que os desastres tivessem consequências menos leais.
"Eram um grupo pequeno de pessoas que lutavam por essa causa no país e, entre eles, Jean Arsene se destacava", disse John Harding, da ONU, o assessor de Clinton quanto aos riscos de desastres no Haiti.
Jean Constant lecionava em três universidades e ajudava a pagar as mensalidades de diversos de seus alunos. Os colegas o descreviam assim: "excelente na síntese", "coração generoso, convicções fortes", "confiável".
Nos cafés, depois do trabalho, eles cantavam canções francesas e haitianas e conversavam longamente sobre seus projetos. Jean Constant sempre falava com muito afeto sobre sua família.
Ele voltava de seus "turnos como babá" no Queens, relembram os colegas, sempre com "um sorriso de alegria que iluminava seu rosto".
A algumas das pessoas mais chegadas, ele confessava que sentia dores de consciência devido ao fardo que sua mulher suportava.
Jean Constant ligava todos os dias para a família em Nova York. O alegre e brincalhão Chris está muito melhor de saúde, e seu sonho é ser presidente, "como Obama". Michael, um menino que leva a escola muito a sério, se interessa por fotografia. Os professores da escola da igreja recordam bem a última visita de Jean Constant: o orgulho paterno em seus olhos, o sorriso caloroso que exibia.
Mas a mulher dele havia passado a questionar a missão que um dia os dois haviam compartilhado. Antes que seu marido voltasse ao Haiti, ela sonhou que ele estava preso no interior de um tornado, girando sem controle e sendo arrastado para longe.
Rose propôs um acordo: "Mude-se para cá e eu arranjo um segundo emprego. Você pode estudar agronomia aqui". Jean Constant aceitou a proposta e disse que se mudaria para os Estados Unidos depois da visita de Clinton, planejada para fevereiro.
"Ele acreditava que o Haiti pode ser outro Haiti, se nós assim desejarmos", disse Rose dias depois do terremoto. "Acreditava que seria possível mudar".
A expressão em seu rosto se enrijece.
"Ele morreu pela missão em que acreditava", diz.
Depois do terremoto
Em 12 de janeiro, Jean Constant, 39 anos, estava no edifício da União Europeia em Porto Príncipe, em uma reunião com outros especialistas sobre planejamento para desastres. Às 16h53min, o edifício desabou sobre eles.
Uma versão dos acontecimentos diz que eles ainda estavam conversando e a maioria dos presentes morreu. Outra, que Jean Constant havia permanecido no local depois do final da reunião para resolver alguns problemas.
No Queens, Rose começou a chorar assim que viu as imagens do desastre na rede de notícias CNN.
No dia seguinte, Jacquelaine, o filho adulto que Jean Constant teve em um relacionamento prévio, recebeu uma mensagem de texto do pai, sem nada escrito. Mas a esperança se provou vã - um atraso no envio, ou um apelo às portas da morte. O corpo de Jean Constant foi recuperado um dia mais tarde e transportado a Camp-Perrin, a cidade natal dele. O motorista de Jean Constant havia esperado durante dias ao lado dos escombros, a fim de propiciar ao chefe um dom raro no Haiti dos últimos meses: um funeral digno.
Em Nova York, Jeanine Thomas, madrinha de Jean Constant, estava ajoelhada no altar da igreja, com os braços abertos em forma de cruz. Ela inscreveu o nome do afilhado na lista de desaparecidos compilada pela paróquia. O pároco, padre Robert Robinson, disse a Rose Constant que seu marido havia morrido pelo Haiti. Ele tinha por intenção reconfortá-la, e ela em parte compreendeu. Na escola, os professores cercaram Michael de carinhos.
Mas, em casa, no Queens, o mundo da família havia desabado. Michael ficava no sofá, contemplando as gotas de chuva por entre as lâminas da veneziana fechada. O rosto de sua mãe estava inchado de choro, o olhar distante. Bonhomme, a prima de Jean Constant, disse a ela que Deus a ajudaria a enfrentar a calamidade.
"Foi Deus que começou", disse Rose. "Melhor que ele acabe".
A conclusão de Rose foi a de que Deus havia causado a doença de Chris para salvar a família. De outra forma, todos teriam morrido no Haiti. Rose Constant poderia perfeitamente estar na mesma reunião em que o marido. O casamento deles, de qualquer forma, era "bom demais para ser verdade".
Pesar e raiva
Rose voou ao Haiti para o funeral do marido. Ladrões haviam invadido a casa da família, levando roupas e sapatos. Ela recuperou fotos de suas molduras destruídas e extratos que mostravam um saldo de US$ 9 mil em um banco que não se reabrirá. Não havia seguro, ela foi informada, porque seu marido era consultor e não funcionário.
De volta ao Queens, a vida continua. Chris está comendo tão bem que os médicos pretendem em breve remover a sonda de alimentação. E ele quer trocar as aulas piano por aulas de bateria.
Rose tem problemas mais sérios: o aluguel de US$ 1,4 mil ao mês. Um assistente social disse que ela só poderia receber ajuda para isso se dispensasse o carro, deixasse o emprego em Long Island e primeiro se mudasse para um abrigo. Ela ficou chocada.
E há também o pesar.
Michael disse à mãe que "agora que papai morreu, preciso dormir com você todo dia". Ele escreveu uma carta ao pai.
Um conselheiro sugeriu atar mensagens a um balão e deixá-lo voar, mas Rose Constant não está pronta para isso. As mensagens que tinha em mente não são amistosas.
"Continuo furiosa", disse. "Tenho de rezar quanto a isso".
O dia 20 de abril trouxe um alívio: o aniversário de Chris. "Jamais imaginamos que ele completaria cinco anos", disse Rose, a caminho da padaria onde comprou para o menino um bolo do Bob Esponja.
No Haiti, o chefe de Jean Constant enfrenta problemas para substitui-lo. O terremoto matou muitos dos profissionais qualificados e convenceu outros deles a deixar o país.
Eric Calais, geofísico que trabalhava com Jean para instalar sismógrafos em todo o Haiti mas desistiu do projeto por falta de grupos estrangeiros interessados no contrato, diz que agora "eles estão nos procurando como abelhas em busca do mel".
Harding espera que o terremoto convença as pessoas a ver o planejamento para desastres do modo como Jean Constant fazia: como uma "responsabilidade moral".
Em Nova York, Rose tenta se recuperar, para o bem dos filhos. Chris mostra sua raiva na escola e a mãe se preocupa sobre como poderá matriculá-lo no jardim de infância se não tiver dinheiro para as mensalidades. No aniversário de Michael, em maio, ela estava desanimada demais para fazer uma festa. Foi o filho que cuidou dela - comprou chocolate para Rose como presente de dia das mães e lhe fez uma coroa.
"Eu ainda estou atordoada", diz Rose.
Como o Haiti, seu desejo é reconstruir, mas não sabe onde começar.

- The New York Times






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