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 "Fator Katyn" amplifica tragédia e deixa Polônia estarrecida
18 de abril de 2010 08h07 atualizado em 28 de abril de 2010 às 08h56

Poloneses fazem fila para dar adeus a Lech Kaczynski. Foto: AP

Poloneses fazem fila para dar adeus a Lech Kaczynski
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Moreno Osório

"Em abril de 1940, mais de 21 mil prisioneiros de guerra poloneses foram mortos. Este crime contra a humanidade foi cometido pela vontade de Stalin e sob as ordens das maiores autoridades da União Soviética". Este é o trecho inicial do discurso que o presidente polonês Lech Kaczynski faria, em pleno solo russo, em homenagem às vítimas de uma das maiores tragédias da história da Polônia, o massacre de Katyn. Seria um fato sem precedentes. Mais um passo seria dado em direção a uma inédita justiça histórica: o reconhecimento do horror cometido pela polícia secreta soviética como um genocídio, e não como um "crime político", como já chegou a dizer o premiê russo, Vladimir Putin.

O acidente aéreo que tirou a vida de Kaczynski (e de outras 95 pessoas, entre elas a primeira-dama, Maria Kaczynski) chocou o mundo. De uma hora para outra, a Polônia perdeu seu maior líder, além de políticos e militares importantes. O sentimento de solidariedade foi imediato. Mas, para os poloneses, há ainda o "fator Katyn". No último sábado, o país viu algumas de suas principais lideranças morrerem no mesmo lugar onde, há 70 anos, outra geração de líderes e intelectuais foi covardemente assassinada com tiro na nuca e teve seus corpos jogados em valas comuns.

A infeliz coincidência deixou o país inteiro atônito, paralisado. "Nosso mundo desabou pela segunda vez no mesmo lugar", disse ontem, durante o velório de Kaczynski, o presidente em exercício, Bronislaw Komorowski. "Por quê?", deve estar se perguntando ele. O mesmo questionamento deve passar pela cabeça dos 38 milhões de poloneses. Como curar uma dor surgida em cima de uma ferida que ainda segue aberta após sete décadas?

Os russos ainda não reconheceram o crime cometido em Katyn como um massacre. Primeiro, o regime soviético atribuiu as mortes aos nazistas. Depois da queda do comunismo, Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin abriram os arquivos do caso e a Rússia assumiu a responsabilidade. Mas ainda há um impasse sobre a "descrição legal do crime". Putin, ao assumir o poder, endureceu novamente a posição de Moscou e, em 2008, jornais russos chegaram a atribuir o crime mais uma vez à Alemanha de Hitler.

Essa postura começou a mudar recentemente. Em fevereiro deste ano, Putin convidou o premiê polonês, Donald Tusk, para uma cerimônia no memorial da floresta de Katyn, na Rússia. Foi a primeira vez que uma autoridade russa participou de um ato ligado ao massacre. No final de semana passado, Putin receberia Kaczynski.

Mas houve o acidente.

"Por quê?", pergunta-se o povo polonês. Magdalena Marczynska, 30 anos, cidadã polonesa que perdeu seu bisavô na Segunda Guerra Mundial, acredita que é muito difícil de o mundo entender o sofrimento pelo qual está passando o país. "É mais terrível ainda pelo motivo da viagem. Todos estavam indo a Katyn, e isso significa muito! Muitos de nós perderam parentes na Segunda Guerra Mundial. A bordo estavam políticos famosos, chefes das Forças Armadas, representantes das 'famílias de Katyn', que perderam seus pais no massacre e agora... morreram no mesmo lugar. Um jornalista escreveu 'maldita Katyn'", diz Magdalena, dando uma ideia do tamanho do sofrimento do povo polonês. "Lembre-se: não estamos lamentando apenas a morte do presidente e sua mulher".

Wojciech Seweryn, 70 anos, era um artista que vivia em Chicago. Seu pai, um soldado da infantaria, morreu em Katyn quando seu filho tinha poucos meses de idade. Em 1976, Seweryn migrou para os Estados Unidos, onde se tornou um proeminente membro da comunidade polonesa local. Leszek Solski, 75 anos, um engenheiro civil aposentado que perdeu seu pai e um tio em Katyn, passou a vida inteira buscando documentos sobre o massacre.

Ewa Bakowska, 48 anos, curadora da biblioteca da Universidade Jagiellonian, em Cracóvia, era a neta de Mieczysław Smorawinski, um dos dois generais poloneses identificados entre as vítimas. O padre Canon Bronisław Gostomski, 61 anos, saiu de sua casa em Londres para representar as famílias dos mortos. Em sua igreja há uma estátua da Virgem Maria esculpida secretamente por um prisioneiro de um campo de concentração soviético de Katyn. Todos estavam a bordo do Tupolev presidencial que caiu na região de Smolensk há uma semana.

Os nomes acima são alguns exemplos que ajudam a explicar o tamanho da tragédia para os poloneses. É também para essas pessoas que são endereçadas as preces da população. "Essa pessoas eram conhecidas", diz Magdalena. Moradora de Gdynia, cidade vizinha a Gdansk, local da invasão nazista que deu início à Segunda Guerra, em 1° de setembro de 1939, ela colocou uma bandeira da Polônia com uma fita preta em frente à sua casa assim que soube da tragédia. O mesmo fizeram seus vizinhos. "Muitos se dirigiram às praças da cidade levando rosas brancas e vermelhas, as cores da nação. Outros foram às igrejas para rezar por Kaczynski", conta ela.

O relato de Magdalena é exatamente o que se viu nas fotos registradas pelas agências internacionais e publicadas em jornais e sites do mundo inteiro. Milhares de poloneses fizeram uma vigília pelos mortos no acidente durante toda a semana. Flores e velas formaram um iluminado tapete vermelho e branco em frente ao Palácio Presidencial, em Varsóvia. O mesmo aconteceu nas fachadas das embaixadas polonesas ao redor do mundo.

Quando os caixões com os corpos do presidente e da primeira-dama chegaram ao país, centenas de milhares fizeram filas intermináveis para prestar o último tributo ao líder morto. Não importava se haviam votado nele ou não. Muitos saíram de suas cidades e foram até a capital para se despedir de Kaczynski. Era comum ver pessoas chorando. "Estou profundamente tocada. Não consigo achar as palavras exatas, e nem é tempo de falar. É hora de prestar tributo e refletir. Eu chorei", diz Magdalena.

O choro de Magdalena é o choro da Polônia. É a tristeza de ver seus líderes sucumbirem mais uma vez no mesmo lugar. Mas Magdalena também acredita que o destino polonês "é bom, exatamente como devia ser". "Nós temos uma história grande, trágica em alguns momentos, mas grande", diz a moradora de Gdynia cuja família sofreu os horrores da guerra.

As palavras otimistas de uma polonesa em meio ao luto que cobre o país precedem uma nova oportunidade de diálogo para os governos de Varsóvia e Moscou para esclarecer de uma vez por todas o que aconteceu nas florestas de Katyn naquela primavera de 1940. Do momento de solidariedade pode surgir a chance para um acerto de contas histórico. Se isso acontecer, como diz um artigo publicado no jornal britânico The Guardian no sábado, "o segundo sacrifício de sangue em Katyn não terá sido em vão".

Redação Terra
  1. Soldados retiram o caixão do presidente da Polônia Lech Kaczynski e de sua mulher da Catedral de Varsóvia

    AFP
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  2. O ex-presidente Victor Yushchenko (esq.) apresenta condolências aos familiares de Kaczynski

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  3. Caixão do presidente Lech Kaczynski é transportado em carro militar, durante funeral até a basílica gótica de Nossa Senhora, na Cracóvia

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  4. Militares carregam o caixão com restos mortais do presidente Lech Kaczynski até a Basílica de Nossa Senhora, na Cracóvia

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  5. Jazigo recebe gravação com nome do presidente polonês e de sua mulher, em Krakow

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  6. Pessoas comparecem para o funeral de representantes do governo, na praça Pilsudski em Varsóvia

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  7. A filha do presidente morto Lech Kaczynski beija o caixão de seu pai na Catedral de St. John, em Varsóvia

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  8. Familiares do presidente e da primeira-dama rezaram em memória ao casal

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  9. Velas foram acesas em volta de um monumento para homenagear membros do Gabinete de Segurança Nacional (NSB), vítimas do acidente aéreo

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  10. Poster com a foto do casal presidencial polonês é visto durante a cerimônia pública realizada na Praça Pilsudski, em Varsóvia

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  11. Pessoas se reúnem durante a cerimônia pública realizada na Praça Pilsudski, em Varsóvia, para homenagear as 96 vítimas do acidente aéreo

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  12. Jaroslaw Kaczynski (à esquerda), irmão gêmeo do presidente polonês morto no desastre aéreo, acompanha a cerimônia acompanhado de sua filha Marta e do marido dela Marcin Dubieniecku

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  13. Freiras assistem à missa celebrada na Praça Pilsudski, em Varsóvia

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