Tropa de mulheres desfila durante a cerimônia de formatura realizada na Academia de Polícia de Bagdá
10 de novembro de 2009
Foto: The New York Times
- John Leland
- Do New York Times
As expressões rígidas de cada rosto se abriram em sorrisos no mesmo momento, e um festival de beijos, abraços e lágrimas irrompeu, na segunda-feira, quando as 50 mulheres que se autodenominam "as leoas" se tornaram as primeiras oficiais femininas formadas pela academia da polícia iraquiana.
Em um vasto pátio de concreto, elas se uniram a 1.050 colegas homens em um momento que os oficiais das forças armadas norte-americanas encarregados de assessorar seu treinamento definiram como um passo à frente para o país e as mulheres iraquianas.
"Algumas pessoas têm uma visão sobre as mulheres iraquianas segundo a qual é uma vergonha para elas entrar para a academia de polícia¿, disse Alla Nozad Falih, 22 anos, que portava uma estrela à altura dos ombros de seu uniforme, em uma indicação de que se tornou primeiro-tenente. Como cerca de metade das integrantes do grupo, ela trazia os cabelos descobertos, a não ser pela boina azul da polícia, e, como 26 de suas colegas, ela entrou para a academia de polícia depois de concluir a faculdade de direito.
O trabalho como oficial na força nacional de polícia está entre os de maior salário disponíveis no Iraque, mas também é um dos mais perigosos; os policiais e os alunos em treinamento na academia são o alvo favorito dos insurgentes.
"Desde menina, sempre foi meu desejo ser policial, e agora enfim o realizei", disse Falih. "Estamos orgulhosas por nos termos tornado oficiais, e encorajamos outras mulheres a entrar para a polícia, porque é um ótimo emprego".
As mulheres há muito têm lugar nos escalões mais baixos da hierarquia policial iraquiana, em funções como as de guardas de trânsito ou para revistas de outras mulheres nos postos de controle. Mas até agora, elas não eram elegíveis para admissão ao corpo de oficiais, visto como a elite da polícia. O governo mudou as regras este ano. Diversos policiais que foram questionados sobre o assunto não estavam informados sobre o motivo da mudança ou o da proibição anterior.
As mulheres estudaram e treinaram em separado dos colegas homens, mas estavam sujeitas aos mesmos padrões, diz o coronel Randy Twitchell, do exército dos Estados Unidos, que trabalha como consultor no curso de nove meses de duração.
Ainda que as policiais que se formaram ainda não tenham sido designadas para suas primeiras missões, até o momento, Twitchell e outros afirmam que elas não devem ser deslocadas para trabalhos administrativos, e que em lugar disso tomariam parte de investigações e de tarefas forenses. Para a primeiro-tenente Noor Waled, 22 anos, que entrou para a academia de polícia depois de se formar em antropologia, a parte mais difícil eram os exercícios físicos.
"Todo mundo sabe que o corpo da mulher é macio, de modo que para nós era mais difícil fazer treinamentos militares de escalada e salto", afirmou. Outras das oficiais recém-formadas disseram que o mais difícil para elas havia sido aprender a usar armas de fogo, uma tarefa em que seus colegas homens tinham muito mais experiência.
"Quando fomos admitidas ao curso, éramos tímidas quanto a usar nossos uniformes, portar armas e coisas assim", disse a tenente Farah Hameed, 24 anos, que era investigadora em um escritório de advocacia antes de entrar para a academia. "Mas agora estamos prontas a fazer qualquer coisa. Até mesmo o treinador disse que agora podia afirmar que somos verdadeiras oficiais, pela maneira como caminhamos".
Todas elas disseram que haviam sido encorajadas por suas famílias a ingressar na academia. Mas durante o curso algumas mencionaram ter recebido ameaças de homens em suas comunidades, de acordo com Nana Shriver, major da polícia dinamarquesa que assessorou o treinamento das policiais.
Ainda que os alunos homens ficassem todos alojados na academia, não havia alojamentos para mulheres, e por isso elas precisavam vir de suas casas, o que forçava algumas delas a sair para os estudos às 4h, e voltar só depois do anoitecer.
"Realizamos oficinas sobre os desafios que elas enfrentariam, da parte dos homens e da sociedade", disse Shriver. "Algumas delas disseram ter sofrido ameaças porque eram mulheres". Mas Hameed e suas colegas afirmam que o fato de serem mulheres também propicia algumas vantagens. Elas podem entrevistar mulheres e crianças em casos de crimes como estupro e agressão sexual de uma maneira que seria difícil para os homens, disse.
"Todo mundo diz que os homens podem fazer tudo, mas isso não é verdade", ela afirmou. "Nas investigações, especialmente as que envolvem mulheres, uma policial feminina pode usar sua compaixão junto às vítimas e conseguir que elas respondam de forma mais clara às perguntas". A classe do ano que vem terá 100 mulheres, de acordo com Twitchell.
Enquanto o Iraque anunciava a decisão de preparar eleições parlamentares, na segunda-feira, a Alta Comissão Eleitoral Independente sugeria alterar a data do dia 16 para o 21 de janeiro, devido à demora na aprovação da nova lei eleitoral, que foi votado no domingo. O conselho presidencial terá de aprovar o pedido antes que ele seja atendido. O prazo-limite constitucional para a realização de eleições se esgota em 31 de janeiro.
As forças armadas norte-americanas anunciaram três mortes, na segunda-feira: dois pilotos foram mortos em uma queda de helicóptero a oeste de Tikrit, no norte do Iraque, domingo, e um, fuzileiro naval morreu domingo de ferimentos não relacionados a combate, na província de Anbar, a oeste de Bagdá.
As mortes elevam a 141 o total de norte-americanos mortos no Iraque este ano, ante 314 em 2008 e 904 em 2007, de acordo com o site icasualties.org.
No norte do Iraque, na região de Mosul, dois policiais foram mortos e um saiu ferido por uma bomba improvisada detonada em um local pelo qual passam patrulhas policiais. Dois civis foram mortos e um ferido em um tiroteio com policiais, de acordo com um representante da polícia iraquiana.
Tradução: Paulo Migliacci ME




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