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 Paris e Londres eram contrários à queda do Muro de Berlim
08 de novembro de 2009 08h46 atualizado às 09h44

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Os arquivos diplomáticos que a França e a Grã-Bretanha abriram por ocasião dos 20 anos da queda do Muro de Berlim mostraram que Paris e Londres, dirigidos então por Francois Mitterrand e Margaret Thatcher, respectivamente, eram contrários ao surgimento de uma Alemanha reunificada. Os documentos demonstram uma falta de percepção francesa sobre a mudança que estava por ocorrer na República Democrática e na República Federal alemãs.

Assim demonstra uma carta que o então presidente francês, Francois Mitterrand (1981-1995), enviou ao presidente da RDA, Egon Krenz, que, em outubro de 1989, havia substituído o renunciante Erich Honecker. "Esteja certo de que a França considerará favoravelmente (...) as perspectivas de desenvolvimento das relações da República Democrática Alemã com a Comunidade Europeia", afirmou o socialista Mitterrand em 24 de novembro de 1989, quatro dias antes que o chanceler alemão Helmut Kohl apresentasse um plano de dez pontos visando à reunificação.

Análises diplomáticas da chancelaria francesa de então mostram que Paris entendeu tardiamente que essa reunificação era iminente, pois alguns documentos consideravam que não se tratava de "um passo realista", mesmo depois da queda do paredão de 45 km de extensão que dividiu Berlim durante 28 anos e que foi um dos maiores símbolos da Guerra Fria.

Os arquivos franceses também permitem constatar a clara hostilidade à reunificação por parte da então primeira-ministra britânica, a conservadora Margaret Thatcher (1979-1990). "Os anos 90 começam com euforia, mas corrrem o risco de terminar em catástrofes. A Alemanha, que já é temível no plano econômico, se converterá na maior potência da Europa", afirmou a "Dama de Ferro" em um jantar organizado pelo embaixador francês em Londres, ao abordar a obsessão política da época: a reunificação e suas consequências para o equilíbrio e a construção europeia.

"França e Alemanha devem se aproximar ante o perigo alemão", dizia Thatcher, para quem "apenas a Rússia poderia ser um contrapeso mais poderoso" que a Alemanha. Num momento em que a ainda União Soviética transitava pelos primeiros anos da Perestroika, Thatcher entendia que o presidente da URSS, Mikhail Gorvachov, devia ser "associado" à frente franco-britânica.

"Não queremos uma Alemanha unificada", afirmou a chefe do governo britânico a Gorbachov em um encontro em Moscou, em setembro de 1989, segundo os arquivos que a Grã-Bretanha tornou públicos em setembro passado. A mudança de fronteiras e o desenvolvimento posterior "quebraria a estabilidade da situação internacional", argumentava Thatcher.

Essa mesma desconfiança era acompartilhada por Mitterrand. Em 20 de janeiro de 1990, ao receber Thatcher no Eliseu, Mitterrand transmitiu à colega sua preocupação sobre uma Alemanha reunificada, que poderia "ganhar mais terrreno ainda que o acumulado por Hitler", segundo os arquivos de Londres.

As milhares de pessoas que na noite de 9 de novembro de 1989 saíram às ruas de Berlim para quebrar o muro a golpes de marreta certamente não faziam ideia dessa atitude de hostilidade em relação a um momento que marcou uma mudança irreversível.

"No fundo de suas palavras, havia certa amargura frente ao transbordamento que derrubou todos os diques de uma diplomacia de contatos e negociações. Alegrou-se pelo fim do comunismo (...) mas, em nenhum momento, manifestou sua alegria pela liberdade recuperada nos países do Leste", afirmou o diplomata francês que jantou na ocasião com Thatcher.

AFP
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