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 Após 20 anos, rixa "ossis" x "wessis" segue viva em Berlim
09 de novembro de 2009 07h48 atualizado às 08h40

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Steffi Marung é professora e pesquisadora do Instituto de História e Cultura do Leste Europeu da Universidade de Leipzig Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra

Steffi Marung é professora e pesquisadora do Instituto de História e Cultura do Leste Europeu da Universidade de Leipzig
03 de novembro de 2009
Foto: Julia Dócolas/Especial para Terra

Julia Dócolas
Direto de Leipzig

Mesmo 20 anos após a queda do muro, uma certa rivalidade daqueles tempos ainda permanece em meio à Alemanha reunificada. Mais do que diferenças entre sotaques, Estados ou até times de futebol, a discussão remanescente é entre quem é da Alemanha Oriental, do leste ("ossi"), e quem é da Alemanha Ocidental, do oeste ("wessi").

Além das tradicionais provocações, como também se vê no Brasil, entre paulistas, cariocas, gaúchos, por exemplo, a questão ossi e wessi torna-se muitas vezes uma discussão política e social em função das adaptações que dois povos de um mesmo país tiveram que se acostumar nas últimas duas décadas.

Steffi Marung, professora e pesquisadora do Instituto de História e Cultura do Leste Europeu da Universidade de Leipzig, explicou, em entrevista ao Terra, quais são as principais características dessa "rixa" entre leste e oeste e até que ponto ela influencia no comportamento e na maneira de pensar de um povo que ainda questiona sua identidade.

Você, como alemã, se encaixaria onde nessa história? Você é ossi ou wessi?
Eu diria que sou uma Ossi, pois nasci no leste, em Halle.

Esses termos são característicos da época em que a Alemanha estava separada pela Guerra Fria. Por que, mesmo 20 anos depois, eles ainda são usados?
Depende com quem você fala. Para a geração jovem, para quem costuma viajar muito e trabalhar em outras cidades, o assunto não é mais tão importante. Isso não é a primeira coisa que você pergunta sobre alguém. O assunto se torna relevante quando há algum tipo de conflito. Aí sim há o questionamento se as pessoas são daqui (Alemanha Oriental) ou de lá (Alemanha Ocidental).

Que tipo de conflitos você se refere? O que causam esses conflitos entre quem é oriental ou ocidental?
Conflitos são normais na comunicação humana. Nós nos perguntamos por que será que determinada pessoa agiu de uma maneira que não nos agradou. O fato de ser ossi ou wessi se torna uma maneira de explicar essas coisas, uma ferramenta para um certo complexo de inferioridade. Quem era do leste era a "vítima", e quem era do oeste não se importava com os vizinhos. E tem muita gente que jamais esteve nos territórios que pertenceram à Alemanha Oriental, por exemplo. Eles não têm interesse. Aí, a denominação "ossi ou wessi" se torna uma explicação para o comportamento de alguém.

Quais são então as características que os ossis reclamam dos wessis e vice-versa?
Pelas conversas que eu tive, os wessis tinham uma imagem totalmente distorcida da "nossa" vida. Diziam que a gente não tinha o que comer, que não tínhamos tapete ou papel de parede nas casas. Computador então, nem pensar. Pra eles, a nossa vida era chata, todo mundo ficava em casa, não saíam pra se divertir. Tem a questão do FKK (Freie Körper Kultur - Cultura do Corpo Livre, uma espécie de naturalismo) também, que não tem nada a ver com a revolução sexual de 1968 que ocorreu no Ocidente. Os ossis eram pessoas que esperavam que o governo resolvesse os problemas delas. Já os wessis são arrogantes, distantes, calculistas, egoístas e colonizadores, para os ossis. Mas isso é um fenômeno que não se restringe à Alemanha. Na França, por exemplo, dizem que no sul só tem sol, gente bonita... Já no norte, todos são loucos. Isso existe em vários países. Na Alemanha isso acontece porque há duas interpretações diferentes da história do país. O processo de unificação provocou muitos debates, conflitos e frustrações - esse complexo de inferioridade e perda pelos cidadãos do leste.

Essa espécie de "mágoa" pode ser explicada pela "Ostalgia"? O que essa expressão quer dizer?
O termo Ostalgia é usado de duas formas. Tem aqueles que sentem saudade dizendo que tudo daquela época era melhor e tem aqueles que querem o regime comunista de volta. Mas essa saudade se reflete também nas experiências pessoais. Pois tudo que aquilo que um dia era normal, o lugar onde nasceu, o regime em que se vivia, de repente foi abaixo.

E como foi essa mudança, logo quando o regime da RDA terminou?
Foram tempos difíceis. Me dei conta muito tarde de que algo estava mudando. Lembro dos meus professores totalmente confusos. Era um teste de autoridade, pois eles estavam "oficialmente" perdendo a habilidade de serem autoridades. No início dos anos 1990, por exemplo, era difícil encontrar professores vindos da RDA na universidade, pois eles foram substituídos pelos do oeste.

Você ainda era jovem naquela época. Como foi ter de se adaptar em uma realidade social completamente diferente daquela que você viveu?
Quando se tem 10 anos, você pensa no que você quer ser ou fazer. Nem pensávamos em desemprego, era algo que não existia. Na RDA, em função da economia planejada, nem sempre podíamos seguir a carreira que queríamos. De repente, tivemos que começar a pensar no que faríamos a partir daquele momento, já que tudo tinha se tornado possível. Eu era mais cética. Mas mesmo que essa mudança tenha trazido frustrações para muitas pessoas, como foi o meu caso, foi fundamental para minha carreira. Mas não tem como saber como teria sido se nada tivesse mudado.

E hoje, onde esses debates ainda permanecem?
Na política ainda se usa muito essa denominação. Nas eleições, por exemplo, os jornais ainda dividem os votos entre regiões do leste e do oeste. Outra situação: a Angela Merkel chanceler alemã não é taxada como uma ossi, mas quando vão criticá-la, o assunto sempre vem à tona.

Ao circular pelos bairros mais modernos de Berlim, a impressão é de que ser do leste é mais "cool", mais legal. Você concorda?
Berlim tem uma situação muito específica quando se fala em tendências ou modismos. Muita gente, não só da Alemanha, vai para lá. A capital só é lá porque o muro caiu. A cidade era a cortina de ferro, separada, que se unificou e ainda está se reinventando. Por isso, o conceito de ossi também foi renovado. Essas tendências e inovações estão relacionadas à história da cidade, pois muita gente do oeste também ia pra lá para se refugiar. Na época, quem morasse em Berlim Ocidental não precisava passar pelo serviço militar obrigatório. Antes, todos esses bairros considerados "moderninhos", como Prenzlauer Berg e Friedrichshain, eram lugares vazios. Agora as pessoas estão indo morar lá e construindo essa nova imagem ossi, que não tem necessariamente algo a ver com o que era na antiga Berlim Oriental.

Além de ossi e wessi, se escuta aqui na Alemanha o termo "wossi". Como se dá essa mistura?
Tenho um bom exemplo para ilustrar essa "mistura". Uma amiga minha wessi se mudou para Leipzig (localizada no território da antiga Alemanha Oriental) e morou aqui durante 10 anos. Agora ela foi pra Heidelberg e se tornou uma defensora do ossi "way of life". Ela se sente ossi, mesmo sendo wessi, por estar morando agora no oeste. Mas minha geração, que era quase adolescente quando o muro caiu, teve a possibilidade de viajar muito, conhecer outras coisas, e se dar conta de que esse tipo de problema é tão pouco importante perto do que tem por aí.

Especial para Terra