Soldados paquistaneses guardam posição fortificada em Kund, no sul do Waziristão
30 de outubro de 2009
Foto: The New York Times
- Jane Perlez
- Do New York Times
Em Sherwangal, nas colinas pardas do Waziristão do Sul, o exército paquistanês estava avançando contra o reduto de um grupo especial de veteranos do Talibã, na quinta-feira, e usando artilharia e caças a jato para quebrar a resistência dos militantes, que por sua vez levaram a guerra para onde ela pode realmente ferir - as cidades do país.
Disparos de artilharia ecoavam pelas montanhas, na metade do dia, e o som dos jatos ecoava nos vales.
Os guerrilheiros, que estabeleceram um reduto aqui quatro anos atrás para planejar suas operações, não foram avistados ou ouvidos em uma das raras visitas de campo que o exército paquistanês organizou para que jornalistas observem as operações iniciadas quase duas semanas atrás. O Waziristão do Sul é área vedada a jornalistas estrangeiros e à maioria dos repórteres paquistaneses, e visitá-la requer autorização especial.
A ofensiva lançada pelo exército no Waziristão do sul cerca de duas semanas atrás se transformou em batalha de vontades entre o exército, que é responsável pelas armas nucleares paquistanesas e treinado para enfrentar principalmente a Índia, arqui-inimiga do Paquistão, e os insurgentes do Talibã e da Al-Qaeda, determinados a tomar o controle do Estado.
Em retaliação, os insurgentes atacaram com ferocidade nos centros urbanos paquistaneses e contra instalações das forças armadas, usando células infiltradas e unidades de comandos para causar caos e medo, com a morte de número inédito de civis.
Os ataques, especialmente o atentado com um carro bomba que matou mais de 100 pessoas em um velho mercado de Peshawar, na quarta-feira, tomaram mulheres e crianças por alvo e são interpretados por muitos paquistaneses como um esforço para destruir a vontade de resistir do público, e voltar o povo contra as operações militares.
Muitos paquistaneses acreditam que os militantes não se interessem por apoio público, e desejem apenas ser deixados em paz em seu reduto distante, que se tornou um ímã para militantes estrangeiros com os mais diversos antecedentes, de acordo com documentos que as forças paquistanesas capturaram em casas da região.
Até o momento, o público parece estar apoiando o exército e demonstra impaciência para com os militantes, se bem que muitos paquistaneses suponham que deve existir uma mão estrangeira, seja dos Estados Unidos ou da Índia, por trás das ações dos extremistas.
O mais comum, entre os cidadãos paquistaneses, é um senso de patriotismo com relação às forças armadas e de fúria diante do fraco governo civil e de suas anêmicas unidades policiais, que parecem incapazes de deter a destruição causada pelos militantes.
"Os ataques que eles nos infligem podem ser terríveis, mas devemos nos provar resolutos, e que não há como nos intimidar, dizendo que eles não passarão e não os toleraremos. Queremos que essas bestas selvagens se vão, porque o país é nosso e não deles", afirmava o editorial do The News, um importante diário em língua inglesa, na quinta-feira.
No passado, o desempenho do exército costumava ser fraco no Waziristão do Sul, a região mais setentrional das áreas tribais paquistanesas, ocupadas por tribos que não respeitam o governo central e nas quais o Talibã e a Al-Qaeda sempre operaram sem obstáculos.
Em 2005, o exército, sob o comando do general Pervez Musharraf, assinou um acordo de paz com Baitullah Mehsud, então líder do Talibã paquistanês, no Waziristão do Sul. O acordo legitimou a autoridade de Mehsud junto aos aldeões mehsud.
Depois veio uma série de confrontos de resultados embaraçosos para as forças armadas. Em 2007, os militantes capturaram mais de 40 soldados em uma fortificação em Sararogha, e executaram a maioria deles.
No ano passado, as forças armadas abandonaram o forte de Ladha, outro baluarte militar, e os insurgentes imediatamente explodiram a estrutura construída na era da colonização britânica.
Agora as forças armadas tentam reconstruir sua reputação no Waziristão do Sul e restabelecer sua presença. E estão agindo com muito mais soldados do que em passadas operações na região, disse o major-general Athar Abbas, o porta-voz das forças armadas, aos jornalistas que ele conduziu em visita à região em um helicóptero M-17.
O general informou que havia três divisões do exército envolvidas na operação, e que o objetivo era negar território aos militantes. "Aqui, eles têm a liberdade de planejar ataques, e isso cessará", disse Abbas.
Entre as propriedades militantes apreendidas em Koktai, uma cidade capturada no final de semana passado, havia uma casinha identificada como "laboratório", que servir como oficina para a fabricação de bombas de controle remoto, disse o brigadeiro Mohammed Shafiq.
No topo da colina de Spin Jamaat, em Sherwangal, o comandante das forças que operam na área, general Khalid Rabbani, expressou confiança, enquanto contemplava um vasto panorama de colinas recobertas por vegetação esparsa. "Os terroristas se aprofundaram nas montanhas, e as saídas estão todas bloqueadas", disse.
O fato de que os insurgentes tenham optado por se retirar para a porção mais distante de seu reduto, em torno das cidades de Makeen, Ladha e Sararogha e perto de montanhas recobertas por densas florestas, pode ser um problema para o exército.
"Temo que o exército venha a ser atraído a uma região desfavorável, na qual os terroristas poderão fazer ataques pesados com rápida dispersão posterior", disse um morador da área de Mehsud, recentemente. O exército pode se ver forçado a manter essas posições por meses, e existe o potencial de pesadas baixas, ele disse.
O exército até agora vem concentrando seus esforços em controlar território ao longo da rodovia principal, uma via de cascalho entremeado por rochas, construída inicialmente pelos britânicos. As tropas estão avançando lentamente, ainda que o terreno próximo à estrada seja relativamente acessível, se comparado aos passos de montanha que terão de ser superados para que o avanço prossiga em direção ao interior, disseram soldados.
O exército capturou a aldeia de Chalvashti, dias atrás, e esse aglomerado de edificações de telhados planos pode ser contemplado de uma colina próxima.
O alvo seguinte, Kuniguram, cerca de 10 quilômetros distante de Chalvashti, servia como quartel-general dos combatentes uzbeques, as mais ferozes tropas do Talibã. O exército estava avançando contra Kuniguram de três direções, disse Rabbani, e nuvens de fumaça branca causada pelo fogo de artilharia contra a crista que fica diante de Kuniguram podiam ser vistas no começo da tarde.
Os combates para a captura de Kuniguram vem sendo os mais árduos para o exército até o momento, disse o general.
Em Chalvashti, os soldados encontraram um passaporte espanhol em nome de Raquel Burgos Garcia, uma mulher de 35 anos cuja foto de passaporte a mostrava com um véu islâmico. Uma carteira de identidade também localizada revela que ela estudou no Marrocos quando criança.
Também foi localizado um passaporte alemão em Said Bahaji, emitido em Hamburgo em janeiro de 2001 e com visto paquistanês de março do mesmo ano. Ele chegou ao Paquistão um mês mais tarde, de acordo com as datas registradas no passaporte.
Por outra rota, o exército também está se aproximando de Sararogha, que serve como núcleo operacional do Talibã, disse Abbas.
Aparentemente, Wali ur-Rehman, segundo em comando do Talibã paquistanês, está dirigindo as operações em Sararogha, a cidade na qual o exército assinou seu acordo de paz com Mehsud, o antigo líder do Talibã paquistanês morto em um ataque por um avião não tripulado dos Estados Unidos em agosto.
À luz do dia, e dos postos do exército, quase não se via sinais do Talibã. Mas a impressão é enganosa, dizem os soldados. Os militantes, muitos dos quais protegidos em casamatas escavadas nas colinas, em geral atacam de noite, usando atiradores de tocaia, segundo os militares. O Talibã preparou as casamatas há meses, à espera da ofensiva militar, disse um morador da região de Mehsud que falou em Peshawar.
À medida que o exército penetra mais e mais no baluarte dos mehsud, é provável que os militantes deixem os baluartes e ataquem os soldados, se deslocando pelos leitos de rios secos que cruzam os vales, disse o morador.
Tradução: Paulo Migliacci ME




Assista agora »
Assista agora »
Assista agora »


