- Thom Shanker, Peter Baker e Helene Cooper
- Do New York Times
Os assessores do presidente Barack Obama estão concentrando suas atenções em uma estratégia para o Afeganistão que envolveria proteger os 10 principais centros populacionais do país, disseram representantes do governo na quinta-feira, descrevendo uma abordagem que não chegaria a constituir um ataque ilimitado ao Talibã mas ainda assim procuraria promover a estabilidade em longo prazo.
Obama ainda não tomou sua decisão, e existem outras opções em aberto; no entanto, na forma descrita pelos funcionários, o debate já não gira em torno de enviar ou não reforços, e sim sobre o número de soldados adicionais que seriam necessários para proteger as porções mais vitais do país. A questão de que proporção das terras afegãs deveriam estar protegidas diretamente por forças dos Estados Unidos e da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) será essencial para decidir sobre o número de soldados que Obama enviará ao país.
No momento, o governo norte-americano está planejando proteger Cabul, Candahar, Mazar-i-sharif, Kunduz, Herat, Jalalabad e algumas concentrações de aldeias, disseram os funcionários. Os primeiros novos reforços enviados ao Afeganistão seriam destacados para a proteção a Candahar, a capital espiritual do Talibã, vista como centro de gravidade para repelir os avanços dos insurgentes.
Mas os planejadores militares também estão pressionando por reforços em número suficiente para proteger importantes áreas agrícolas no vale do rio Helmand, uma região contestada, bem como as rodovias regionais que são consideradas como essenciais para a economia. Essas missões exigiriam um número de reforços substancialmente mais alto, que viriam se somar aos 21 mil soldados adicionais que Obama já enviou ao país este ano.
Um funcionário do governo disse que o general Stanley McChrystal, o principal comandante militar no Afeganistão, havia informado os assessores de Obama sobre a disposição planejada para as tropas adicionais cujo envio a Casa Branca está considerando. As duas primeiras brigadas de combate adicionais iriam para o sul, uma das quais para Candahar, e uma terceira brigada seria enviada para o leste do Afeganistão. Uma quarta brigada de reforço seria usada de forma flexível em todo o território do país, disse o funcionário, que como os demais pediu que seu nome não fosse mencionado. Funcionários do governo e das forças armadas enfatizaram que a estratégia incluiria outros elementos, tais como o treinamento acelerado de tropas afegãs, a expansão do desenvolvimento econômico e esforços de reconciliação com elementos menos radicais do Talibã.
Mas uma estratégia como essa ficaria exposta a queixas de que as forças dos Estados Unidos e das nações aliadas estariam, na prática, oferecendo aos rebeldes livre acesso a largas porções do país, o que permitiria que o Talibã estabelecesse pequenos Estados autônomos, que incluiriam campos de treinamento a serem usados pelos terroristas da Al-Qaeda. "Não estamos falando sobre entregar o restante do país ao Talibã", disse um importante funcionário do governo.
Oficiais das forças armadas afirmaram que manteriam a pressão sobre os insurgentes em regiões remotas por meio de aeronaves de reconhecimento sem piloto e de relatórios de observadores em campo, que localizariam bolsões de forças do Talibã e orientariam ataques, especialmente por unidades de forças especiais. Mas diversos representantes do governo ofereceram o argumento de que muitos dos insurgentes que combatem os norte-americanos em áreas remotas o fazem não por apego à ideologia jihadista, e sim por desentendimentos locais, e portanto não representam séria ameaça aos governos dos Estados Unidos ou de Cabul.
O cerne da nova estratégia é a conclusão de que os Estados Unidos não têm a capacidade de erradicar completamente a insurgência em um país no qual o Talibã é uma força local - e tampouco precisam fazê-lo para proteger sua segurança nacional. O foco, em lugar disso, seria prevenir o retorno da Al-Qaeda ao país em grandes números, e conter e enfraquecer o Talibã por tempo suficiente para treinar forças de segurança afegãs que se encarregariam da mesma tarefa no futuro.
Na prática, a abordagem combina ideias do general McChrystal e do vice-presidente Joe Biden, vistos como polos antagônicos no debate interno norte-americano. McChrystal solicitou pelo menos 40 mil reforços adicionais para uma estratégia de combate à insurgência que teria por objetivo proteger os civis afegãos, de modo a que venham a apoiar o governo central do país. Biden se opôs a reforços, com a alegação de que uma presença militar ampliada seria contraproducente e que combater a Al-Qaeda no Paquistão deveria ter prioridade.
Uma estratégia de proteção aos principais centros urbanos significaria "McChrystal na cidade, Biden no campo", nas palavras de um funcionário do governo. As fontes disseram que o secretário da Defesa Robert Gates estava desempenhando papel crucial, na ponderação entre os argumentos dos líderes militares e o ceticismo expresso por alguns dos civis que fazem parte do conselho de guerra de Obama, enquanto o debate se encaminha a uma decisão.
Um importante oficial das forças armadas afirmou que a estratégia que está em desenvolvimento adota o preceito central de McChrystal. "Não estamos mais pensando apenas em destruir o inimigo de maneira convencional", ele disse. "Precisamos remover a principal pressão sobre os civis, ou seja, a constante intimidação e corrupção, bem como as ameaças diretas da insurgência".
O oficial disse que McChrystal deseja adotar uma definição mais ampla de centros populacionais, que incluiria vales férteis e cinturões econômicos, bem como as principais rodovias - especialmente o anel rodoviário nacional que serve como elo central de comércio -, além de quatro ou cinco outras estradas que unem o Afeganistão ao Paquistão, a leste, e ao Irã, a oeste.
Os funcionários do governo dizem que não existem estatísticas disponíveis para a porcentagem de população afegã que receberia proteção, sob a nova estratégia. Já há alguns elementos das novas ideias sendo implementados. Ao longo dos últimos 30 dias, McChrystal fechou meia dúzia de postos militares isolados em cidades como Wanat, onde um ataque contra os soldados norte-americanos causou nove mortes em um feroz tiroteio travado em julho de 2008. A decisão de fechar as bases permitiu que McChrystal transferisse quase mil soldados a novas missões.
Ainda que analogias histórias costumem ser imperfeitas, a estratégia em implementação no momento pode ser vista como rejeição do argumento de que cada aldeia importa - um erro cometido na guerra do Vietnã -, e como confirmação de lições aprendidas com o reforço das tropas norte-americanas no Iraque, quando as áreas de maior população receberam os maiores reforços.
O senador John Kerry, democrata de Massachusetts e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, que vem colaborando com o governo quanto à estratégia para o Afeganistão, sinalizou o pensamento dominante no momento em um discurso, na segunda-feira: "Não temos de controlar cada povoado e aldeia, especialmente em áreas não pashtun do país, já hostis ao Talibã", ele declarou.
Um dos possíveis pontos de conflito no debate está em Helmand, uma área agrícola esparsamente povoada e baluarte do Talibã no sul do Afeganistão. Os insurgentes dominaram boa parte da província por anos, mas este ano unidades dos fuzileiros navais norte-americanos chegaram em grande número à província para reforçar as forças britânicas estacionadas no local.
Alguns funcionários do governo perguntam se faz sentido usar 20% das forças estrangeiras para proteger 3% da população do país. Mas outros apontam que o fértil vale do Helmand é importante para a economia afegã e se tornou fonte importante do ópio usado para financiar a insurgência. Obama se reunirá com os chefes de Estado-Maior das forças armadas na sexta-feira, sua sétima grande reunião com eles desde o início da revisão.
Tradução: Paulo Migliacci ME




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