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 Para analista americano, 3º mandato de Uribe é "mau exemplo"
09 de setembro de 2009 07h22

Ligia Hougland

Direto de Washington

Para o cientista político Michael Shifter, a possível aprovação para que o presidente colombiano Álvaro Uribe dispute um terceiro mandato consecutivo "é um mau exemplo para o resto da América Latina". Em entrevista exclusiva ao Terra, o cientista político acredita que a reeleição de Uribe resultará no enfraquecimento das instituições democráticas.

No começo deste mês, Uribe conquistou mais uma vitória na sua carreira política quando o Parlamento colombiano aprovou um referendo popular para acabar com o limite de dois mandatos presidenciais estipulado pela Constituição do país.

A decisão dividiu os espectadores em âmbito mundial mais que os próprios colombianos (Uribe conta com índices de aprovação de aproximadamente 70%, segundo pesquisas da Gallup).

Professor de política latino-americana da Georgetown University e vice-presidente de política do Inter-American Dialogue, organização sediada em Washington dedicada à análise de políticas das nações do hemisfério ocidental, acredita ainda que o processo deve, provavelmente, causar a erosão dos controles ao regime colombiano, representando riscos à democracia na região.

"Um terceiro mandato certamente vai complicar a agenda da Colômbia com os EUA. É difícil encontrar muita gente em Washington que ache isso uma boa ideia", afirma Shifter.

No entanto, Uribe é visto por muitos com simpatia, incluindo os EUA. A Colômbia e os EUA têm uma relação positiva baseada na aliança no combate ao narcotráfico vinculado às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e em um sólido comércio.

"O fato de bases americanas estarem sendo estabelecidas no território colombiano é o símbolo máximo de uma relação estreita entre os dois regimes", afirma Christian Lohbauer, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional (Gacint) da USP.

Representantes do departamento de Estado dos EUA já disseram, em anonimato, pois não estão autorizados a se manifestar publicamente sobre isso, que a reeleição de Uribe não afetará a assistência financeira oferecida por Washington à Bogotá na luta contra o narcotráfico e o terrorismo. Desde 2000, os EUA já entregaram US$ 6 bilhões à Colômbia.

Frequentemente, os EUA são vistos como tendo "dois pesos, duas medidas" em relação aos governantes latino-americanos. "O fato de os EUA criticarem constantemente Hugo Chávez por buscar a reeleição, ao mesmo tempo que dão carta branca a Uribe vai fomentar as suspeitas de que o país não joga de forma justa na América Latina", afirma Dan Erikson, analista de política do Inter-American Dialogue e autor do livro The Cuba Wars (As Guerras de Cuba, em tradução livre).

Apesar da personalidade discreta, Uribe alcançou grande prestígio popular desde que assumiu a presidência da Colômbia, em 2002. Ele colocou o país em uma linha de estabilidade ao vencer a batalha com as Farc e a guerrilha esquerdista. Atualmente, a Colômbia só fica atrás do Brasil nos índices de avaliação de investidores estrangeiros para os países da América Latina. Além disso, conta com um dos maiores exércitos da região.

Em 2006, Uribe foi facilmente reeleito depois que o Congresso colombiano autorizou um referendo popular que mudou a constituição de 1991, que limitava a carreira presidencial a apenas um mandato.

Os defensores da mudança constitucional acreditam que a reeleição de Uribe dará continuidade à estabilidade democrática na Colômbia e é, inclusive, necessária. "Não acho que outro governante seja capaz de dominar a influência que Hugo Chávez quer ter, e, ao que tudo indica, tem sobre o tráfico de armas para as Farc", diz Lohbauer.

Mas também é possível que um terceiro mandato de Uribe possa complicar a já tensa relação da Colômbia com os países vizinhos com regimes mais de esquerda, como a Venezuela e o Equador. "Vai dificultar muito o relacionamento da Colômbia com os regimes de esquerda da região. Além disso, Uribe vai sair perdendo na comparação com líderes como Lula, que aceitou governar por apenas dois mandatos", diz Erikson.

"A decisão de Uribe torna menos contrastantes as diferenças dele com outros líderes andinos", afirma Shifter, fazendo referência a Hugo Chávez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador).

Lohbauer discorda. "Não dá para comparar o Uribe com o Chávez. Ele é muito mais transparente e fez o processo de transição de forma bem orquestrada. O presidente venezuelano fez uma mudança institucional baseada na propaganda bruta e populista com as massas e na corrupção escancarada junto às bancadas dos que o apoiavam."

Entretanto, em alguns círculos, há uma desconfiança quanto às intenções de Uribe. "O presidente colombiano vai se posicionar ao lado dos líderes latino-americanos sedentos por poder", diz Erikson.

Os EUA já permitiram mandatos presidenciais múltiplos. Em 1940, Franklin D. Roosevelt, rompeu com a tradição política americana e candidatou-se a um terceiro mandato. Em 1944, Roosevelt foi reeleito pela quarta vez, mas morreu pouco meses depois de sua eleição. A Constituição americana foi alterada em 1947, determinando um limite de dois mandatos para cada presidente.

Uribe não declarou se vai disputar a presidência novamente, e ainda é preciso que a Corte Constitucional aprove o plebiscito para mudar a Constituição. Pelo menos 7,5 milhões de eleitores (um quarto do eleitorado colombiano) precisam votar a favor da medida para que ela seja de fato implementada.

Especial para Terra