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 Ex-embaixador brasileiro: Uribe não tem a ousadia de Chávez
08 de setembro de 2009 11h23

Ana Ávila

Direto de Porto Alegre

Para o ex-embaixador brasileiro em Cuba, Tilden Santiago, se a aprovação do referendo da reeleição na Colômbia atrai menos atenção da mídia em relação ao projeto aprovado em fevereiro na Venezuela, é por Uribe ser menos "ousado" que Chávez. "Como personalidade, Uribe não tem o destaque e a ousadia que Chávez vem manifestando. Outros mandatários podem discordar de Chávez, mas tem admiração por ele", disse em entrevista ao Terra.

Há uma semana, o Parlamento colombiano aprovou o projeto de referendo que pode permitir ao presidente Álvaro Uribe candidatar-se ao terceiro mandato consecutivo em 2010. Diferente do que aconteceu com seu vizinho e desafeto Hugo Chávez - que em fevereiro ganhou o direito, também por meio de um referendo, de ser reeleito de maneira ilimitada -, a medida despertou pouco interesse da imprensa internacional, em especial a americana.

Santiago, que hoje ocupa cargo de assessor especial da presidência da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), acredita que a atenção inferior destinada à Colômbia seja fruto tanto do menor destaque da Colômbia na conjuntura latino-americana, se comparada à Venezuela, quanto do maior interesse pessoal que Hugo Chávez é capaz de despertar.

Os atritos entre Colômbia e Venezuela são frequentes, especialmente pela posição ideológica de seus governantes. Enquanto Uribe se esforça para manter uma boa relação com os Estados Unidos, inclusive com um acordo que pode permitir ao governo de Barack Obama manter 1,4 mil pessoas, entre militares e civis, em bases na Colômbia pelos próximos dez anos, Chávez procura estabelecer um bloco cada vez mais forte capaz de se opor aos Estados Unidos e impedir sua interferência na América Latina.

Apesar de tantas divergências, os dois se aproximam ao buscar a perpetuação no poder. Ainda assim, para Santiago, embora possam ter estilos formais semelhantes, as diferenças entre Chávez e Uribe falam mais alto. "É preciso saber que o fundamental é o suporte teórico de cada um, que é completamente diferente. A visão de mundo de cada um deles é bastante diferente", explicou.

O ex-embaixador diz ainda que não acredita em possíveis mudanças na relação entre os dois países, caso Uribe consiga mais um mandato à frente da Colômbia. Além disso, para ele, o líder venezuelano não deve criticar as pretensões do colega. "Chávez não tem moral para recriminar Uribe porque também pretende se perpetuar no poder", disse.

Por outro lado, o interesse em se manter na presidência de Uribe vai contra as perspectivas americanas. "A questão da perpetuação no poder bate de frente com a visão de democracia americana", afirmou Santiago.

Ainda assim, os dois países devem se manter alinhados e, consequentemente, contrários aos interesses de parte dos demais países latino-americanos. Estes, por sua vez, apesar das divergências, não devem fazer críticas explícitas ao referendo colombiano.

"Há um fenômeno hoje que é um respeito muito grande dos países latino-americanos uns com os outros na caminhada de cada um rumo à integração continental", diz. De acordo com Santiago, os governos da região - e Cuba é um exemplo - estão respeitando cada vez mais a hegemonia dos vizinhos. "Cuba era um país que exportava revolução. Hoje, respeita a caminhada rumo à democracia de cada país."

Assim como seus vizinhos, o Brasil também deve manter certo distanciamento das questões internas colombianas. Para Santiago, o País já adquiriu certa maturidade e deve usá-la demonstrando equilíbrio e respeito em relação à decisão colombiana de permitir ou não que Uribe dispute um terceiro mandato.

Referendo
Depois de aprovado no Senado e no Parlamento, o projeto de referendo que pode permitir a Uribe candidatar-se a um terceiro mandato ainda precisa ser levado à Corte Constitucional, que determinará em um prazo de 120 dias a legalidade da proposta.

Em seguida, o projeto deve passar à Procuradoria Geral, que terá um mês para dar luz verde à convocação do referendo em que os colombianos decidirão se estão a favor ou contra a segunda reeleição de Uribe.

Para que o referendo seja válido, pelo menos 7,5 milhões de pessoas, 25% do registro eleitoral, devem votar. Esses trâmites devem ser realizados antes do mês de janeiro, data limite para a apresentação das candidaturas.

Para parlamentares colombianos ouvidos pela BBC Brasil, a possibilidade de se reeleger torna Uribe quase imbatível, já que de acordo com as últimas pesquisas realizadas no país seu índice de aprovação chaga a 70%.

Redação Terra