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 Imigrantes iraquianos sofrem para se adaptar à vida nos EUA
13 de agosto de 2009 14h43 atualizado às 14h46

Kirk Semple

Do New York Times


Não muito tempo depois que começou a guerra do Iraque, em 2003, Uday al-Ghanimi foi abordado por diversos homens do lado de fora da base norte-americana na qual ele gerenciava uma loja de conveniência. Ele foi acusado de ajudar os norte-americanos, e alguém disparou um tiro contra sua cabeça. Agora, depois de 24 cirurgias, Ghanimi tem não só um rosto reconstruído como recebeu asilo nos Estados Unidos. Em 4 de julho, sua mulher os três filhos mais jovens do casal se reuniram a ele em Nova York, depois de uma separação de três anos.

Mas a euforia do reencontro logo se dissipou, quando a família começou a enfrentar as realidades mais difíceis de sua nova vida. Ghanimi, 50 anos, que não consegue trabalhar por sofrer dores persistentes, sustenta a família com os US$ 761 mensais que recebe em assistência do governo, bem como com assistência alimentar pública e doações de amigos. Eles estão vivendo em um só aposento, alugado em um apartamento de dois quartos no Upper West Side de Manhattan, em uma cidade na qual os imigrantes iraquianos vivem dispersos. E a mulher e filhos de Ghanimi não falam inglês, o que agrava seu senso de isolamento.

"Eles pedem para voltar", diz Ghanimi, com voz sombria. "Não estamos vivendo como eles esperavam. E eu peço que tenham paciência". Nos anos que se seguiram à invasão dos Estados Unidos ao Iraque, milhares de iraquianos batalharam por admissão ao território norte-americano sem sucesso - até que Washington reagisse às críticas generalizadas que vinha recebendo por meio de medidas adotadas em 2007 para facilitar a entrada de maior número de refugiados ou de pessoas com vistos especiais.

Mas agora que os iraquianos estão chegando em maior número, muitos descobrem que a vida nos Estados Unidos é bem mais difícil do que imaginavam. Um relatório divulgado em junho pelo Comitê Internacional de Resgate, uma organização de reassentamento de refugiados de Nova York, informa que muitos imigrantes iraquianos não conseguiram emprego, estão esgotando os benefícios do governo e outras verbas de assistência e em breve cairão na pobreza e no desabrigo.

Ativistas que defendem os imigrantes em Nova York e outras cidades afirmam que os iraquianos encontraram mais dificuldade para se estabelecer do que outras populações imigrantes. Muitos têm bom nível educacional e chegam com expectativas pouco realistas sobre a vida que os aguarda. Ainda que a maioria receba assistência do governo ou agências privadas, muitos deles imigraram em um momento de profunda recessão.

E muitos outros precisam de ajuda para lidar com as feridas físicas e emocionais da guerra. "Nunca vi uma população tão traumatizada", diz Robert Carrey, vice-presidente de política de migração e reassentamento do Comitê Internacional de Resgate. Mais de 30 mil iraquianos foram reassentados nos Estados Unidos desde a invasão de 2003, como refugiados ou portadores de vistos especiais para aqueles que colaboraram com o governo norte-americano. Ao menos 1,5 mil outros receberam asilo político, de acordo com as autoridades federais.

A vasta maioria chegou nos dois últimos anos, e se espalhou pelo país. As maiores concentrações estão em San Diego, Phoenix, Houston e Dearborn (Michigan). Mais de 1,1 mil deles se instalaram na região de Nova York, e pelo menos 100 destes na cidade de Nova York.

No Iraque, muitos tinham empregos como médicos, professores, cientistas e intérpretes - em muitos casos, trabalhando para as forças norte-americanas -, e isso lhes dava a esperança de que seriam recompensados com, uma vida confortável no país. Mas, como no caso dos imigrantes mais bem preparados vindos de outros países, a maioria descobriu que credenciais estrangeiras nem sempre valem no mercado norte-americano, o que os forçou a disputar empregos que requerem menos preparo.

Nour al-Khal, 35 anos, chegou a Nova York como refugiada em 2007 e vem ajudando diversas famílias iraquianas que chegaram aos Estados Unidos posteriormente. Entre os mais difíceis ajustes, ela diz, está aceitar a probabilidade de que não poderão continuar na mesma profissão. "Nós brigamos quanto a isso", diz Khal, que foi ferida a tiros em Basra, Iraque, em 2005, enquanto trabalhava como intérprete para Steve Vincent, um jornalista norte-americano morto durante o mesmo ataque. Khal era executiva em uma empresa imobiliária norte-americana; em Nova York, o melhor emprego que ela encontrou, inicialmente, foi como recepcionista de uma imobiliária.

"Tive de aceitar", diz Khal, que hoje trabalha como tradutora. "Foi muito difícil". A região de Nova York oferece oportunidades notáveis para os recém-chegados. O transporte público é bom e as agências de serviço social têm vasta experiência com imigrantes recentes. Mas os custos de vida são elevados e a população iraquiana - ao contrário de outros grupos de imigrantes que colonizaram bairros inteiros e formaram associações - está dispersa, o que fomenta uma alienação agravada pelo ritmo incansável da vida na cidade.

Ghanimi, o comerciante ferido a tiros, se sente grato pelos cuidados médicos, assistência judicial e habitação gratuitos que recebeu enquanto seus ferimentos eram tratados e o pedido de asilo de sua família era processado. Mas as tarefas que ainda restam são imensas, diz - de encontrar um novo apartamento a conseguir tratamento para sua mulher por diversos problemas físicos e emocionais.

A tarefa mais importante para ele é convencer a família de que viverão melhor aqui do que em Bagdá, diz - ao menos porque suas vidas não estarão em risco. "Eu disse a eles que tudo é bonito aqui", conta. "Eletricidade o dia inteiro, diferente do Iraque. Um bom clima, diferente do Iraque. Há muitas coisas que não se pode obter no Iraque. E eles respondem que isso pode ser verdade, mas não temos como comprá-las".

Alguns dias mais tarde, ele levou a família a Times Square, no final da tarde, para que eles pudessem ver a beleza das luzes. Estavam todos atônitos, impressionados com movimento e burburinho. "Talvez demore para que as coisas se acertem", disse Ghanimi. "Mas sinto que tudo sairá bem".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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