Sul-coreanos observam o vizinho do norte em um ponto de fronteira em Yeoncheon
05 de junho de 2009
Foto: The New York Times
Martin Fackler
Do New York Times
Os soldados estacionados nas casamatas e postos de vigilância neste trecho da zona desmilitarizada que separa as duas Coréias estão em extremo alerta, e contemplam com atenção redobrada a Coréia do Norte agora equipada com armas nucleares. Mas em uma manhã recente, receberam a visita de 120 civis, a maioria dos quais mulheres jovens, que chegaram em ônibus pintados de vermelho brilhante e branco.
Enquanto um soldado sul-coreano apontava para uma torre de vigia da Coréia do Norte instalada a menos de três quilômetros de distância, as jovens riam com admiração diante da precisão militar de seus movimentos. A primeira pergunta que lhe fizeram foi se era solteiro. Mas muitas delas caíram no silêncio quando iniciaram uma caminhada de 45 minutos ao longo das altas cercas de arame farpado que delimitam a fronteira mais fortificada do planeta, acompanhadas por um guia.
"Foi uma experiência reveladora", disse Huh In-young, 40 anos, que estava usando um vestido leve de verão e um chapéu verde de abas largas e cor militar. "Tendemos a esquecer sobre a zona desmilitarizada, em nossas vidas cotidianas".
O grupo estava participando de uma das chamadas "excursões de disciplina", uma prática comum que as empresas sul-coreanas, conhecidas por seu paternalismo, empregam para promover a unidade e inspirar o entusiasmo de seus funcionários, em geral por meio de escaladas de montanhas ou visitas a parques de diversões. Mas uma semana depois que a Coréia do Norte conduziu seu segundo teste nuclear, a companhia envolvida -no caso uma estatal que opera as lojas duty free instaladas no aeroporto internacional de Incheon, perto de Seul - optou por um programa um pouco menos leviano para seus funcionários, mais acostumados a dedicar atenção a relógios TAG do que a mísseis Taepodong.
"Estamos falando de disciplina mental, para que eles possam ver tudo isso e apreciar aquilo que hoje temos na Coréia do Sul", disse Kang Joong-sek, um diretor executivo da agência de viagem que organizou a excursão, a Organização Coreana de Turismo. "Nós consideramos que a riqueza que hoje temos é um direito".
De fato, enquanto o Norte continua aparentemente a ameaçar guerra e a preparar ainda mais testes com mísseis, a população sul-coreana cada vez mais próspera parece em larga medida desinteressada quanto à atitude beligerante de seu vizinho ao norte. Nas ruas de Seul, a capital sul-coreana, o tráfego intenso e a iluminação em néon dos estabelecimentos de comércio e entretenimento não parecem ter sido afetados em nada pelo teste nuclear do Norte na semana passada; os moradores continuam a conversar nos cafés da Starbucks ou a trabalhar despreocupados em seus cubículos nos modernos edifícios de escritórios da cidade.
Na mídia noticiosa local, o teste nuclear da Coréia do Norte e a resposta mundial a ele em muitos casos ocupam posição secundária com relação ao luto nacional e aos protestos resultantes do suicídio, quase duas semanas atrás, do ex-presidente Roh Moo-hyun. Os sul-coreanos parecem se ter acostumado às demonstrações de belicosidade do Norte, consideradas como nada mais que uma tentativa desesperada de extrair concessões de Washington.
Mas perto da zona desmilitarizada, uma faixa de 240 km de extensão ladeada por obstáculos para tanques e campos minados, a tensão continua a ser palpável. Na Coréia do Sul, alguns poucos locais foram abertos a visitas por turistas, incluindo o trecho de fronteira próximo a Daekwang, uma silenciosa aldeia agrícola localizada cerca de 70 km ao norte de Seul e cerca de 160 km a sudoeste da capital da Coréia do Norte, Pyongyang.
Os visitantes podem observar a zona desmilitarizada de uma plataforma de observação de concreto camuflada que se assemelha a uma das muitas grandes casamatas que marcam o lado sul-coreano da fronteira. Do outro lado de um cinturão no qual as árvores foram em sua maioria arrancadas, e forma a terra de ninguém que separa as duas nações, fica uma linha semelhante de cercas e de posições fortificadas, controladas pela Coréia do Norte.
Até recentemente, o observatório em Daekwang atraía cerca de três mil visitantes por mês, de acordo com os soldados que cuidam das defesas no local. Um dos pontos de destaque nessa porção da fronteira é a chamada "T-Bone Hill", uma série de colinas ondulantes não muito íngremes que foram palco de ferozes combates entre forças dos Estados Unidos e da China, durante a guerra da Coréia, mais de meio século atrás.
Mas o número de excursões canceladas subiu recentemente, em companhia das tensões geradas pelo teste nuclear da semana passada, ainda que representantes das forças armadas sul-coreanas no local afirmem que a fronteira continue segura o bastante para permitir visitas. Jang Seung-jae, presidente de uma empresa que traz grupos de turistas em excursões à zona desmilitarizada em Daekwang, disse que mais de 100 pessoas haviam cancelado suas viagens ao local na semana passada. "A televisão continua insistindo em que a zona desmilitarizada é uma área de perigo", ele diz.
O único grupo a visitar o posto de observação desde o teste nuclear foi o dos funcionários das lojas do aeroporto de Incheon. Kang, o diretor executivo da agência de turismo que organiza as viagens, afirmou que alguns dos funcionários da companhia envolvida expressaram preocupações quanto à visita, mas que nenhum deles desistiu. "É um pouco como a gripe suína", disse. "Algumas pessoas têm medo dela e outras não. Tudo depende de até que ponto você está disposto a correr riscos".
Para alguns dos visitantes, a tensão que o local demonstra representa parte do atrativo da visita. "A emoção e a ameaça de estar aqui são o motivo para minha vinda", disse Chong Ha-kyun, 51 anos, que prestou serviço militar ao longo da zona desmilitarizada 18 anos atrás, como parte de seu serviço militar obrigatório e de suas obrigações de reservista. ¿Ainda que eu tenha de admitir que as coisas por aqui parecem muito menos tensas do que minha memória costumava indicar".
¿A Coréia do Sul mudou demais, mas o Norte continua congelado no passado", ele disse, expressando a opinião generalizada no país de que os sul-coreanos hoje desfrutam de uma confortável superioridade em termos de riqueza e tecnologia, se não em termos de capacidade nuclear. "Creio que todas as famílias deveriam trazer seus filhos aqui, para que eles saibam que nossa atual prosperidade é protegida por uma linha de arame farpado".
No começo da caminhada, o grupo expressou votos de apoio à reunificação coreana em fitas coloridas que foram amarradas às cercas. Nenhum dos participantes declarou hostilidade ao Norte, ainda que se declarassem cansados das constantes bazófias e testes de armas promovidos pelo país vizinho.
"Não tenho opiniões negativas sobre eles, mesmo que estejam nos provocando", disse Kim Hyun-jin, 30 anos. "Mas admito que fico nervosa por vir aqui. Minha esperança era de que a viagem fosse cancelada". Mais tarde naquele mesmo dia, depois que o grupo havia deixado a zona desmilitarizada para um confortável almoço de carne de porco e soju, uma bebida alcoolica sul-coreana, em um restaurante aconchegante, os participantes se declararam felizes com a visita.
"A excursão de disciplina ficará na minha memória por muito tempo", disse Koo Sun-hee, 36 anos, que estava realizando sua primeira visita à fronteira. "A Coréia do Norte é o país mais próximo de nós, mas parece o mais distante".
Tradução: Paulo Migliacci ME




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