Após analisar as imagens das tomografias, radiologistas fazem anotações sobre os ferimentos para ajudar o trabalho de autópsia
29 de maio de 2009
Foto: The New York Times
Denise Grady
Do New York Times
Uma hora depois de os corpos chegarem à base Dover da força aérea norte-americana, em caixões envoltos pela bandeira dos Estados Unidos, eles passam por um processo que jamais havia sido utilizado para com as baixas fatais de guerras anteriores.
Desde 2004, todos os militares mortos em serviço no Iraque e no Afeganistão passaram por tomografias computadorizadas, e desde 2001, quando se iniciaram os combates no Afeganistão, todos passaram por autópsias, executadas por patologistas do Sistema de Legistas Médicos das Forças Armadas. Em passadas guerras, autópsias de pessoal morto em combate eram incomuns, e tomografias não eram utilizadas.
Os procedimentos combinados resultaram em grande riqueza de detalhes sobre ferimentos causados por balas, explosões, estilhaços e queimaduras -e essas informações revelaram deficiências em blindagem corporal e proteção de veículos, e levaram a melhoras nos capacetes e nos equipamento médicos utilizados no campo de batalha.
O mundo militar inicialmente duvidava da utilizada das tomografias em cadáveres, mas agora absorve avidamente os dados que elas propiciam, dizem os patologistas, segundo os quais em apenas um dia de abril receberam seis pedidos de informações vindos do Departamento da Defesa e das empresas que prestam serviço a ele.
"Criamos um imenso banco de dados que não existia antes", disse o capitão Craig Mallak, 48 anos, patologista da marinha e advogado que comanda o Sistema de Legistas Médicos das Forças Armadas, parte do Instituto de Patologia das Forças Armadas.
Os legistas examinaram cerca de três mil corpos, número superior ao estudado por qualquer outra instituição do mundo, e criaram um registro imensamente detalhado e tridimensional de ferimentos sofridos em combate.
Ainda que as tomografias sejam ocasionalmente definidas como "autópsias virtuais", elas não substituem às autópsias tradicionais. Em lugar disso, adicionam informações e podem ajudar a orientar e acelerar os procedimentos de autópsia ao mostrar aos patologistas onde procurar balas e estilhaços, e ao revelar fraturas e danos aos tecidos de maneira tão clara que a necessidade de uma dissecação mais longa pode ser ocasionalmente eliminada. Os legistas tentam remover o máximo possível de fragmentos metálicos, porque esses pedaços podem fornecer informações sobre as armas dos inimigos norte-americanos.
Uma descoberta levou a uma importante mudança no equipamento médico utilizado para estabilizar a situação de soldados feridos no campo de batalha.
O coronel Howard Harcke, 71 anos, radiologista do corpo de fuzileiros navais que postergou sua reforma a fim de trabalhar com a análise de tomografias em Dover, percebeu algo de peculiar no final de 2005. O tratamento de emergência para um colapso pulmonar envolve inserir uma agulha e tubo na cavidade peitoral a fim de aliviar a pressão e permitir que o pulmão volta se inflar. Mas em um caso, Harcke conseguiu perceber pela tomografia que o tubo era curto demais para atingir a cavidade peitoral. E ele logo encontrou mais um caso parecido, e outro, e mais meia dúzia.
Harcke declarou em entrevista que era impossível afirmar que alguém houvesse morrido porque os tubos eram curtos demais; os soldados todos sofreram outros ferimentos severos. Mas um colapso de pulmão pode ser letal, e usar o tratamento correto é essencial.
Harcke solicitou 100 tomografias aos arquivos e as utilizou para calcular a espessura média da parede torácica nos soldados norte-americanos. Descobriu que o tubo padronizado, de cinco centímetros de comprimento, era curto demais para pelo menos 50% dos soldados. Se o tubo fosse alongado para oito centímetros, 99% dos soldados estariam atendidos. "Os soldados são maiores e mais fortes hoje em dia", disse.
As constatações foram apresentadas ao Serviço Geral de Medicina do exército, que em agosto de 2006 ordenou que os kits de socorro fornecidos aos enfermeiros militares incluíssem apenas os tubos mais longos. "Fiquei emocionado", disse Harcke.
Os legistas também descobriram que havia soldados que estavam morrendo de ferimentos no tronco que poderiam ter sido prevenidos por blindagem que cobrisse porção maior do torso e dos ombros. A informação, que foi divulgada em 2006, fez com que as forças armadas se envolvessem em um esforço urgente para enviar mais placas de blindagem ao Iraque. Foi Mallak que decidiu que autópsias deveriam ser realizadas em todos os soldados mortos no Afeganistão e Iraque. A lei federal lhe confere autoridade para tanto.
"A famílias querem explicações completas", disse. Durante a Segunda Guerra Mundial e a guerra do Vietnã, explicou, as famílias eram simplesmente informadas de que seu ente querido havia morrido a serviço do país. "Minha opinião pessoal é de que as famílias não aceitariam mais uma prática como essa, hoje", disse Mallak.
Os legistas não divulgaram suas normas de autópsia, e não as discutem com frequência. As famílias são informadas de que uma autópsia está sendo realizada e podem solicitar uma cópia do relatório. Há ocasionais objeções da parte de algumas famílias, mas as autópsias são realizadas apesar delas, Cerca de 85% a 90% das famílias solicitam cópias dos relatórios, e cerca de 10% também pedem fotos das autópsias, disse Paul Stone, um porta-voz do sistema de legistas militares. Os parentes também são informados de que podem contatar os legistas para dirimir dúvidas.
"As famílias nos procuram a cada dia solicitando mais informações", disse Mallak. "A pergunta mais frequente da parte delas é querer saber se a pessoa sofreu. Se pudermos responder que não, que a morte foi instantânea, a sensação de alívio é grande. Mas nós não mentimos". Os relatórios são acompanhados por cartas que instruem as famílias a não lê-los sem companhia.
A possibilidade de que um parente tenha morrido queimado é uma das maiores causas de angústia entre as famílias, e uma área na qual uma tomografia pode apresentar desempenho melhor que o de uma autópsia. Em um corpo danificado pelas chamas, a tomografia computadorizada pode ajudar os patologistas a determinar se as queimaduras ocorreram antes ou depois da morte. As tomografias também podem dizer se um corpo encontrado na água morreu por afogamento. As famílias que requisitam os relatórios de autópsia muitas vezes demoram para lê-los, disse Ami Neiberger-Miller, porta-voz do Programa de Assistência aos Sobreviventes de Tragédias, uma organização sem fins lucrativos que auxilia pessoas que tenham perdidos parentes em guerras.
"Acredito que as pessoas imaginem que devem solicitar o relatório mesmo que não pretendam lê-lo de imediato, porque podem desejar saber o que aconteceu, dali a 10 anos", disse Neiberger-Miller. O irmão dela foi morto em Bagdá em 2007, ela conta, e a família ainda não leu o relatório de autópsia.
Liz Sweet, cujo filho de 23 anos, T. J., cometeu suicídio no Iraque em 2003, solicitou o relatório de autópsia e o leu. "Para a nossa família, era necessário", diz Sweet. "Senti-me melhor sabendo que tinha aquele relatório". O caixão de T. J. Sweet chegou selado, e por isso sua mãe pediu a Mallak que uma foto fosse tirada antes da autópsia, para que ela se certificasse de que era mesmo o seu filho o morto.
"Ele foi uma das pessoas mais compassivas que encontrei em todo o processo que tive de enfrentar no Departamento da Defesa", disse Sweet sobre Mallak. As tomografias e autópsias são realizadas em um centro de 6,5 mil metros quadrados na base de Dover, que serve como laboratório de patologia e necrotério. As instalações estão fechadas para jornalistas. As tomografias foram iniciadas em 2004, por sugestão e com verbas da Agência de Pesquisa de Projetos Avançados de Defesa (Darpa). A organização se inspirou na Suíça para o uso de tomografias como forma de autópsia virtual; os suíços empregam o método há 10 anos.
Agora, a idéia das autópsias virtuais começou a ganhar terreno junto a legistas de todos os Estados Unidos, que estão ávidos por utilizar o método em casos de homicídio mas também para descobrir as causas de morte de pessoas pertencentes a grupos religiosos tradicionalistas, que proíbam a realização de autópsias comuns. A tomografia também ajudam os patologistas a planejar autópsias limitadas, caso uma família considere que um exame completo é invasivo demais.
John Gets, que dirige o programa de tomografia do sistema de legistas militares, disse que leitoras móveis de tomografia também poderiam ser usadas para examinar múltiplas vítimas de desastres como o furacão Katrina, a fim de ajudar na identificação e de determinar se algumas das vítimas foram mortas como resultado de crimes e não de acidentes. As leitoras tomográficas das forças armadas, especialmente projetadas para tomografias sequenciais de corpos inteiros, causam inveja aos legistas e laboratórios de criminologia do restante do país, e diversos Estados pediram conselhos a Mallak e seus colegas sobre a criação de sistemas semelhantes.
Harcke disse que a tecnologia poderia ajudar a elevar a proporção de autópsias em hospitais civis, que agora só as realizam em entre 5% e 10% dos casos. "Esperamos retornar à situação que existia 50 anos atrás", disse, "quando as autópsias eram parte importante do modelo médico e continuávamos a aprender depois da morte".
Tradução: Paulo Migliacci ME




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