Elisabeth Bumiller
Do New York Times
Um relatório não-divulgado do Pentágono conclui que cerca de um em cada sete dos 534 prisioneiros já transferidos para o exterior do centro de detenção da Baía de Guantánamo, Cuba, retornou ao terrorismo ou à atividade militante, de acordo com funcionários do governo.
A conclusão pode fortalecer argumentos de críticos que advertem contra a transferência ou libertação de mais detidos no contexto do plano do presidente Barack Obama de fechar a prisão até janeiro. Relatórios anteriores do Pentágono sobre reincidência em Guantánamo foram encarados com ceticismo por grupos de liberdades civis e criticados pela falta de detalhes.
Em janeiro, o Pentágono prometeu que o relatório mais recente seria divulgado logo, mas Bryan Whitman, porta-voz do órgão, disse nesta semana que as constatações ainda estavam "sob revisão".
Dois oficiais do governo, que falaram sob condição de anonimato, disseram que a divulgação do relatório estava sendo adiada por funcionários do Departamento de Defesa, que temem provocar indisposição na Casa Branca num momento em que até congressistas democratas demonstram preocupação com o plano de Obama para fechar Guantánamo.
Na quarta-feira, Obama enfrentou um tipo diferente de resistência, quando se encontrou na Casa Branca com ativistas de direitos humanos que lhe disseram que se oporiam a qualquer plano que detivesse suspeitos de terrorismo sem acusações formais. A Casa Branca anunciou que Obama vai dar mais detalhes sobre seus planos para os prisioneiros de Guantánamo em um discurso na quinta-feira.
Para realocar os 240 prisioneiros atualmente na base de Guantánamo, oficiais do governo disseram que o plano vai acabar combinando o envio de alguns para o exterior para serem libertados, a transferência de outros para a custódia de governos estrangeiros e a mudança do restante para instalações nos Estados Unidos para julgamentos militares, civis ou, talvez em alguns casos, detenções sem acusação.
Mas a possibilidade de que prisioneiros entrem em solo americano gerou forte oposição no Congresso. Para mostrar seus temores, o Senado aprovou na quarta-feira, com 90 votos a favor e seis contra, o corte dos US$ 80 milhões que haviam sido pedidos por Obama para fechar a prisão e, com vitória esmagadora, uma segunda emenda exigindo que uma avaliação de ameaça seja preparada para cada prisioneiro agora em Guantánamo tratando do que poderia acontecer no caso de liberação.
O diretor do FBI, Robert Mueller, disse na quarta-feira que transferir detidos para prisões americanas representaria riscos como "a possibilidade de indivíduos realizando ataques nos Estados Unidos". Mas Michele A. Flournoy, subsecretária de política de defesa, disse sobre os detidos: "Acredito que haverá aqueles que precisarão acabar ficando nos Estado Unidos".
Oficiais do Pentágono afirmaram que não houve pressão da Casa Branca de Obama para abafar o relatório sobre os detidos de Guantánamo transferidos para o exterior durante o governo Bush. Os oficiais disseram que acreditam que os funcionários do Departamento de Defesa, alguns deles remanescentes da administração Bush, estavam agindo para proteger seus empregos.
O relatório é objeto de inúmeros pedidos de acesso a informação requisitados por organizações de mídia, e Whitman espera que ele seja divulgado em breve. O documento, do qual o New York Times obteve uma cópia, afirma que o Pentágono acredita que 74 prisioneiros libertados de Guantánamo retornaram ao terrorismo ou atividade militante, o que corresponde a uma taxa de reincidência de cerca de 14%.
O relatório foi entregue por um oficial que disse que o atraso em sua divulgação estava criando "teorias conspiratórias" desnecessárias sobre a demora. Um funcionário do Departamento de Defesa disse que havia pouca vontade do Pentágono para liberar o relatório por ele ter se tornado radiativo politicamente para Obama.
"Se nós o segurarmos, então todo mundo vai dizer que é algo político e para proteger a administração Obama", disse o oficial, que pediu anonimato devido à sensibilidade da situação. "E, se nós o soltarmos, então todo mundo vai dizer que é um ataque a Obama."
Afirmações anteriores do Pentágono de que um número substancial de ex-prisioneiros de Guantánamo havia retornado ao terrorismo foram fortemente criticadas por grupos de liberdades civis e direitos humanos, que disseram que a informação era vaga demais para ter credibilidade e equivalia a uma propaganda em favor da manutenção do funcionamento da prisão. O Pentágono começou com essas declarações em 2007, mas parou no início deste ano, pouco antes de Obama assumir o poder.
Entre os 74 ex-prisioneiros que, segundo o relatório, estão novamente engajados no terrorismo, 29 foram identificados nominalmente pelo Pentágono, incluindo 16 mencionados pela primeira vez no relatório. O Pentágono disse que os 45 restantes não poderiam ser nomeados por causa da segurança nacional e questões relacionadas à inteligência.
No relatório, o Pentágono confirmou que dois ex-prisioneiros de Guantánamo cujas atividades terroristas já haviam sido registradas tinham de fato retornado à luta. Eles são Said Ali al-Shihri, líder do braço da Al-Qaeda no Iêmen, que é suspeito de ter participado do mortal ataque a bomba à embaixada americana em Sana, capital do país, no ano passado, e Abullah Ghulam Rasoul, comandante talibã afegão, também conhecido como mulá Abdullah Zakir.
O Pentágono não deu nenhuma forma de apurar seus 45 reincidentes sem nome e poucos dos 29 identificados puderam ser confirmados, de forma independente, como engajados no terrorismo desde sua soltura. Muitos dos 29 são simplesmente descritos como associados a terroristas ou ao treinamento de terroristas, sem mais detalhes.
"Faz parte de uma campanha para ganhar corações e mentes na história a favor de Guantánamo", disse Mark P. Denbeaux, professor da Escola de Direito da Universidade Seton Hall que representou os detidos de Guantánamo e co-escreveu estudos fortemente críticos aos relatórios de reincidência anteriores do Pentágono. "Eles querem poder falar que realmente havia gente má por lá."
Denbeaux reconhece que alguns dos detidos nomeados haviam participado de atos terroristas verificáveis desde sua libertação, mas ele afirma que sua pesquisa demonstra que esse número é pequeno. "Nunca dissemos que não havia alguns que retornariam à luta", disse Benbeaux. "Parece ser inevitável. Nada é perfeito."
Especialistas em terrorismo indicam que a taxa de reincidência de 14% é bem menor do que a de prisioneiros nos Estados Unidos, que, segundo eles, pode chegar a até 68% três anos após a libertação. Eles também afirmam que, embora os americanos tenham uma menor tolerância à reincidência entre prisioneiros de Guantánamo, não existe evidência de que qualquer um dos liberados estivesse envolvido em operações elaboradas como os ataques de 11 de setembro.
Além de Shihri e Rasoul, ao menos três outros entre os 29 nomes apresentados participaram de atividades verificáveis de terrorismo ou fizeram ameaças de atos terroristas.
Tradução: Amy Traduções




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