Notícias » Mundo » Mundo

 Jacarta luta para evitar colapso total do trânsito em 2 anos
16 de maio de 2009 14h36

Grande número de veículos trafegam por uma das principais estradas de Jacarta. Foto: AFP

Grande número de veículos trafegam por uma das principais estradas de Jacarta
Foto: AFP

Norimitsu Onishi

Do New York Times News


Quando esta cidade de engarrafamentos colossais começou com a carona solidária há algum tempo, ela inadvertidamente deu origem a uma profissão totalmente nova: jóquei.

Por menos de um dólar, motoristas contratam um ou dois jóqueis para ganhar acesso aos corredores "3 em 1" da cidade, faixas para veículos de alta ocupação. O jóquei é essencialmente um passageiro extra que ajuda condutores diários a driblarem as regras da carona solidária, tornando o percurso em direção ao centro de Jacarta um pouco menos lento.

Mas o município culpa os jóqueis pela piora dos congestionamentos da cidade. As autoridades preparam buscas e enviam os jóqueis a centros de detenção, onde eles são obrigados a esfregar o chão e fazem flexões por alguns dias. E, agora, a cidade, que realiza mudanças periódicas para renovar todo o sistema de carona solidária, está considerando substituir o sistema por outro de cartões eletrônicos que tornarão os jóqueis obsoletos.

A contagem regressiva pode ter começado, mas não apenas para os jóqueis. Em 2011, autoridades de Jacarta prevêem que a cidade vai vivenciar o "engarrafamento total", a paralisia completa. Hoje, engarrafamentos custam aos cofres públicos US$ 1,2 bilhão por ano em tempo e combustível perdidos, assim como problemas de saúde.

Nada, no entanto, impediu o crescimento do serviço dos jóqueis. "Não acho que o sistema 3 em 1 funcione, porque o número de jóqueis e carros está aumentando ao mesmo tempo", disse Asep Suherman, 19, que se tornou jóquei aos 10 anos. Ele trabalha nos horários de rush da manhã e do final da tarde e passa o tempo intermediário relaxando em uma mesquita. "Mas mesmo não funcionando, quero que eles estendam as horas, porque o sistema é bom para nós pobres".

Asep estava recentemente entre dezenas de mulheres, homens, meninos e famílias inteiras enfileirados na entrada de uma via, acenando para os carros com um dedo indicador levemente levantado. Os jóqueis se dispersaram quando um carro da polícia fez uma ronda superficial, mas retornaram a seus lugares mesmo antes das luzes azuis piscantes do veículo terem desaparecido no crepúsculo de Jacarta.

E assim Jacarta foi adiante, a velocidade reduzida, em um estado de trânsito incerto que muitos associam à própria Indonésia, ou pelo menos à sua perspicácia em driblar códigos, e ao vigor de sua economia informal. De acordo com o município, 236 novos carros e 891 novas motos surgem diariamente em Jacarta, em um crescimento anual de 9,5%. O número de novas ruas que a cidade tem construído é quase zero.

Hendah Sunugroho, que supervisiona o transporte terrestre na agência municipal responsável, disse que a cidade está pensando em substituir o sistema 3 em 1 por um sistema de cartões eletrônicos, um pedágio eletrônico chamado ERP, de modo que a receita vá para os "governos locais, não para os jóqueis".

"Com o ERP, os donos de carro não precisam de jóqueis", disse Hendah, acrescentando que os jóqueis foram um dos fatores que fizeram do "3 em 1 um fracasso".

Mas alguns especialistas de trânsito independentes afirmam que o verdadeiro problema está na deplorável rede de transporte público. Devido a mau planejamento e mau uso dos recursos públicos, afirmam, propostas variadas como uma moderna ferrovia e um monotrilho nunca saíram do estágio de planejamento. Nem todos têm algo ruim a dizer sobre os jóqueis. Rusdi Muchtar, antropólogo do Instituto de Ciências Indonésio, disse que o 3 em 1 funcionou como um sistema de ¿seguridade social informal¿.

"Existe uma ligação emocional entre o proprietário do carro e o jóquei, entre o pobre e aqueles que podem arcar com a compra de um carro e que ainda são uma minoria neste país", disse Rusdi. "Donos de carro sentem uma satisfação emocional de estarem fazendo uma boa ação". Talvez por essa razão, ou talvez por preocupações mais prosaicas de segurança, a maioria dos condutores prefere empregar crianças como seus jóqueis.

Angga, um menino de 11 anos que trabalha como jóquei depois da escola, tinha acabado de voltar de sua primeira carona, radiante. Ele tinha ganhado pouco menos de US$ 1 e pagou menos de 20 centavos de dólar para voltar de ônibus até o ponto inicial.

Uma van preta Toyota encostou logo depois, e Angga entrou. Como a maioria dos jóqueis, Dartini, uma mulher de 53 anos cujos nove filhos também são jóqueis, acredita que o sistema municipal 3 em 1 fez pouco para acabar com o congestionamento. Em seus 10 anos na função, disse Dartini, o número de jóqueis em sua esquina habitual cresceu de 10 para 200. A competição ficou mais feroz, mas o número de consumidores também cresceu, e a tarifa média paga por carona aumentou dez vezes, para pouco menos de US$ 1.

Nesse dia particular, Dartini estava com três de seus filhos, inclusive Maya, sua filha de 14 anos. Maya trabalha como jóquei depois da escola desde a primeira série, embora ela às vezes também toque violão para motoristas presos no trânsito. "É lá que eu escondo meu violão", disse Maya, apontando para um ponto vago ao longe. "Se levar para casa, as crianças do meu bairro vão rir de mim".

Dartini orientou sua filha a "gritar e sair do carro" caso recebesse alguma proposta indecente, como aconteceu uma vez. "É claro, invejamos que eles tenham dinheiro e nós não", disse a mãe. "Só esperamos que um dia também tenhamos a chance de comprar um carro - qualquer um, desde que seja um carro".

Asep, o rapaz de 19 que é jóquei desde os 10 anos, disse que encontrar clientes ficava mais difícil à medida que ele crescia. Nas manhãs, ele conta com três regulares que têm contratado seus serviços nos últimos dois anos, algumas vezes lhe pagando US$ 2, ou US$ 5 quando é Id al-Fitr, um feriado celebrado no fim do mês sagrado islâmico do Ramadã.

Mas sem clientes no final da tarde, Asep, que viaja de graça entre Jacarta e sua casa no subúrbio surfando no topo de trens, já estava pensando em começar a trabalhar de noite. Ele chamou outra jóquei, uma jovem com camiseta amarela e grande sorriso, para irem juntos até a estação de trem. Mas ele parou com o flerte, possivelmente porque viu sua mãe e seu chamativo xale púrpura ainda procurando por uma carona.

"Conheci uma garota uma vez", disse. "Mas era difícil demais para ela por eu ser jóquei". Mas recentemente, dois amigos seus, jóqueis que se encontraram exatamente naquele local, se casaram. "Eles têm um bebê de cinco meses agora", disse, "e todos os três são jóqueis hoje".

Tradução: Amy Traduções

The New York Times
The New York Times