Para especialista, encontros de Obama com líderes latino-americanos como Hugo Chávez serão o grande destaque da Cúpula das Américas
Foto: Reuters
Moreno Osório
Direto de Porto Alegre
No início da semana, Barack Obama anunciou a flexibilização do embargo a Cuba, colocando fim a décadas de isolamento total da ilha em relação ao poderoso vizinho. Com o gesto, o presidente americano quis dizer ao mundo que está aberto ao diálogo, que é flexível e que aceita a soberania das nações. Mas a decisão de diminuir restrições antes que o assunto fosse plenamente discutido na Cúpula das Américas, que começou ontem em Trinidad e Tobago, demonstra também uma postura unilateral de quem deseja manter a soberania dos Estados Unidos no mundo. Uma ação de quem, apesar de tudo, pensa em defender seus interesses.
"Obama não está disposto a permitir que os Estados Unidos deixem de ser a maior potência mundial, e isso está diretamente relacionado ao posicionamento sobre o embargo ao governo de Raúl Castro", afirma Daniel Santiago Chaves, historiador e pesquisador do Laboratório do Tempo Presente, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por isso, para o especialista, talvez o líder dos Estados Unidos não seja o "melhor amigo" da América Latina. "A opinião pública ainda está apaixonada por Obama e parece acreditar que ele é a porta de entrada para a multipolaridade". Para Chaves, não são bem assim que as coisas funcionam.
"Ao antecipar a decisão sobre o embargo, Obama quis dizer algo como 'essa é a minha posição, aceitam ou não?'", analisa o historiador. A oferta, no entanto, não vai evitar que Obama ouça reclamações e críticas durante o encontro em Port of Spain. "Existem muitas concessões a serem feitas, vai haver debate, vai haver discussão, até porque essa medida é perfumaria, até Fidel Castro já disse isso", complementa Chaves. Para ele, o "embate" entre a grande potência e seus viznhos latino-americanos será o grande momento da cúpula. "Principalmente o encontro de Obama com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez".
Chaves chama a atenção para a postura dos líderes latino-americanos diante da nova liderança americana, principalmente os alinhados com Chávez. "Obama, apesar de querer defender seus interesses, representa uma negociação maleável, flexível. Muito diferente de seu antecessor, George W. Bush. Para os mais 'agressivos' era muito mais fácil atacar um texano intolerante do que um negro, advogado e sindicalista", compara. Ou seja, o discurso inflamado de Hugo Chávez e Evo Morales talvez já não funcione com Obama. Diante da expectativa para esses encontros, a própria pauta elaborada pela Cúpula fique de lado.
E a Cúpula?
No seu site na Internet, a Cúpula das Américas apresenta "prosperidade humana, energia, segurança, mudança climática e desenvolvimento sustentável" como os temas principais da sua quinta edição. No entanto, esses tópicos passam longe da grande mídia e, fora alguma declaração esparsa, sequer se ouviu algum líder nacional comentando esses assuntos. Diante da importância do encontro de Obama com os líderes latino-americanos e tendo Cuba na pauta da última semana, as discussões do evento parecem ter ficado em segundo plano.
Daniel Santiago Chaves vai além e explica que o motivo é mais institucional do que factual. "A Cúpula das Américas é um fórum voltado para as tendências autônomas da América do Sul, mas é um tipo de diálogo que ainda precisa amadurecer", diz. De qualquer maneira, o fato é que Cuba está no centro da agenda (apesar de o ministro do Comércio e Indústria de Trinidad e Tobago, Mariano Browne, ter dito o assunto não está previsto nas sessões plenárias) e deve gerar o primeiro desafio cara-a-cara para o centro das atenções do evento, Barack Obama.
- Redação Terra

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