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 Falsa travessia México-EUA "espetacularizaria" realidade
21 de março de 2009 11h30 atualizado em 24 de março de 2009 às 08h57

Ana Ávila

Direto de Porto Alegre


A simulação da tentativa de cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos "espetaculariza" uma situação complexa que coloca a vida de homens e mulheres em risco, de acordo com pesquisadoras de temas ligados à imigração ouvidas pelo Terra.

"A transformação em turismo banaliza uma experiência que é traumática para quem a enfrenta", diz a antropóloga e professora do Programa de Pós-Graduação em História e Geografia da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) Gláucia de Oliveira Assis sobre a simulação realizada em uma cidade mexicana, a cerca de 3 mil km da fronteira real.

Para passar pela experiência, os interessados pagam cerca de R$ 25. O "espetáculo" acontece no povoado El Alberto, um dos mais pobres da região. De acordo com a professora da Udesc, este tipo de turismo não leva em conta o drama vivido pelos imigrantes que buscam condições de vida melhores do outro lado da fronteira. "Enquanto se faz turismo com isso, tem gente morrendo na tentativa de cruzar a fronteira", destaca Gláucia.

Denise Cogo, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, tem ponto de vista semelhante. Ela também considera que o turismo praticado no interior do México "espetaculariza a realidade pobre da região". Denise compara a simulação de travessia da fronteira com os EUA ao turismo em favelas, realizado no Brasil - em que turistas, especialmente de fora do país, pagam por uma visita orientada a favelas como a da Rocinha, a maior da América Latina.

Além disso, Denise considera que "a presença da temática da imigração cada vez mais na mídia também contribui para a geração de projetos como o desenvolvido em El Alberto". É uma maneira de os moradores da região, em sua maioria bastante pobres, buscarem uma fonte de renda.

Quanto à política americana para os imigrantes, a expectativa de Denise é de que Obama se afaste da postura adotada pela União Européia, que cada vez mais endurece as medidas para restringir a entrada de ilegais, tratando o imigrante como "bode expiatório da crise econômica". "Não dá para tratar a temática da imigração como se fosse uma temática policial, mas dos direitos humanos", afirma a professora.

Porém, na última quarta-feira, embora tenha afirmado que os imigrantes ilegais que já estão nos Estados Unidos receberão uma oportunidade, Obama destacou que eles violaram a lei e enfrentarão dificuldades. O presidente americano defendeu uma reforma migratória "integral" nos Estados Unidos, e disse que os imigrantes ilegais "não terão um caminho fácil" no país, onde vivem mais de 12 milhões de estrangeiros em situação irregular. "É preciso dizer para os imigrantes ilegais que violaram a lei. Não vieram até aqui pelo caminho correto (...) Terão que pagar uma multa significativa. Vão aprender inglês, vão para o final da fila para não prejudicar quem entrou no país corretamente", disse.

"Depois que fizerem isto, por um certo tempo, poderão obter a cidadania, mas não é algo garantido e nem automático. Tem que ser conquistado, mas vamos lhes dar uma oportunidade", afirmou Obama ao dizer que não haverá uma "anistia instantânea" para os imigrantes ilegais, ninguém vai ter "um caminho fácil".

Segundo Obama, "os americanos apreciam e acreditam na imigração, mas não podemos ter uma situação na qual as pessoas entrem pela fronteira sem qualquer controle... Este é o tipo de enfoque integral que temos que ter", assinalou o presidente em um ato em Costa Mesa, na Califórnia. Obama estimou que é preciso reforçar as fronteiras, mas também responsabilizar os "empregadores que exploram" os imigrantes ilegais.

Ainda assim, Denise acredita que Obama não deve cair na demagogia do reforço de fronteira defendida, por exemplo, pelo governador do Texas, Rick Perry, que pediu o envio de mais de mil soldados para enfrentar a crescente violência na região fronteiriça. Ela espera que o presidente americano consolide a posição menos conservadora em relação à imigração que demonstrou antes de chegar ao governo americano. "Os Estados Unidos são uma nação construída pelos imigrantes e eles não podem, na crise, ser olhados de maneira mais discriminatória", afirma Denise.

Denise acredita que levantar muros seja uma medida que não colabora para resolver a questão da imigração. "Hoje, as pessoas precisam ter direitos independente do local onde nasceram", diz. De acordo com ela, o atual cenário econômico mundial não justifica a "culpabilização" do imigrante, pois muitos estão retornando para seus países de origem em função do desemprego nos países de primeiro mundo. Glaúcia pensa o mesmo a respeito da fronteira entre México e Estados Unidos. "As pessoas estão buscando rotas alternativas", diz. Para Denise, querer impor mais barreiras diante da atual situação cria a idéia de xenofobia.

Redação Terra