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 Leal mas desbocado, braço direito de Obama tenta se conter
26 de janeiro de 2009 12h50 atualizado às 14h29

Rahm Emanuel observa pronunciamento de Obama. Foto: AFP

Rahm Emanuel observa pronunciamento de Obama
Foto: AFP

Mark Leibovich


No começo do mês, Barack Obama estava em uma reunião com a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, e outros legisladores, quando Rahm Emanuel, o chefe de seu gabinete começou a estalar os dedos nervosamente.

Obama se voltou para Emanuel e reclamou do barulhento hábito.

Emanuel reagiu com alguns estalidos especiais, depois de levar a mão bem próxima à cabeça de Obama - como um irmão caçula disposto a irritar.

O episódio, testemunhado por uma fonte que presenciou o incidente, revela algumas das verdades essenciais sobre Emanuel: ele é ousado, se sente muito confortável em companhia de seu novo chefe e nos últimos dias parecia acompanhar Obama a todos os lugares - reuniões, palanques e numerosas ocasiões fotográficas.

Em uma das primeiras fotos de Obama no Gabinete Oval, lá estava Emanuel em pé por trás da mesa do presidente; na cerimônia de posse, as fotos o mostravam fazendo um gesto brincalhão de desdém aos seus antigos colegas na Câmara; na sexta-feira, quando o presidente se reuniu com líderes do Congresso, ele de novo estava presente.

Seria possível argumentar que se tornou o segundo homem mais poderoso do país e, depois de apenas alguns dias de governo, parece ser um dos mais poderosos chefes de gabinete nos governos recentes. Emanuel se tornou tema de um cartoon na revista Mad, venceu um concurso de "assessor mais gostoso de Obama" promovido pelo site Gawker.com e se tornou um dos alvos preferenciais dos paparazzi de Washington.

Nos últimos meses, Emanuel desempenhou papel essencial na seleção e no processo de cortejo de quase todos os integrantes do gabinete e dos selecionados para posições chave na Casa Branca.

Conhecido como um defensor feroz de seu partido, ele ainda assim tem levando a sério suas funções como embaixador junto aos republicanos, entre os quais o senador John McCain, derrotado por Obama na eleição presidencial. Sua influência se fez sentir em incontáveis decisões; em reuniões, dizem funcionários do governo, Obama muitas vezes permite que Emanuel tenha a primeira - e a última - palavra.

"É perceptível a maneira pela qual ele presta atenção a Rahm e reage às sugestões que ele faz", disse Ron Klain, o chefe de gabinete do vice-presidente Joe Biden. "É perceptível que a opinião de Obama está sendo influenciada pelas posições dele".

Um dos motivos para que Emanuel, 49 anos, venha atraindo tamanha atenção é que ele parece estar tentando se reformar.

Como é que o combativo, bombástico e ocasionalmente impulsivo ex-deputado se integrará ao clima frio, amistoso e deliberado da equipe que acompanhou Obama desde o começo de sua jornada? E como ele conseguirá se acomodar em um governo que tem como objetivo fomentar o bipartidarismo? Estamos falando de alguém que, em artigo para a revista Campaign and Elections, escreveu certa vez que "não existe republicano que não seja sujo", e que dois anos atrás, de acordo com um livro a seu respeito, anunciou à sua equipe que "os republicanos são seres malignos que merecem levar uma sarrafada na cabeça".

O esforço de criar uma nova aura
Fica claro para seus amigos e colegas que Emanuel está tentando se conter, falar mais baixo e até mesmo reduzir seu uso de palavrões.

"Como chefe de gabinete da Presidência, é preciso assumir a aura, a imagem e, em certos casos, os valores políticos da pessoa para quem você trabalha", disse o ex-deputado Ray LaHood, republicano do Illinois que se tornou secretário do Transporte no novo governo. "Acredito que ele esteja começando a tentar se recriar à imagem de Obama."

Emanuel reconheceu em uma entrevista que o estereótipo que o mostra como sujeito esquentado tem certa base. Mas ele afirma que essa imagem é tanto exagerada quanto antiquada.

"Não grito com as pessoas, não subo na mesa", ele disse. "Estar em campanha é uma coisa. Ser chefe gabinete da presidência é diferente. A pessoa precisa de diferentes ferramentas".

Ainda assim, o destaque dele junto à mídia e seu temperamento conflitam com os de passados chefes de gabinete que serviram na Casa Branca. É comum que eles sejam homens discretos, para os quais "gabinete" é mais importante do que "chefe", como sugeriu Andrew Card Jr., por muito tempo chefe de gabinete do ex-presidente George W. Bush, em conversa com Emanuel no mês passado.

Emanuel tinha esperanças de se eleger presidente da Câmara, no futuro, mas aceitou um posto caracterizado por passagens curtas - em média apenas dois anos e meio por ocupante - por um desgaste imenso e pela necessidade de subordinar suas ambições pessoais aos interesses do presidente.

Ele não tem o costume de desaparecer discretamente em meio ao panorama. Como membro da equipe de Bill Clinton na Casa Branca, deputado federal que serviu três mandatos representando um distrito em Chicago e presidente do Comitê de Campanha do Partido Democrata para o Congresso, ele era visto por muitos como praticante de uma forma agressiva e impiedosa de política.

Obama reconheceu o fato em um discurso brincalhão de homenagem a Emanuel, em 2005. Ele disse que Emanuel, que estudou balé, havia sido "o primeiro a adaptar O Príncipe, de Maquiavel como número de dança", em "um número com muitos chutes abaixo da linha da cintura". Quando Emanuel perdeu parte de seu dedo médio em um acidente de trabalho na lanchonete Arby's, na adolescência, brincou Obama, "isso o deixou praticamente mudo".

O vídeo do discurso se tornou uma sensação na internet, recentemente, e reforçou a opinião de alguns republicanos, que vêem na indicação de Emanuel, como diz o deputado John Boehner, líder da minoria na Câmara, "uma escolha irônica para um presidente eleito que prometeu mudar Washington e promover um modo mais civilizado de fazer política".

Embora reconheçam que ele possa ser um tanto exibido, ocasionalmente, os amigos de Emanuel afirmam que ele se moderou consideravelmente, ao longo dos anos.

"Ele é mais sóbrio", agora, disse David Axelrod, assessor sênior da Casa Branca e velho amigo de Emanuel, para quem boa parte da reputação exagerada do amigo é "puro mito". Axelrod diz que "boa parte dessa reputação se deve ao modo de agir dele quando jovem".

Em ação antes de o dia nascer
No final da tarde de sexta-feira, em sua primeira semana de Casa Branca, Emanuel estava acomodado em seu escritório, resfriado, com olheiras e aparentando cansaço. "Todo mundo pergunta se eu estou me divertindo", ele disse. "Mas diversão não é a primeira palavra que me ocorre."

Ele havia acordado às 5h, como de hábito, nadado 1,5 quilômetro, lido os jornais e, por volta das 7h, já estava no escritório, para uma reunião com seu pessoal às 7h30min. Ele teria também uma reunião sobre o Afeganistão na sala de guerra, uma reunião de lideranças, uma conversa com o líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, uma reunião com o senador Orrin Hatch, reuniões orçamentárias e diversas conversas com o presidente, ao longo do dia.

Emanuel rejeitou, na entrevista, qualquer indicação de que esteja se reinventando, em seu novo posto. Mas está ciente de que precisa se integrar a uma cultura criada ao longo de dois anos de campanha, e a "um grupo que tomou parte de uma jornada conjunta".

Obama já tinha decidido que seu colega de Chicago seria convidado para a chefia de gabinete muito antes de ser eleito. O atrativo era a experiência de Emanuel na Casa Branca e no Congresso, e o que o presidente definiu como "o pacote completo" de esperteza política, domínio das questões de governo e pragmatismo, além de sua reputação como negociador habilidoso. "Ele sabe que, em uma negociação, chega a hora de abandonar as armas e chegar a um compromisso", diz o deputado Adam Putnam, republicano da Flórida.

Emanuel inicialmente resistiu a aceitar a proposta. Mas cedeu diante da insistência de Obama, que afirmou que o momento era histórico e que precisava da ajuda de Emanuel para enfrentar as imensas tarefas que o aguardavam. O então presidente eleito também garantiu a Emanuel que sua função seria a de "número dois" ou de "braço direito", disse uma pessoa que acompanhou a negociação entre eles.

Desde que aceitou o posto, Emanuel tem dedicado muito tempo a contactar legisladores. Reid distribuiu o número de celular pessoal de Emanuel - a pedido deste - em um encontro com 40 senadores democratas, este mês. "Ele parece conversar com todos os senadores, todos os dias", disse o senador Charles Schumer, democrata de Nova York.

E demonstra igual solicitude para com os republicanos. Nos dias em que não nada, Emanuel malha - e negocia - na academia da Câmara: 25 minutos na bicicleta estacionária, 20 minutos de elíptico, 120 abdominais, 55 flexões e muitas conversas suarentas com seus antigos colegas. Em recente encontro na academia com o deputado republicano Peter Hoekstra, do Michigan, Emanuel conseguiu o apoio dele à indicação de Leon Panetta para o comando da Agência Central de Inteligência, a CIA.

Emanuel cometeu alguns erros iniciais - as conversas com o governador Rod Blogojevich, de Illinois, sobre o substituto de Obama no Senado; ou esquecer de alertar a senadora Dianne Feinstein, presidente do Comitê de Inteligência do Senado, sobre a indicação de Panetta.

A seleção de LaHood para o Departamento do Transporte demonstra a influência de Emanuel junto a Obama. Depois que o chefe de gabinete consultou o ex-deputado sobre seu interesse em participar do governo, o chamou para uma reunião em Chicago com o presidente eleito.

Foi uma conversa pessoal de 30 minutos entre Obama e LaHood.

"Olha, Rahm Emanuel gosta muito de você", quando LaHood estava se preparando para partir. "Ele está realmente pressionando quanto à sua indicação. Não é que eu não queira, mas..."

Poucos dias mais tarde, LaHood foi anunciado como secretário do Transporte.

Trocando gracejos com o chefe
Em reunião com Obama e um grupo de legisladores de ambos os partidos, na sexta-feira, na Casa Branca, o líder da maioria democrata na Câmara, Steny Hoyer, brincou que Emanuel estava ocupado demais para atender seus telefonemas, e por isso ele ligava direto para o presidente. Obama disse que não se incomodava em atender o telefone de seu chefe de gabinete ¿uma brincadeira sobre a ocasião, semanas atrás, em que Emanuel estava com Obama no carro e, ao atender uma ligação de Hoyer, entregou o celular ao presidente, alegando que estava ocupado demais para conversar.

Em reuniões, não é incomum que Obama e Emanuel se envolvam em trocas de gracejos. Um funcionário da Casa Branca recorda uma ocasião, na semana passada, em que Obama disse algo como "bem, eu pretendia fazer isso, mas não queria ver Rahm resmungando durante meia hora".

Mas as coisas nem sempre serão tão agradáveis para Emanuel. "Ele levará a culpa por muita coisa", disse o deputado Tom Cole, republicano de Oklahoma, sobre seu antigo colega.

Dizer não é uma parte essencial do trabalho de um chefe de gabinente. Disputas internas são inevitáveis, bem como inimizades e rivalidade.

Além dos membros do gabinete e do vice-presidente, todo um quadro de "assessores de primeiro escalão" estará disputando a atenção do presidente. Entre eles estão Peter Rouse (chefe de gabinete de Obama no Senado); Valerie Jarrett (amiga muito próxima da família Obama); e Axelrod, cujo escritório fica um pouco mais perto do Gabinete Oval do que o de Emanuel. O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, um dos mais próximos assessores de campanha e legislativos de Obama, também terá sempre abertas as portas do gabinete presidencial.

Emanuel estava no cargo há quatro dias, no final da sexta-feira, mas parecia cansado o suficiente para ter trabalhado quatro anos.

Ele estava acomodado no sofá, espantando periodicamente uma imensa mosca que insistia em voar pelo seu escritório. A expectativa dele era a de conseguir terminar o trabalho em tempo para um jantar de sabá judaico com alguns amigos. Também tinha uma consulta de fisioterapia por um músculo dolorido no pescoço, e estava com saudades de seus filhos ¿ de 8, 10 e 11 anos - que estavam em Washington na semana da posse mas voltariam em breve a Chicago, onde continuarão vivendo por enquanto. "Ser o pai que eu desejaria ser é muito difícil", ele disse, em referência às exigências de seu novo cargo.

Foi quando apareceu Peter Orszag, o diretor de orçamento da Casa Branca.

"Orz, algum problema?", perguntou Emanuel. "Você pode me dar um minuto ou precisa de alguma coisa já?"

Orszag precisava de alguma coisa.

Emanuel saiu da sala, voltou e começou a falar sobre a lealdade que seu pessoal tende a desenvolver.

"Eu exijo tanto do meu pessoal quanto exijo de mim mesmo", disse.

E então Obama apareceu na porta.

"Senhor Presidente!", disse Emanuel, saltando do sofá com um movimento que parecia passo de dança, e os dois deixaram a sala caminhando juntos.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

Redação Terra