Para muitos, estar presente em um evento histórico é melhor que acompanhá-lo pela televisão. A posse de Barack Obama foi exceção: quase impossível de testemunhar por inteiro em pessoa, ainda mais difícil vivenciá-la plenamente pela tela.
Deve ser por isso que a CNN alugou um satélite para tirar fotos do espaço das multidões ao redor do Capitólio e do National Mall. E também porque a NBC exibiu um homem de Nova Jersey que não conseguiu atravessar a aglomeração da barreira de segurança a tempo de ver o discurso de Obama nos telões. Ele acabou ligando para um amigo que filmou sua televisão, permitindo que o homem testemunhasse em primeira-mão a história via celular.
Foi um dia de paradoxos, assim como de precedentes. Uma nação emocionada ficou nas pontas dos pés para enxergar o juramento do primeiro presidente afro-americano dos Estados Unido, após uma eleição em que a raça acabou sendo um fator menor.
O momento excepcional foi enquadrado pelos comentários e cobertura mais previsíveis e familiares: os âncoras, compelidos a dizer alguma coisa, construíram metáforas banais e expressões hiperbólicas de admiração ("nossa versão secular de um milagre," segundo um comentador da CNN), que mal conseguiam expressar a realidade que acompanhavam ao vivo. A melhor narrativa não teve palavras: os berros e gritos ensurdecedores que saudavam Obama e sua esposa Michele no momento em que saíram da limusine e andaram de mãos dadas acenando para a multidão.
A primeira dança do primeiro-casal no Baile da Vizinhança, embalados pela interpretação de Beyoncé de At Last, de Etta James. O evento que comentadores descreveram repetidas vezes como uma catarse "só possível na América" já teve seus paralelos internacionais. Mas nenhuma posse gerou as multidões e emoções como as em torno de Obama. Na memória recente, o evento que chegou mais perto disso foi a peregrinação de João Paulo II a seu país natal, Polônia, em 1979, quando os comunistas ainda estavam no controle. Lá também, milhões se reuniram para testemunhar em lágrimas um momento que poucos acreditavam que veriam durante suas vidas.
Foi tão monumental que a televisão a cabo não se esforçou em persuadir suas audiências a se esquecer da ocasião com sua programação; a maioria dos canais entrou no clima do dia: o Bravo exibiu reprises de West Wing; o Turner Classic Movies desenterrou Washington Story, um filme de 1952 sobre um respeitável político perseguido por um inescrupuloso repórter; e mesmo a rede MTV tirou uma folga de Daddy's Girls e The Real World para mostrar o discurso de posse de Obama.
A rede Fox News esqueceu totalmente os reverendos Jeremiah A. Wright Jr. e William Ayres. "Seja você democrata, republicano, direita ou esquerda, pró ou contra essa candidatura", disse Shepard Smith, "parece que milhões de americanos estão envolvidos em amor e esperança".
E mesmo a convulsão do senador Edward M. Kennedy não roubou a cena durante o almoço pós-posse da legislatura para Obama no Capitólio.
As críticas ao discurso de Obama foram em sua maioria diplomáticas. Na ABC, o antigo redator dos discursos de Clinton, Michael Waldman, encontrou uma forma delicada para apontar que havia poucas frases memoráveis no discurso de Obama: "ele não se esforçou para criar citações baratas."
As horas finais de George W. Bush como presidente foram notadas, mas superficialmente. Na maior parte das vezes, os âncoras usaram Bush como uma referência para mostrar como Obama lidou melhor com o dia. Chuck Todd da NBC disse no Today que, em 2000, quando os editores preparavam o material para a cobertura, não conseguiam encontrar discursos de campanha "memoráveis" de Bush, enquanto que Obama tinha tantos que foi como "pescar um peixe em um barril."
Bob Schieffer da CBS lembrou os telespectadores do "rancor" sobre a contagem de votos na Flórida, que fez muitos duvidarem da legitimidade da eleição de Bush mesmo durante seu juramento. Como muitos outros âncoras, Schieffer repetia que não conseguia se lembrar de nada parecido com o primeiro dia do governo Obama.
E os telespectadores não sabiam bem para onde olhar: a televisão celebrava um novo presidente fazendo história, mas a tela também pertencia aos milhões em Washington que fizeram história simplesmente comparecendo.

- The New York Times


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