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Bush merece crédito por evolução histórica, diz Rice

16 de novembro de 2008 12h58

Em 20 de janeiro, Barack Obama herdará um mundo muito diferente daquele que seu predecessor encontrou ao assumir a presidência em janeiro de 2001. Ao longo dos últimos oito anos, o governo Bush enfrentou sérios desafios e abrigou grandes ambições, tentando ao máximo refazer o mundo.

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Condoleeza Rice ocupou papel central nesses esforços desde que se tornou a principal assessora de política externa de George W. Bush quando ele ainda era candidato, em 2000, e por isso marcamos uma entrevista com ela em seu escritório no Departamento de Estado, no final de outubro. A entrevista se tornou uma ampla discussão do rumo a que o atual governo conduziu o país e sobre o mundo que o novo presidente encontrará.

Seguem abaixo os destaques das declarações de Rice. Conversamos também com outras autoridades no setor de política externa do governo - Christopher Hill e Daniel Fried, do Departamento de Estado, e o general James Jones, antigo comandante supremo das forças aliadas na Europa -, e as declarações deles complementam e esclarecem as de Rice.

A democracia norte-americana, no país e no exterior

O que uma presidência Obama significa para o resto do mundo? Eleger um presidente negro significa, para o resto do mundo, uma capacidade de curar velhas feridas. Eu já disse que, em nosso caso, nós tínhamos um defeito congênito mas o superamos.

Qual é o significado da eleição que ele venceu? Já ouvi pessoas comentando sobre como, na atual eleição, pessoas de lugares distantes aprenderam a diferenciar entre uma convenção estadual e uma primária. Acredito que isso se relacione ao fato de que, sob o atual presidente, os Estados Unidos foram mais ativos e mais insistentes em divulgar a mensagem de que a democracia não é para poucos. As pessoas estão observando e creio que tentam aprender com a experiência da democracia.

O que a promoção da democracia pelos Estados Unidos pode fazer? Creio que, nos últimos anos, devido à voz mais firme de nosso governo quanto a isso, houve alguns avanços reais - a concessão do direito de voto às mulheres do Kuwait, ou o caso do Iraque, uma democracia imperfeita, frágil e ainda emergente, mas que abarca múltiplas religiões e etnias, e ocupa posição central no mundo árabe.

E por que os Estados Unidos não deveriam deixar de promovê-la? Caso os Estados Unidos deixem de ser o marco, creio que a democracia sairia da agenda internacional em um momento no qual começamos a ver, por exemplo, os europeus não hesitarem em conceder um prêmio a um dissidente chinês apesar das reações adversas de Pequim. (No mês passado, o Parlamento Europeu concedeu seu prêmio Andrei Sakharov a Hu Jia, um dissidente chinês que está cumprindo sentença de prisão de 42 meses por ter defendido os direitos humanos.) Os egípcios sabem que sua próxima eleição será uma importante eleição de transição, e creio que insistirão em um tipo de eleição diferente.

Superpotência do passado, superpotências do presente
Os problemas que a Rússia têm: Eles têm problemas, e a base disso é que a legitimidade do governo russo não é a ideologia; não é uma pretensão de que haja uma rota diferente para o desenvolvimento humano, como na era do comunismo. É a capacidade dos russos de, se não podem comprar os produtos da loja Cartier perto de Tverskaya, ao menos poderem ir à loja da Ikea que agora se tornou o foco da atração na região do monumento que celebra o local em que foi repelido o último ataque da ofensiva alemã contra Moscou, em 1941.

Um problema russo ainda maior: A população russa está envelhecendo e não está sendo substituída; infelizmente, a população do país também enfrenta dificuldades de saúde, e sua economia não aproveitou os preços altos do petróleo para se diversificar. A infra-estrutura continua a ser um pesadelo, fora das grandes cidades, e especialmente na região do Extremo Oriente russo. Por isso, creio que devamos ficar calmos.

Como Bush manteve a união do Ocidente: A idéia de que nossas relações com os europeus são ruins é um mito. Temos relacionamento excelente com todos os países europeus, no momento. Pode ser que tenhamos passado por alguns desacordos mas, mesmo quanto a um assunto como a melhor forma de combater o terrorismo, creio que exista crescente acordo no sentido de que não trata apenas de uma questão policial, e isso suscita questões políticas difíceis sobre a necessidade de coligir informações versus as liberdades civis, e assim por diante.

O Oriente Médio, e mais além

Como mudamos a conversação: Houve alguns avanços reais, mas tivemos também uma completa mudança da conversação, especialmente no Oriente Médio, onde alguma forma de legitimidade popular está sendo procurada em quase todos os países. A voz dos Estados Unidos teve papel importante nessa conversação.

Como levar adiante essa conversação: Acredito sinceramente que tenhamos hoje a melhor atmosfera entre israelenses e palestinos desde os anos 90, e fico muito agradecida por isso ter acontecido. A liderança palestina é declaradamente favorável a negociações, renunciou à violência e reconhece o direito de Israel a existir. Há um processo robusto de negociação já estabelecido, eles fizeram grandes progressos na direção de uma solução que envolva a coexistência de dois Estados.

Por que rapidez é essencial para lidar com o Hamas: A tomada de controle do Hamas na Faixa de Gaza é um problema, mas graças ao bom trabalho dos egípcios a situação por lá se acalmou, pelo menos por enquanto. Um dos motivos para tentar produzir um acordo rápido é que, em minha opinião, o presidente Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, precisa poder apresentar um acordo ao povo palestino para aprovação em referendo ou eleição, a fim de excluir o Hamas do diálogo político ou forçar o movimento a aceitar o resultado, o que considero improvável. O mais plausível seria deixar o Hamas de lado ao provar que eles não têm soluções a oferecer para o problema palestino.

Como mudar um regime lentamente: Nós dissemos ao Irã que a questão é a de mudar o comportamento do regime que eles têm, e não mudar o regime. Essa vem sendo a nossa mensagem o tempo. Será que temos esperança de que o povo iraniano... o povo iraniano merece um regime diferente daquele que tem? Com certeza. Mas a maneira pela qual tentamos ajudar a democracia no Irã é auxiliar as forças locais que lutam por isso unir todo mundo que oferece assistência em desastres, enviar nossos artistas e até nossos lutadores de luta livre para visitar o país.

Crepúsculo das instituições:

Onde o "nunca mais" nunca veio a ser adotado: Arrependo-me de algumas coisas com relação a Darfur, arrependimentos reais. Mas não sei se havia outras respostas possíveis. O presidente considerou a possibilidade de tentar fazer alguma coisa unilateralmente - mas era muito difícil. Descobrindo se "a responsabilidade de proteger" significa alguma coisa: Eu creio que para nós a Responsabilidade de Proteger significava alguma coisa. (Em 2006, as Nações Unidas adoraram esse princípio, sob o qual a comunidade internacional deve proteger os direitos das pessoas no interior de um país soberano caso o governo desse país não o esteja fazendo). Lembro-me de que quando o termo "responsabilidade de proteger" surgiu em debate na Assembléia Geral das Nações Unidas, em 2006, a primeira coisa que pensei no momento foi que, se isso for apenas retórica vazia, o Conselho de Segurança sairá prejudicado. E, no caso de Darfur, o princípio provou ser apenas retórica. Creio que isso tenha representado um enorme embaraço para o Conselho de Segurança e para a diplomacia multilateral.

Por que o Conselho de Segurança negligenciou Darfur: Nós trabalhamos quanto a isso por muito tempo. Raramente passa um dia em meu departamento sem que tentemos descobrir maneiras de aumentar as forças presentes em Darfur, fazer com que o governo do Sudão cumpra os numerosos acordos que aceitou e em seguida desrespeitou. Vamos ao Conselho de Segurança e ninguém deseja conseqüências - bem, não exatamente ninguém, lamento, mas há aqueles que não desejam que haja conseqüências. E assim terminamos por uma vez mais impor sanções unilaterais. Os europeus fazem alguma coisa, mas outros interesses parecem ter mais peso que a responsabilidade de proteger.

Como a Otan realmente funciona: Acima de tudo, a Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan) assumiu a missão que tem no Afeganistão em decisão consensual. A aliança só opera de forma consensual. E creio que estejamos vendo uma participação crescente da aliança. Os franceses elevaram o número de soldados que têm no país, e a maioria dos países menores também elevaram os efetivos que oferecem, ao longo do tempo.

Uma aliança de democracias jamais é simples: Existe essa imagem antiga da Otan como uma unidade total, absoluta, mantendo exatamente as mesmas visões que existiam na era da guerra fria. Completa ficção. Ficção. Vocês se lembram de que, em 1989, o grande 40° aniversário da criação de Otan, houve um sério desentendimento na conferência de cúpula da instituição quanto ao posicionamento de forças nucleares de curto alcance no território de países membros? Pois é, a Otan sempre foi uma aliança de democracias... Sim, eu gostaria de ver a Otan assumindo maiores responsabilidades. Sim, nós pressionamos fortemente para que a Otan assuma maiores responsabilidades. Sim, nós não apreciamos as restrições que alguns países adotam em suas operações conjuntas com a aliança, e algumas dessas restrições terminaram abandonadas, com o passar do tempo. (Os países da Otan que enviam soldados para operar no Afeganistão em diversos casos insistiram em restrições quanto ao uso das forças que colocam à disposição do comando da Otan). Mas veja o que essa aliança já realizou: são resultados impressionantes.

O passado e o futuro da agenda Bush

Por que Bush estabeleceu sua "agenda da liberdade"? George W. Bush merece crédito por reconhecer que estamos agora estabelecendo os termos para a próxima grande evolução histórica. O presidente reconheceu que liberdade era não só algo de desejável, mas sim um componente essencial para os Estados Unidos, e que a palavra não significava apenas liberdade ante a tirania, mas liberdade ante a fome a e à doença. E que, se queremos que os líderes do planeta sejam verdadeiramente democráticos, eles precisam ser capazes de atender às necessidades de seus povos. Por isso, o presidente decidiu acatar as metas do Desafio do Milênio e dos projetos internacionais de combate à malária e ao HIV/aids. (O presidente Bush anunciou a iniciativa do Desafio do Milênio em 2002. O projeto enfatizava a boa gestão das medidas assistenciais e a prestação de contas quanto aos esforços de assistência estrangeiro, e resultou na formação da Millennium Challenge Corporation, uma organização semipública, em janeiro de 2004.)

E também queríamos vincular a grande compaixão que os Estados Unidos sempre demonstraram aos nossos interesses de segurança. Fazer com que tudo girasse em torno de democracia, defesa e desenvolvimento. Estamos apenas no começo dessa transformação histórica, e é preciso ter consciência de que os começos muitas vezes são mais solitários do que os finais. O importante é reconhecer, realmente, que existe apenas uma resposta quanto à forma certa de governo, e se trata da democracia. Ela toma formas diferentes. Existe democracia japonesa e existe democracia norte-americana, bem como existem democracias frágeis, democracias emergentes, e Estados que estão tentando encontrar alguma forma de legitimidade popular.

Política de imigração é uma forma de política externa: Não conseguimos aprovar um pacote abrangente de reforma das leis de imigração. E creio que todo mundo esteja ciente de que o atual presidente se esforçou para isso. Lembro-me de que a primeira reunião de política externa a que compareci com o então governador, antes de ele tomar posse, foi com Vicente Fox, então também um governador e que subseqüentemente seria o presidente do México, e eles conversaram sobre a necessidade de resolver esse problema. Acredito firmemente na necessidade de defender nossas leis e de defender nossas fronteiras... Mas também é verdade que há muita gente que trabalha com afinco em nosso país e precisa viver nas sombras. Os imigrantes têm posição central na identidade norte-americana: Fui uma das principais proponentes do programa de admissão de trabalhadores temporários, e de encontrar alguma forma de normalizar a situação de pessoas irregulares. Creio que isso seja parte do cerne de nossa identidade.

O que não deveria ser abandonado: A outra coisa sobre a qual me preocupo, em função da atual crise financeira mundial e das conseqüências econômicas que ela pode ter, é que não sacrifiquemos nossa assistência internacional. O Desafio do Milênio e programas como ele recomendam investimento nos povos, combate à corrupção e democracia, aos líderes que desejam nossa ajuda. Se não cumprimos a promessa de ajudar, então os bons governos de todo o mundo que apostaram seu futuro nesse argumento estarão em séria dificuldade. E por isso espero que a assistência estrangeira cresça, se alguma mudança tiver de acontecer.

Quando assumimos, ela estava estagnada. O presidente a duplicou na América Latina, quadruplicou na Ásia, triplicou no mundo. O presidente autorizou a contratação de 300 novos agentes para o serviço de assistência internacional e de 1,1 mil novos funcionários do serviço diplomático, porque nós acreditamos que diplomacia da transformação queria dizer que o diplomata não deva se limitar a ficar acomodado na capital conversando com o governo. O trabalho é ir a campo e descobrir como ajudar esses governos. Sem as ferramentas que o serviço e os programas de assistência internacional nos oferecem, não seremos capazes de consegui-lo.

(Helene Cooper é correspondente diplomática do 'New York Times' e autora de 'The House on Sugar Beach'. Scott L. Malcomson é editor da 'New York Times Magazine' e autor, entre outros, de 'One Drop of Blood: The American Misadventure of Race')

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times Magazine
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