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Tijuana: remédio para suicidas é vendido nas ruas

22 de julho de 2008 17h41

"Cocaína", ofereceu o tipo suspeito que trabalhava na decadente avenida Revolución, em Tijuana, uma noite dessas, falando em voz bem alta. "Que tal garotas, então?" Quando nenhuma das duas ofertas atraiu a reação desejada, ele propôs outra idéia: "Charutos cubanos?"

O mascate poderia ter prosseguido por muito tempo com sua récita da extensa lista de produtos ilegais disponíveis em Tijuana. Um dos produtos dessa cidade de fronteira, porém, supera todos os demais em termos de valor de choque: "morte engarrafada".

O medicamento, pentobarbital, literalmente tira a respiração da vítima. Pode matar ao adormecê-la, e é estreitamente regulamentado na maioria dos países. Mas para pessoas doentes e envelhecidas que desejam uma maneira rápida e indolor de pôr fim à vida, em nenhum lugar é mais fácil do que México obter o pentobarbital, barbitúrico vendido nos Estados Unidos sob a marca Nembutal.

No passado disponível amplamente como sonífero, agora o medicamento é usado principalmente para anestesiar animais durante cirurgias, e para sacrificá-los. Pequenas garrafas de sua forma líquida concentrada, em quantidade suficiente para matar, podem ser encontradas não só nas prateleiras de diversas farmácias de baixo preço em Tijuana como em lojas de animais, que vendem diversos animais bem como medicamentos e outros suprimentos para eles.

"É no México que o Nembutal está disponível de maneira mais ampla", diz The Peaceful Pill Handbook ("Manual da pílula pacífica", em tradução livre), um livro que ensina métodos de suicídio. Co-escrito por Philip Nitschke, fundador da Exit International, um grupo australiano que auxilia pessoas que desejem pôr fim às suas vidas rapidamente, o livro está proibido na Austrália e na Nova Zelândia. Nos Estados Unidos, porém, é fácil encontrá-lo online com apenas alguns cliques de mouse.

O livro, bem como os seminários que Nitschke organiza, oferecem estratégias para morrer. A forma menos trabalhosa e mais indolor de morrer, na opinião dele, é adquirir pentobarbital mexicano, vendido sob marcas como Sedal-Set, Sedalphorte e Barbithal.

As pessoas que procuram o medicamento oferecido por Nitschke costumam vasculhar as farmácias veterinárias em Tijuana e nos arredores. As prateleiras oferecem remédios contra carrapatos em cachorros, vitaminas para cavalos e uma ampla variedade de caixas e garrafas que fazem pouco sentido para quem não seja veterinário.

O livro de Nitschke, porém, oferece belas fotos das muitas versões de pentobarbital mais adequadas ao suicídio. Comprar o medicamento pode requerer apenas mostrar a foto a um balconista, e pagar cerca de US$ 30 por dose.

Os vendedores das lojas de animais em Tijuana admitem que estrangeiros freqüentemente perguntam pelo remédio. "Provavelmente já tivemos 100 pessoas que chegaram perguntando sobre ele nos dois últimos anos", disse Pepe Velazquez, veterinário e proprietário da farmácia El Toro.

Até que o jornal regional El Norte publicasse uma reportagem recentemente detalhando como era fácil comprar pentobarbital - e como os compradores estrangeiros pretendiam usá-lo - os donos de lojas e vendedores dizem que presumiam que as compras tivessem por objetivo sacrificar animais de forma indolor.

"Não tínhamos idéia do que eles estavam fazendo", disse o vendedor em uma loja de animais chamada Califórnia. "O produto é para animais. Tudo aqui é para animais. Pensávamos que eles o usassem para seus animais".

Mas verdade o medicamento estava sendo comprado para consumo humano. Nitschke estima que 300 membros de seu grupo, a maioria australianos mas incluindo alguns americanos e europeus, tenham adquirido o medicamento no México nos últimos anos. Alguns o guardam para quando sua saúde se deteriorar a ponto de lhes tirar a vontade de continuar vivendo. Em alguns poucos casos, os compradores usaram o medicamento ainda no México.

"Quem vê percebe uma morte tão pacífica quanto possível", disse Nitschke sobre a morte por pentobarbital. "Usualmente recomendo que eles a tomem com sua bebida favorita, porque o sabor é amargo. Nunca vi quem conseguisse terminar seu uísque ou champanha. Não há tempo suficiente para fazer um discurso. Você adormece e morre logo."

Mas agora que a informação de que o medicamento vem sendo usado por seres humanos se espalhou, as autoridades locais estão tentando reprimir as compras não autorizadas. As lojas só devem vender o medicamento a veterinários licenciados que apresentem receita.

Don Flounders, 78 anos, sofre de mesotelioma, uma forma rara e letal de câncer usualmente vinculada à exposição a fibra de amianto. Ele não encontrou problemas para obter pentobarbital quando viajou da Austrália a Los Angeles em janeiro, e depois cruzou a fronteira em Tijuana para sua expedição de compra.

"Fui à primeira loja com um placa que a identificava como de produtos veterinários, entrei, mostrei a foto e eles me venderam o produto", ele declarou, em entrevista por telefone, da Austrália.

Mas levar o remédio para casa foi mais complicado. Entrar nos Estados Unidos com pentobarbital é ilegal, e a Exit International afirma que agentes da alfândega dos Estados Unidos apreenderam o medicamento de três de seus membros, ao menos. O grupo diz que nenhum integrante foi apanhado com o medicamento pela alfândega australiana.

Mas quando chegou em casa, Flounders, que faz campanha pela eutanásia, deu uma entrevista a uma equipe de TV falando da compra. Ele foi filmado levando uma ampola do medicamento a Angie Belecciu, 56 anos, que está morrendo de câncer e ajudou a financiar sua visita ao México. As casas de ambos foram mais tarde revistadas pela polícia federal da Austrália, país em que suicídio assistido é ilegal.

"Foi uma afronta", disse Flounders sobre a ação policial. "Tenho 78 anos e minha mulher tem 85. Sofro de uma doença incurável, e quando quatro policiais grandalhões aparecem na escada da frente em minha casa, isso certamente me incomoda". Nem Flounders nem Belecciu usaram o pentobarbital, e a polícia não apresentou acusações contra nenhum dos dois.

Outra australiana que adquiriu o medicamento no México, Caren Jenning, foi condenada em junho por cumplicidade, em um processo de homicídio culposo, porque um amigo, Graeme Wylie, que sofria de Mal de Alzheimer em estágio avançado e havia há muito expressado o desejo de pôr fim à própria vida, usou o remédio comprado por ela para se suicidar, dois anos atrás.

Outra condenada por homicídio culposo no processo foi Shirley Justins, que vivia com Wylie e abriu o vidro de Nembutal adquirido por Jenning, informando ao companheiro que, caso ele tomasse o remédio, morreria sem dor.

"O caso todo girava em torno de determinar se aquele homem tinha a capacidade mental necessária a decidir tomar um remédio que poria fim à sua vida, naquele momento", disse Sam Macedone, advogado de Jenning. O tribunal se deixou convencer ao menos parcialmente pelas alegações dos promotores públicos, segundo os quais Wylie estava sofrendo de uma forma tão aguda de demência que era incapaz de tomar uma decisão bem informada sobre sua vida.

Jenning sofre de câncer, disse Macedone. Ela agora pode enfrentar sentença de prisão de até 25 anos, mas sua expectativa de vida no momento é de menos de um ano. Caso ele apresente um apelo, o caso provavelmente não seria resolvido antes que ela morresse. Ele afirmou que era terrivelmente triste que "façamos alguém passar por tudo isso quando tudo que ela fez foi ajudar um amigo a chegar ao lugar a que desejava ir".

O suicídio assistido se tornou uma questão controversa no México, onde em abril o Senado aprovou um projeto de lei que autoriza aos médicos parar de administrar medicamentos que mantenham pacientes vivos, mas não que eles tomem quaisquer medidas ativas que possam induzir a morte. A Igreja Católica se opõe fortemente à eutanásia. "Para mim, a idéia é horrível", diz Velazquez. "Acredito que as pessoas deveriam viver pelo tempo que Deus determinar".

Toda a publicidade quanto ao uso não autorizado do pentobarbital tornou um pouco mais difícil encontrar o medicamento à venda nas regiões adjacentes à fronteira norte do México. "Oh, não, isso nós não temos", disse um vendedor na El Grano de Oro, e essa mesma informação foi repetida em seis diferentes lojas de produtos veterinários na zona de turismo de Tijuana, em uma tarde recente.

Na sétima loja, porém, a apenas alguns quarteirões de distância da avenida Revolución, a vendedora informou que o medicamento estava em estoque. Procurou numa prateleira atrás dela e encontrou uma caixa de Sedalphorte, uma das marcas recomendadas por Nitschke. A embalagem trazia fotos de um gato e de um cachorro e um alerta, em letras fortes, de que o medicamento só podia ser vendido sob receita.

Perguntada se me venderia o produto, a balconista me olhou com expressão confusa. "Claro", respondeu, e logo registrou a venda de um vidro por US$ 45.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
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