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 Bibicletas de aluguel viram moda nas ruas de Paris
14 de julho de 2008 14h16 atualizado às 14h24

São cerca de 20,6 mil bicicletas distribuídas por mais de 1,45 mil postos de auto-atendimento para a locação em Paris. Foto: The New York Times

São cerca de 20,6 mil bicicletas distribuídas por mais de 1,45 mil postos de auto-atendimento para a locação em Paris
Foto: The New York Times

Elas são grandalhonas, pesadas e feias, mas apesar disso estão na moda - e não, não estamos falando dos sapatos plataforma desta temporada. Um ano depois da introdução das robustas bicicletas cinzentas conhecidas como Vélib', seu uso não pára de crescer em Paris. O aluguel das bicicletas é barato porque é subsidiado por publicidade, e outras grandes cidades do planeta, entre as quais algumas nos Estados Unidos, vêm explorando projetos semelhantes.

» Veja fotos das bicicletas em Paris

Cerca de 20,6 mil bicicletas estão em uso no sistema Vélib', em Paris, distribuídas por mais de 1,45 mil postos de auto-atendimento para a locação. Os postos estão posicionados a intervalos de cerca de 300 metros, e seu número é quatro vezes maior que o das estações de metrô - mesmo em uma cidade tão bem servida por seu serviço de metrô.

No primeiro ano do serviço, informa o governo de Paris, 27,5 milhões de jornadas de bicicleta foram realizadas nesta cidade de cerca de 2,1 milhões de habitantes, muitas das quais por pessoas que usam as bicicletas diariamente para chegar ao trabalho. Em média, há 120 mil viagens por dia. E em 27 de julho, quando a Volta da França de ciclismo for concluída, na capital francesa, 365 afortunados usuários do Vélib' serão sorteados para acompanhar os competidores por alguma distância e cruzar a linha de chegada.

Há um site especial para o Vélib', moda para os usuários das bicicletas de aluguel e um blog (www.blog.Vélib'.paris.fr/blog); um post recente discutia a melhor maneira de andar de bicicleta se o usuário estivesse de saia. Também surgiu uma espécie de comportamento Vélib', especialmente no horário de maior movimento, de manhã; as pessoas aprenderam a verificar rapidamente as bicicletas para selecionar as que estão em melhor condição -pneus calibrados, correntes no lugar, cestas de carga intactas.

Natallya Ghyssaert, 34 anos, é uma médica que fez uma assinatura anual do serviço por 29 euros (cerca de US$ 46), e por isso pode usar qualquer bicicleta do sistema por até 30 minutos sem pagar tarifas adicionais. Ela costuma usar as bicicletas duas ou três vezes por dia, e diz: "Eu adoro; você pode ver Paris, fazer exercício e ficar exposta à luz do dia".

O sistema Vélib' - contração de "vélo" (bicicleta) e "liberté" (liberdade)- também funciona em base de passes diários ou semanais, com um depósito de 150 euros (US$ 239 dólares) garantido pelo cartão de crédito do usuário caso a bicicleta não seja devolvida. Para uso por período superior a 30 minutos, a tarifa pode subir muito. Duas horas custam sete euros (US$ 11). Mas 96% dos percursos têm menos de 30 minutos de duração, porque as bicicletas podem ser devolvidas em qualquer estação.

Ninguém sabe ao certo quantos percursos em táxis ou carros particulares são evitados dessa maneira, mas a natureza "ecológica" do Vélib' vem recebendo forte promoção em um país no qual os fabricantes de sucos alertam sobre os riscos que o nosso "frágil planeta" corre em suntuosas brochuras impressas em papel espesso. Benjamin Tomada, 30 anos, um cozinheiro que estava estacionando sua bicicleta Vélib' perto do restaurante Music Hall, onde trabalha, disse que "eu tenho carro, mas prefiro não usar. E é sempre melhor usar uma bicicleta que o metrô".

Ainda assim, as bicicletas vêm causando sérios problemas de congestionamento de trânsito e segurança, bem como enfrentando uma onda de vandalismo e roubo. Pelo menos três mil das bicicletas foram roubadas, desde o início do programa - o que representa 15% da frota total e duas vezes mais que as estimativas originais previam. Algumas delas foram localizadas na Romênia, e em contêineres de transporte marítimo nos quais seriam levadas ao Marrocos. Usar capacete não é compulsório na França, e três pessoas já morreram em acidentes quando suas bicicletas alugadas foram atingidas por ônibus ou caminhões.

O programa Vélib' foi concebido por Bertrand Delanoë, o prefeito socialista de Paris, e o contrato de 10 anos para operar o sistema foi conquistado pela JCDecaux, uma grande companhia francesa de relações públicas e publicidade, dotada de excelentes contatos junto às autoridades, que derrotou em concorrência a rival Clear Channel. O contrato supostamente deve beneficiar Paris, mas promete ser extremamente lucrativo para a JCDecaux, com a passagem do tempo.

A JCDecaux conquistou o direito de operar 1.628 painéis para outdoors espalhados por Paris; o investimento da empresa para montar o sistema de locação e criar os outdoors chegou a US$ 142 milhões, e ela assumiu a obrigação por garantir a manutenção e substituir as bicicletas roubadas; a prefeitura de Paris fica com os proventos da locação das bicicletas e recebe royalties da JCDecaux.

Até o momento, de acordo com Rémy Pheulpin, vice-presidente executivo da JCDecaux, a empresa já montou 1,5 mil posições de outdoors, e sua expectativa anual de faturamento com elas é de US$ 94 milhões. O grupo deve começar a realizar lucros consideráveis se não já no ano que vem, então no ano seguinte, o terceiro de seu contrato de 10 anos. A cidade já recebeu US$ 31,5 milhões dos assinantes e das tarifas individuais de locação, e mais US$ 5,5 milhões ao ano em royalties publicitários, um valor fixo determinado pelo contrato, de acordo com Céline Lepault, gerente do projeto Vélib' na prefeitura de Paris.

Pheulpin, cuja empresa já havia criado programas semelhantes, se bem que em escala muito menor, em 10 outras cidades, como Lyon e Rouen, disse que a JCDecaux aprendeu que diversos fatores eram essenciais para o sucesso: permitir assinaturas por períodos mais longos, a fim de levar as pessoas a sentir que as bicicletas eram gratuitas, depois de pagarem antecipadamente por sua assinatura; garantir que os postos de locação fossem onipresentes e manter o sistema simples para os usuários.

E de fato é fácil usar o Vélib'; as instruções de locação estão disponíveis em diversos idiomas e apanhar uma bicicleta e devolvê-la são procedimentos rápidos - desde que haja bicicletas em boas condições de rodagem disponíveis nos postos. Mas, como descobriram muitos turistas norte-americanos que tentaram experimentar o sistema, apenas cartões de crédito com chips incorporados - comuns na Europa mas ainda pouco usados nos Estados Unidos- são aceitos nos terminais.

Uma subsidiária da JCDecaux cuida da manutenção das bicicletas - cerca de 1,5 mil delas são consertadas a cada dia. As bicicletas são pesadas, com o objetivo de dificultar o roubo de componentes fundamentais como câmbios, correntes e sensores eletrônicos, que medem o tempo de locação. Enquanto uma bicicleta comum pesa cerca de 15 quilos e é usada para um total de pouco mais de 200 km de percursos ao ano, disse Pheulpin, as máquinas de três marchas especialmente projetadas para o Vélib' por uma companhia francesa, e fabricadas na Hungria, pesam quase 22 quilos, e são construídas para rodar 10 mil km ao ano. O preço individual das bicicletas é de US$ 3.460.

No que tange à segurança, a prefeitura de Paris e a JCDecaux argumentam que os acidentes de bicicleta em Paris registraram apenas 7% de alta, comparados aos 24% de aumento no uso de bicicletas desde o começo de 2007. "As bicicletas se tornaram moda, e quanto mais bicicletas tivermos na cidade mais seguro seu uso será, e mais espaço Paris dará aos ciclistas", afirmou o executivo.

A prefeitura e a JCDecaux, depois de uma onda de críticas causada pelo mais recente acidente fatal, em 23 de junho, anunciaram que iniciariam uma nova campanha publicitária de segurança, em setembro. Os usuários do Vélib' devem respeitar as regras de trânsito, os semáforos e evitar andar nas calçadas, mas muitos deles não o fazem.

Os motoristas da sempre congestionada Paris nunca foram muito simpáticos às bicicletas e não estão especialmente felizes com os efeitos delas sobre as ruas já lotadas, ou com os esforços de Delanoë para promover uma redução de 40% no tráfego de automóveis até 2020. Em 2001, Yves Contassot, então vice-prefeito encarregado de questões ambientais, disse, sobre os motoristas, que "só se os forçarmos a viver um inferno os convenceremos a abrir mão dos automóveis". E os motoristas lembram disso.

Faixas largas reservadas exclusivamente a ônibus foram implementadas em grandes vias da cidade, como o Boulevard Montparnasse - a imprensa, que as considera largas demais, apelidou as faixas de "XXL". Embora não em escala semelhante à de Amsterdã, Paris também está construindo mais ciclovias, bem como reduzindo os espaços para estacionamento de automóveis ao instalar postos de locação do sistema Vélib' em seu lugar.

"Isso é o que os franceses costumam chamar de 'falsa boa idéia'", disse Ronald Koven, que se desloca de carro por Paris. "Os congestionamentos de trânsito se agravaram muito, e por causa deles também estamos vendo muito mais poluição".

A médica Ghyssaert diz que se sente segura andando de bicicleta, "exceto em alguns bairros muito movimentados, onde existem carros demais". Ela nem sempre é uma ciclista cuidadosa, admite. "Eu uso a bicicleta para cortar no meio do trânsito, e sei que os motoristas se irritam por verem tantas bicicletas".

Capacetes seriam uma boa idéia, ela disse, oferecendo uma solução muito francesa: "A prefeitura deveria oferecer mais subsídios, com cupons que permitissem que os assinantes da Vélib' comprassem capacetes nas lojas da cidade".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
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